sábado, 30 de novembro de 2013

Desobediência civil no Brasil

O 50 Lições de Filosofia é usado em várias escolas brasileiras, e também na preparação universitária de futuros docentes do ensino secundário. Estes diapositivos são a adaptação para a realidade brasileira do tema da desobediência civil, apresentado no 50LF. A adaptação é da autoria de Vinícius Santos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Serão certamente úteis para outros colegas brasileiros e portugueses.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Webfólio


Acabei de ler uma simpática e entusiasmada recensão breve do nosso 50LF, da colega Juana Inês Pontes, no seu Webfólio. Ficamos muito agradecidos pelas suas palavras, que são um estímulo para tentarmos fazer melhor. Obrigado, Juana, esperamos merecer as suas simpáticas palavras!

Popper e a ciência: a teoria na prática

Acabou de ser publicado entre nós um daqueles livros que é capaz de pôr muita gente entusiasmada a pensar sobre o modo como a ciência, a filosofia, e mesmo a história e a arte se relacionam. Trata-se do aclamadíssimo O Início do Infinito, do premiado físico inglês, de origem israelita, David Deutsch. O livro foi traduzido para a Gradiva por Florbela Marques, com revisão de Carlos Fiolhais. 

Deutsch é um físico com um grande pendor filosófico e que sabe lidar com grandes ideias, não necessariamente novas, mas de uma forma inovadora e desafiante. No fundo, o que Deutsch faz neste livro é dar um novo fôlego às ideias de Popper sobre a ciência, procurando mostrar como a prática científica concreta as tem corroborado. Como Popper, Deutsch opõe-se ao empirismo e ao indutivismo. É um livro de leitura compulsiva e pode ser também muito útil para nós professores, que ensinamos e discutimos nas aulas do 11º ano a perspectiva popperiana sobre a ciência. Segue-se um pequeno excerto do livro para abrir o apetite. 



As teorias científicas são explicações: afirmações sobre o que existe no universo e como se comporta. De onde vêm estas teorias? Em quase toda a história da ciência, a convicção errónea de que as «retiramos» das impressões dos nossos sentidos prevaleceu — uma teoria filosófica conhecida como empirismo:

                                           
                                                Empirismo


Por exemplo, o filósofo John Locke escreveu, em 1689, que a mente é como uma «folha em branco» na qual a experiência sensorial escreve, sendo daí que retiramos todo o nosso conhecimento do mundo físico. Outra metáfora do empirismo dizia que podíamos ler o conhecimento no «livro da natureza», olhando à nossa volta. De qualquer modo, o sujeito do conhecimento é o seu recipiente passivo, não o seu criador. 
Na realidade, as teorias científicas não «derivam» de nada. Não as lemos na natureza, nem a natureza as grava em nós. São suposições — conjecturas criativas. As mentes humanas criam-nas reorganizando, combinando, alterando e acrescentando-as às ideias existentes, com a intenção de as aperfeiçoar. Não começamos com uma «folha em branco», quando nascemos, mas sim com expectativas e intenções inatas, e com uma capacidade natural de as melhorar usando o pensamento e a experiência. Efectivamente, a experiência é essencial para a ciência, mas o seu papel é diferente do postulado pelo empirismo. Não é a origem das teorias. A sua função é escolher entre as teorias já conjecturadas. Isso, sim, é «aprender com a experiência».

Vale a pena espreitar também a tradução, feita pelo Desidério, de uma das conferências TED de Deutsch (a conferência pode ser vista aqui). Ou ainda esta tradução, também do Desidério, do anterior livro de Deutsch, o enorme sucesso mundial que foi The Fabric of Reality.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Kant, um filósofo da minha cidade

Kant é um filósofo que dispensa apresentações. Mas poucos de nós conhecem Königsberg, a cidade onde ele sempre viveu. Königsberg é hoje uma cidade russa e chama-se Kaliningrado. Para mim, que vim de Kaliningrado, onde passei vários anos da minha vida, é enorme a curiosidade sobre como era a “minha cidade” no tempo de Kant.

Desde sempre Königsberg representou um atractivo para muitos povos. Noventa por cento do âmbar mundial encontra-se nesta região. Vários metais são obtidos aqui e a cidade também possui uma saída para o Mar Báltico, que sempre foi muito importante. Fundada em 1255 pelos Cavaleiros Teutónicos sob o nome de Königsberg (montanha do rei), fez parte da Polónia de 1466 até 1656. Foi a capital da Prússia, e a partir de 1871 fez parte do Império Alemão.

Mas voltando a Kant, ele foi um respeitado e destacado professor na Universidade de Königsberg, onde permaneceu durante quase toda a sua vida. Após a sua morte, como um magnífico professor e um importante filósofo, foi sepultado na catedral, perto da universidade, onde se encontrava uma pequena igreja de um lado e a Biblioteca Real do outro.


Depois  da Segunda Guerra Mundial, na Conferência de Potsdam, foi decidido que Königsberg passaria a pertencer à União Soviética. A população alemã foi evacuada para a Alemanha. A cidade encontrava-se em ruínas, após múltiplos bombardeamentos dos aliados. 


A maior parte das construções alemãs, principalmente as igrejas, acabaram depois por ser destruídas pelos sovietes. Mas a catedral, que continua a albergar o túmulo de Kant, foi reconstruída, o que mostra o enorme respeito dos governantes de União Soviética pelo filósofo.

Actualmente Kaliningrado tem poucas semelhanças com aquela cidade que Kant conhecia. A maior parte da população de Kaliningrado sabe que Kant foi um importante filósofo e sabe onde é que ele está enterrado: um lugar situado no centro da cidade, onde ocorrem muitas celebrações de datas importantes. 


Mesmo assim, poucos leram algum livro dele ou simplesmente sabem o que ele defendia. Isso acontece principalmente entre a população mais jovem. Muitos tentam combater isso. Em 2005 a Universidade de Kaliningrado passou a chamar-se a Universidade Immanuel Kant e no mesmo ano foi aberto o museu deste grande filósofo, entre outras iniciativas ligadas à memória do filósofo. E cada vez mais turistas vêm visitar este lugar.

Acho, contudo, que a gente de Kaliningrado ainda não consegue aproveitar bem a riqueza histórica e material deste lugar. Os antigos habitantes de Königsberg até a água conseguiam aproveitar de forma eficaz, construindo prédios perto das margens e utilizando-a como via de transporte dentro da cidade. Cada edifício era mais bonito do que o outro. Os parques tinham grandes áreas, e penso que ninguém tinha medo de passear, mesmo à noite. Mas agora é pouco aconselhável andar a certas horas por algumas zonas verdes. Muitas delas estão cheias do lixo e de alcoólicos. Claro que Kaliningrado não é só isso e a maior parte da população não é assim. Mas as pessoas preocupam-se mais com as suas casas, o trabalho e o dinheiro. Resumindo, cada vez mais ignoram tudo o que está fora da sua esfera estritamente pessoal. Neste momento a situação está a melhorar e espero que continue.

Mas também sei que Kaliningrado não voltará a ser a Königsberg de ruas escondidas e casas que pereciam pequenos castelos tirados dos sonhos, como nesta imagem, em que se vê o castelo de Königsberg e, no lado esquerdo, a casa em que Kant viveu.


Houve outros intelectos brilhantes que nasceram em Königsberg, como o do matemático David Hilbert, mas muito dificilmente voltaremos encontrar lá um intelecto tão brilhante como o de Kant.



 Ekaterina Kucheruk, 10º B, ESMTG (2008)

III Olimpíadas Nacionais de Filosofia

As inscrições de candidatura para as III Olimpíadas Nacionais de Filosofia estão abertas até ao dia 14 de Janeiro de 2014. As Olimpíadas terão lugar nos dias 7 e 8 de Março de 2014 na Escola Secundária de Paços de Ferreira.


Podem inscrever-se como candidatos às Olimpíadas apenas alunos do ensino secundário, acompanhados por um professor de Filosofia da sua escola. Mais pormenores sobre as inscrições podem ser encontrados aqui.

As XXII Olimpíadas Internacionais de Filosofia de 2014 irão, por sua vez, decorrer em Vilnius, na Lituânia, entre os dias 15 e 18 de Maio. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Errata actualizada

A errata acabou de ser actualizada, com uma correcção para a página 41 (Lição 10), desta vez enviada por Carlos Pires, professor da E. S. Pinheiro e Rosa. E, já agora, autor, juntamente com Sara Raposo, do excelente blogue Dúvida Metódica. Obrigado, Carlos Pires.

sábado, 9 de novembro de 2013

Filosofia da ciência para o Natal

aqui falámos deste excelente livro. A partir do dia 29 deste mês de Novembro começará a estar disponível nas livrarias. Se neste tempo de crise alguém ainda conseguir deixar algum dinheiro de lado para comprar livros, esta é, sem dúvida, uma boa sugestão. 

Citando o destacado filósofo da ciência David Papineau, pode-se dizer que «sem pressupor qualquer conhecimento prévio quer de filosofia quer de ciência, [...] este livro é a primeira abordagem ideal para quem quer compreender a relação entre a teorização científica e a realidade.»


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O belo e o sublime

Sublime, belo, ou nem uma coisa nem outra?

Outra vez o belo e o sublime. Outra vez um autor setecentista. Quem será o autor do texto abaixo?

Grandes carvalhos e recantos com sombras num bosque sagrado são sublimes; tapetes de flores, sebes baixas e árvores com figuras talhadas são belas. A noite é sublime, o dia é belo. Na tranquilidade da noite estival, quando a luz bruxuleante das estrelas penetra a escuridão da noite que acolhe em si a lua solitária, nas almas que possuem o sentimento do sublime despertará a pouco e pouco um sentimento de amizade, de desprendimento do mundo e de eternidade. O dia radioso infunde uma diligência activa e proporciona um sentimento de alegria. O sublime comove, o belo encanta. A expressão de um homem dominado pelo sentimento do sublime é séria e, por vezes, perplexa e com assombro. No caso do sentimento do belo, porém, ela anuncia-se por meio de uma satisfação cintilante no olhar, por traços risonhos, e com frequência por manifestações de alegria. [...] 
O sublime tem de ser sempre grande, o belo pode também ser pequeno. O sublime tem de ser simples; o belo pode estar adornado e engalanado. Uma grande altura é tão sublime como uma profundeza, mas esta é acompanhada de uma sensação de estremecimento e aquela de uma sensação de admiração, porquanto a primeira é uma sensação assustadora e a segunda é nobre. [...] 
O entendimento é sublime; o engenho é belo; a audácia é grande e sublime; a astúcia pequena, porém, bela. A cautela dizia Cromwell, é uma virtude do regedor. A sinceridade e a rectidão são simples e nobres; o gracejo e a lisonja obsequiadora são finos e belos. A gentileza é a beleza da virtude. A solicitude desinteressada é nobre, a cortesia e a delicadeza são belas. As qualidades sublimes infundem um respeito venerável; enquanto as belas inspiram o amor. As pessoas cujo sentimento tende preferencialmente para o belo, somente em caso de necessidade escolhem como companhia amigos honestos, confiáveis e sérios, enquanto para convivas no entretenimento escolhem pessoas agradáveis, atenciosas e elegantes. Quando se admira alguém de forma excessiva, então parece ser impossível amar essa pessoa, pois a despeito da admiração que por ela temos, encontra-se numa posição tão superior à nossa, que é difícil aproximarão-nos dela com a confiança do amor.
Kant, I. Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime. Trad. Pedro Panarra. Lisboa: Edições 70, 2012, pp. 33-7.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Extensão e intensão de conceitos


Ensina-se por vezes aos alunos a ideia de que a intensão e a extensão dos conceitos se relaciona do seguinte modo:
  1. Quanto maior for a especificidade de um conceito, menor é a sua extensão;
  2. Quanto menor for a especificidade de um conceito, maior é a sua extensão;
  3. Quanto maior for a extensão de um conceito, menor é a sua especificidade;
  4. Quanto menor for a extensão de um conceito, maior é a sua especificidade.
Usei "especificidade" para não falar de maior e menor intensão porque esta, ao contrário das extensão, não tem tamanho, não é uma entidade discreta que possa ser maior ou menor.

Tendo estas quatro ideias em mente, pede-se por vezes aos alunos para ordenar conceitos pela sua extensão ou intensão. O primeiro aspeto deste tipo de exercício é que nenhuma competência lógica ou filosófica estamos a testar nos alunos. Ordenar extensionalmente a lista de conceitos "ser humano, português, lisboeta", por exemplo, exige competência em geografia humana, mas não em filosofia nem lógica. Esta é a primeira razão que milita contra este tipo de exercício.

Mas é a segunda razão que é a mais importante: é que nenhuma das quatro ideias acima é verdadeira. Vejamos:
  1. O conceito de marciano louro bípede é mais específico do que o de marciano, mas não tem uma extensão menor.
  2. O conceito de português é menos específico do que o conceito de brasileiro nascido em São Paulo, mas não tem maior extensão. 
  3. O conceito de brasileiro tem uma extensão muitíssimo maior do que o conceito de português, mas não é menos específico. 
  4. O conceito de homossexual tem menor extensão do que o de heterossexual, mas não é mais específico.
Tendo em vista estes dados simples, talvez não seja uma má ideia conceber outros exercícios para os alunos de filosofia. Seria até uma boa ideia conceber exercícios que testem competências genuinamente filosóficas e lógicas.  

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Um clássico da estética


Foi recentemente publicada a tradução portuguesa de um clássico da estética setecentista. Trata-se de Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo (Edições 70), do político e filósofo irlandês Edmund Burke. 

A tradução deste clássico do «século do gosto», como alguns historiadores da estética chamam ao século XVIII, esteve a cargo de Alexandra Abranches, Jaime Costa e Pedro Martins. Parece uma tradução cuidada e competente, contando também com uma introdução de Alexandra Abranches.

Esta obra é conhecida sobretudo por ter introduzido a distinção entre as categorias estéticas do belo e do sublime, tendo influenciado claramente Kant e outros filósofos.

A ideia que levou Burke a escrever este livro parte, nas próprias palavras do autor, da observação de «que as ideias do sublime e do belo eram frequentemente confundidas e ambas eram indiscriminadamente aplicadas a objectos que diferiam muito, e às vezes de natureza directamente oposta.» (p. 23)

A caracterização que Burke dá do sublime — e que, em termos gerais, é desenvolvida por outros autores, como Kant — é a seguinte: «Tudo o que de algum modo seja capaz de excitar as ideias de dor e de perigo, isto é, tudo o que seja de alguma maneira terrível, ou que diga respeito a objectos terríveis, ou que opere de uma forma análoga ao terror, é uma fonte de sublime, isto é, produz a emoção mais forte que a mente é capaz de sentir.» (p. 58)

O sublime, diferentemente do belo, causa os sentimentos de pequenez, de temor, reverência, assombro e admiração. Nas palavras de Burke: «Há uma grande diferença entre admiração e amor. O sublime, que é causa da primeira, é sempre suscitado por grandes e terríveis objectos; o segundo por pequenos e agradáveis. Submetemo-nos ao que admiramos mas amamos aquilo que se nos submete.» (p. 138).