O que é a filosofia? Um diálogo

Carlos: Olá, Joana! Faz tempo que não te via! Tudo bem?
Joana: Tudo bem! Estamos quase a começar as aulas, hein?
Carlos: Nem me fales… as férias parecem-me sempre demasiado curtas. Ainda bem que te encontrei porque quero perguntar-te uma coisa.
Joana: O quê?
Carlos: Tu já estudaste filosofia no ano passado, não foi?
Joana: Sim, e este ano vou estudar de novo. Porquê?
Carlos: Porque gostava de saber alguma coisa sobre essa disciplina, que este ano vou estudar pela primeira vez. O que é a filosofia?
Joana: Bom, não é fácil dizer em poucas palavras o que é a filosofia!
Carlos: Eu já desconfiava que era uma chatice. O que não consegues dizer em poucas palavras é sempre uma chatice.
Joana: O que é a matemática?
Carlos: O quê?
Joana: A matemática é uma chatice?
Carlos: Não, até gosto bastante de matemática. Pelo menos, de algumas partes.
Joana: E consegues dizer em poucas palavras o que é a matemática?
Carlos: Claro! A matemática é a disciplina em que estudamos problemas matemáticos.
Joana: Nesse caso, também posso dizer-te que a filosofia é a disciplina em que estudamos problemas filosóficos.
Carlos: Mas eu fiquei na mesma! O que são problemas filosóficos?
Joana: E o que são problemas matemáticos?
Carlos: Ah… bom, não é fácil dizer o que são, mas posso dar exemplos, como a maneira de determinar a área de um triângulo, ou o modo como resolvemos equações.
Joana: O mesmo posso eu fazer com os problemas filosóficos. Posso dar-te exemplos.
Carlos: OK, dá-me lá um exemplo.
Joana: Qual é o problema de matar pessoas?
Carlos: O quê? Estás doida?
Joana: Estou só a perguntar. Certamente pensas que não devemos matar pessoas. Certo?
Carlos: Claro.
Joana: Mas sabes ou não por que razão não devemos fazê-lo?
Carlos: Curioso... Na verdade, nunca pensei nisso. Apenas parece óbvio.
Joana: Do mesmo modo que a escravatura parecia óbvia, aos nossos antepassados do séc. XVI?
Carlos: É isso a filosofia? Analisar as coisas que nos parecem óbvias?
Joana: Não é bem isso. Na verdade, se pensares bem, também nas ciências da natureza, e na matemática, analisas as coisas que nos parecem óbvias — e muitas vezes descobres que o que parecia óbvio afinal é falso.
Carlos: Tens razão! Parece óbvio que a Terra é plana, mas não é.
Joana: Nesse aspecto, a filosofia é como a ciência: descobrimos por vezes que o óbvio afinal é falso. Essa é uma razão importante para analisar cuidadosamente o que pensamos, mesmo que pareça óbvio. Outra razão é a curiosidade: queremos saber o que fundamenta o que pensamos.
Carlos: Estou a ver... Na verdade, deixaste-me curioso: qual é o problema de matar pessoas? Eu acho que é porque matar pessoas lhes provoca sofrimento.
Joana: Se for apenas isso, nenhum problema haverá em matar as pessoas de um modo indolor, quando estão a dormir. Pensas que nesse caso não há problema?
Carlos: Ah! Claro que não penso isso. Eu não quereria que me matassem, mesmo que o fizessem enquanto durmo, sem me provocar dor.
Joana: Nem eu. Isto indica que talvez haja outro fundamento para a proibição de matar pessoas. Mas pensa também noutra coisa: se fores violentamente atacado e a única maneira de te salvares a ti e aos teus amigos for empurrar o criminoso pela janela do vigésimo andar, matando-o. Nesse caso já parece permissível matar uma pessoa, ou não?
Carlos: Hum… mas neste caso é em legítima defesa!
Joana: Claro. Mas vê o que isto significa: se disseres “é errado matar seres humanos” estarás a dizer uma falsidade. Mas parece uma verdade, porque estás a ser impreciso. O que queres dizer é que é errado matar seres humanos inocentes.
Carlos: Então em filosofia tornamos o nosso pensamento mais preciso? Isso é interessante!

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