O inato e o a priori são coisas distintas


É importante notar que o tópico do inatismo é distinto da questão do a priori. O inatismo não diz respeito à justificação; é apenas uma noção temporal que tem que ver com a questão de perceber se certos conceitos, crenças ou capacidades são possuídos à nascença. A categoria do a priori, no entanto, destaca as verdades em que temos justificação para acreditar sem atendermos à nossa experiência. Foi sugerido que averiguar se temos capacidades ou crenças inatas é uma questão empírica. A questão mais importante, porém — aquela que divide o empirista e o racionalista — é se alguma das nossas crenças sobre matérias empíricas substanciais tem justificação a priori, questão esta que é independente da questão temporal que trata de averiguar quando é que crenças ou capacidades específicas são adquiridas. Podemos ver que estas questões são independentes atendendo à possibilidade de termos crenças inatas que não possuem justificação a priori. Mesmo que eu tenha uma crença em Deus à nascença, subsiste a questão de perceber se esta crença é justificada, e o empirista poderia argumentar que para isso seriam precisas provas empíricas. 
O conhecimento a priori é obtido por intuição e pelo raciocínio, e a justificação que este tipo de conhecimento encerra não depende da nossa experiência do mundo. Os racionalistas sustentam que um pensamento deste tipo nos pode proporcionar verdades substanciais e sintéticas acerca do mundo; os empiristas argumentam que ele só pode proporcionar-nos verdades «triviais», relativas ao significado das nossas palavras. Neste capítulo questionámos as perspectivas tradicionais de que o conhecimento a priori é certo e autoevidente, e vimos que a questão do inatismo é menos decisiva do que por vezes se considera ser. Os empiristas podem admitir que temos certas disposições inatas do tipo avançado por alguns racionalistas, e até a possibilidade de termos algumas crenças a priori antes de nascermos. O argumento-chave dos empiristas, no entanto, é que não podemos ter conhecimento factual antes do nascimento porque a justificação requerida tem de depender da nossa experiência do mundo [...].
Dan O'Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento, p. 75-6

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