Kant e a moralidade das ações


Alguns colegas têm-nos perguntado algo como o seguinte:

Tendo em conta que, para Kant, o valor moral da ação não depende das suas consequências, será correto afirmar que para ele uma ação é boa ou má em si mesma?

A nossa resposta é que não é correto afirmar tal coisa.

Em primeiro lugar, é importante esclarecer um ponto prévio. Ainda que o valor moral de uma ação não dependa das suas consequências, como realmente pensa Kant, isso não implica que a ação seja moralmente boa em si mesma. Concluir tal coisa é cair num falso dilema. É como inferir que uma coisa é preta simplesmente porque não é branca. Ela pode afinal ser azul, verde, às riscas brancas e amarelas, etc. Do mesmo modo, o valor moral de uma ação pode não depender das suas consequências nem o seu valor moral residir em si mesma. O valor moral da ação pode, por exemplo, depender da intenção com que é realizada. Ora, é precisamente isso que pensa Kant. 

De acordo com Kant, a ação por si só não chega para sabermos se tem ou não valor moral. Precisamos de saber algo mais; se a intenção ao realizá-la foi a de cumprir o dever ou outra qualquer. É por isso que não basta sabermos que o merceeiro não engana os seus clientes; precisamos ainda de saber o que o leva a fazer isso. Se o fizer para não perder clientela, então a sua ação não tem valor moral. Mas se o fizer porque simplesmente quer cumprir o dever, então a mesma ação já terá valor moral. Ora, se uma ação fosse boa (ou má) em si mesma, seria boa (ou má) independentemente de quaisquer intenções, e nada mais precisaríamos de saber. 

Não sabemos, pois, onde se foi buscar esta ideia errada de que para Kant as ações são boas ou más em si mesmas. Até porque logo no início da primeira secção da Fundamentação da Metafísica dos Costumes ele diz claramente que nada há que seja bom em si mesmo a não ser uma boa vontade. 

O facto de uma ideia ser muito difundida não significa que seja correta. 

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