sábado, 28 de setembro de 2013

Inferências

Há várias maneiras aceitáveis de inferir conclusões a partir de premissas. Algumas dessas inferências são dedutivamente válidas e outras não. Importa, pois, compreender os diferentes tipos de inferência, uma vez que o modo como se avaliam as inferências depende do tipo de inferência em causa. Basta pensar que uma inferência pode não ser dedutivamente válida e, ainda assim, ser uma boa inferência.

Aqui fica um esquema com os principais tipos de inferência. Resta fazer uma caracterização de cada um deles, de modo a podermos avaliar cada caso.



terça-feira, 17 de setembro de 2013

Livre-arbítrio, por Peter van Inwagen

Eis a mais recente entrevista da série No Jardim da Filosofia, desta vez com Peter van Inwagen, que é um dos mais destacados filósofos contemporâneos em áreas como a metafísica e a filosofia da religião. O seu contributo para a discussão contemporânea do problema do livre-arbítrio é amplamente reconhecido, nomeadamente com a sua original defesa do incompatibilismo.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Inspetores de circunstâncias ou tabelas de verdade?


Imagine-se o que seria ensinar lógica sem um termo específico para o conceito de raciocínio. Seria possível? Sim, claro. Apenas seria desnecessariamente mais difícil. Sempre que quiséssemos falar de raciocínio, teríamos de dizer apenas “sequência de proposições” — subentendendo, claro, que nem todas as sequências de proposições são raciocínios.

A vantagem de um termo específico para o conceito de raciocínio é precisamente o facto de os raciocínios terem propriedades que as proposições não têm, e vice-versa: os raciocínios são válidos ou inválidos, mas não verdadeiros ou falsos, e as proposições são verdadeiras ou falsas, mas não válidas ou inválidas. Um raciocínio é uma sequência de proposições, tendo propriedades que dizem respeito à estrutura dessa sequência, e não a cada uma das proposições que a compõem. Tudo isto é apenas um aspecto da elementar distinção entre validade e verdade, e não é arriscado supor que é consensual.

Todavia, o caso muda de figura quando falamos de inspetores de circunstâncias. Apesar de a razão de ser desta expressão, cujo original inglês é “circunstance surveyor”, ser exatamente a mesma, há quem a rejeite. Surpreendentemente, rejeita-a sem propor uma designação alternativa — exatamente como quem rejeita a designação de “raciocínio” para o conceito relevante, mas se inibe de propor uma alternativa, falando-se então de sequências de proposições. Um inspetor de circunstâncias é, de facto, uma sequência de tabelas de verdade. Contudo, do mesmo modo que uma sequência de proposições que constitui um raciocínio não é uma proposição e do mesmo modo que uma sequência de tijolos que compõem uma casa não é um tijolo, também uma sequência de tabelas de verdade não é uma tabela de verdade. Uma tabela de verdade estabelece que uma dada forma proposicional é uma verdade lógica, uma falsidade lógica ou uma contingência lógica, ao passo que um inspetor de circunstâncias estabelece que uma dada forma de raciocínio é válida ou não.

Que razão adequada haverá para não usar o termo que ocorre no livro introdutório de lógica de Newton-Smith? Talvez o facto de tal termo ocorrer apenas neste livro e não noutros? Este facto (se é um facto: eu não fui ver todos os livros introdutórios de lógica para ver se usam algo como “circunstance surveyor”) parece-me quase completamente irrelevante e um sinal seguro de uma menoridade académica e escolar incompatível com uma formação intelectual sólida. Faz-me lembrar uma história, não sei se apócrifa, na qual Einstein, ao descobrir que perto de uma centena de eminentes físicos do seu tempo escreveram à revista onde ele publicou o seu artigo original com a primeira parte da teoria da relatividade protestando pela sua publicação, reage comentando que se algo houver de errado no artigo não é preciso tanta gente: basta um, e basta que mostre o que está errado. Parece-me completamente irrelevante que nenhum outro livro de lógica use uma expressão específica para um conceito bem delimitado e cujo uso tem um impacto didático importante; o que me parece relevante é ser capaz de pensar autonomamente sobre as opções que temos à nossa frente: usar “tabelas de verdade” e cometer um erro científico e uma inadequação didática ou usar um termo específico para sequências de tabelas de verdade que não são meras sequências de tabelas de verdade tal como um raciocínio não é uma mera sequência de proposições. E quando se pensa desta maneira, a opção parece-me clara.

Há outra razão contra o uso de “inspetor de circunstâncias”, e esta é muitíssimo mais promissora. É que o termo português foi introduzido por mim porque fui eu quem traduziu o livro, e um princípio adequado da vida académica e escolar portuguesa é que, seja o que for que eu faça, é lixo. Esta razão tem bastante peso, uma vez que nos últimos vinte anos fui suficientemente estúpido para tentar dar uma contribuição modesta e humilde para melhorar ligeiramente o ensino da filosofia no meu país (quão estúpido, eu sei!), em vez de pensar exclusivamente nos meus interesses pessoais e profissionais. Procurei dar mais à filosofia do que a filosofia me deu a mim, e este é um princípio ridículo quando quase toda a gente faz exactamente o inverso disso.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

As disciplinas da filosofia

Acabámos de inserir no manual digital um PowerPoint com 38 slides que apresentam aos estudantes, de modo sintético e simples, algumas das disciplinas da filosofia. Para ver uma breve amostra clique na imagem:

domingo, 8 de setembro de 2013

Bertrand Russell

"Há um velho debate entre filósofos sobre a questão de saber se a dedução alguma vez fornece conhecimento novo. Podemos agora ver que fornece, pelo menos em certos casos. Se já sabemos que dois e dois são sempre quatro, e se sabemos que Brown e Jones são dois, assim como Robinson e Smith, podemos deduzir que Brown e Jones e Robinson e Smith são quatro. Isto é conhecimento novo, que não está contido nas nossas premissas, porque a proposição geral «dois e dois são quatro» nunca nos disse que há pessoas como Brown e Jones e Robinson e Smith, e as premissas particulares não nos dizem que há quatro deles, ao passo que a proposição particular deduzida diz-nos efectivamente estas duas coisas."
Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, 1912.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Acesso ao manual digital


Temos a informação de que tem havido uma grande quantidade de pessoas a registar-se para aceder ao manual digital, muitas das quais não o têm conseguido.

A razão é simples. Só mesmo os professores de Filosofia que leccionam em escolas que escolheram trabalhar com 50LF poderão aceder ao manual digital, com todos os materiais que temos produzido.

No momento em que os colegas se registam, escolhem a sua palavra-chave. A partir daí, caso sejam reconhecidos pelo sistema como adoptantes do 50LF, poderão entrar no manual digital sempre que quiserem.

Continuaremos a dar apoio e a disponibilizar materiais adicionais aqui no blogue, mas alguns textos mais longos, as tabelas, as apresentações e alguns vídeos terão de ficar, por razões óbvias, apenas no manual digital.

Seja como for, se tiverem alguma dúvida, estamos sempre ao dispor.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Novidade editorial... para breve


Está para breve a publicação, na colecção Filosofia Aberta (Gradiva), da Introdução à Filosofia da Ciência, da filósofa italiana Lisa Bortolotti. Como seria de esperar, o livro apresenta e discute questões relativas à ciência, que são leccionadas no 11º ano. Para dar uma ideia, deixo aqui o início do capítulo 5, sobre a questão da racionalidade científica e do progresso na ciência.


O êxito da ciência é muitas vezes celebrado como a mais extraordinária conquista humana. Contudo, vimos que é difícil assinalar o que a ciência tem de especial: as generalizações indutivas subjacentes à prática da ciência são falíveis; o método usado pelas ciências não pode ser facilmente explicado de uma maneira única e distintiva; uma teoria científica não tem de ser verdadeira ou de nos apresentar uma descrição precisa da realidade para receber confirmação empírica, para ser empregue na explicação ou para funcionar como um instrumento de previsão eficaz. À luz destes debates, a questão de saber se temos justificação ao atribuirmos à ciência um estatuto privilegiado no seio de outras práticas humanas torna-se ainda mais premente. Mas antes de podermos responder a esta questão, temos mais duas outras para resolver: será que a ciência evolui de uma maneira progressiva? Será a mudança na ciência guiada por princípios racionais? 

Mesmo se formos realistas no que respeita às teorias científicas e acreditarmos que as entidades e as relações postuladas pelas teorias científicas actuais existem realmente, a natureza do progresso em ciência obriga-nos a reconhecer que há teorias que foram aceites no passado e que já não são consideradas verdadeiras, e que postulavam a existência de entidades ou de relações que hoje pensamos que nunca existiram. Como podemos confiar que as nossas teorias actuais são realmente melhores do que as anteriores, e não meramente diferentes? Será que a escolha da teoria a adoptar pode ser apoiada por argumentação racional? Quando uma comunidade científica destitui uma teoria e adopta outra, muitas vezes isto acontece mediante um processo gradual de mudança que há muito os filósofos da ciência tentam compreender usando modelos concorrentes. 

As questões sobre se a mudança científica é racional e se o progresso é cumulativo têm constituído o objecto do debate tradicional entre racionalistas e historicistas, e têm sido tratadas em conjunto com outras questões, tais como a referência dos termos teóricos que já não usamos, a finalidade da ciência, a capacidade dos cientistas para comunicar eficazmente com os que defendem teorias concorrentes, e a pluralidade de estilos de raciocínio que caracterizam as investigações humanas sobre a natureza. Se pensamos que a teoria que hoje aceitamos está mais próxima da verdade (ou é mais adequada empiricamente) do que a anterior e que consegue explicar mais factos de uma maneira mais satisfatória e abrangente, tenderemos a considerar a mudança da teoria anterior para a teoria actual como um exemplo de progresso, um progresso baseado nos princípios racionais da escolha de teorias. 

Os racionalistas retratam a mudança exactamente nos seguintes termos: a comunidade científica avança com base em argumentação sólida sustentada por indícios empíricos sólidos. De acordo com eles, o estilo de raciocínio promovido pela ciência, modelado pelo método científico, é o estilo que melhor contribui para o conhecimento. Os historicistas, porém, cuja análise é inspirada pela análise pormenorizada de episódios específicos da história da ciência, sublinhando a complexidade dos factores que frequentemente se vem a saber determinarem a mudança das teorias actuais, comparam provocatoriamente a substituição de uma teoria dominante num domínio da investigação a uma conversão religiosa. A comunidade científica não é um agente racional colectivo que pesa as razões a favor e contra teorias concorrentes de uma maneira objectiva. Ao contrário, divide-se entre a sua atitude conservadora natural, que encoraja os cientistas a conservar as teorias existentes, e a pressão resultante da constatação de que as teorias existentes podem ter deixado de se adequar satisfatoriamente aos dados. Neste contexto, a escolha de uma teoria em detrimento das teorias concorrentes não é sempre defendida com base em argumentos puramente racionais. O compromisso com a verdade ou a eficácia da teoria escolhida é um acto de fé da comunidade científica (ou de parte da comunidade científica) em alguns pressupostos metafísicos e metodológicos, e não uma consequência do juízo de que a teoria escolhida é superior às suas concorrentes no que respeita a indícios neutros e padrões objectivos. 

Para tornar o debate sobre a mudança científica ainda mais complexo, os historicistas vêem o papel dos indícios empíricos na mudança de teorias de uma maneira diferente. Para o historicista, não podemos discriminar facilmente entre teorias rivais baseando-nos apenas nos dados, uma vez que estes nunca são apresentados de uma maneira completamente neutra e podem ser interpretados como apoiando uma ou outra das teorias incompatíveis. O racionalista pode concordar que os dados por si só não são sempre suficientes para discriminar entre teorias rivais (relembremos a tese de Duhem-Quine que discutimos no capítulo anterior), mas insiste que há critérios objectivos para a escolha de teorias que nos permitem considerar a mudança como um exemplo de progresso. 

No final deste capítulo o leitor estará habilitado para: 

·      Identificar os factores relevantes numa explicação filosófica sobre a mudança científica.

·   Listar e comparar critérios possíveis para a escolha de teorias, bem como avaliar a alegação de que alguns critérios são mais importantes que outros.
·      Distinguir e avaliar as perspectivas racionalista e historicista sobre a mudança e o progresso.
·      Identificar as implicações da tese da incomensurabilidade na ciência em geral e na noção de progresso cumulativo em particular.
·   Examinar criticamente várias interpretações da tese de que a ciência é racional.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Planificações


Além das indicações aula a aula que se encontram no Livro de Apoio ao professor, os colegas que trabalham com 50LF passam a ter também disponíveis as tradicionais planificações, com quadros relativos a cada unidade do programa. Os quadros com as planificações poderão ser editados pelos professores, caso queiram introduzir alguma alteração ou fazer adaptações (por exemplo, adicionar outros recursos). 

Para terem acesso às planificações basta irem ao manual digital (têm de fazer antes o registo, mas só da primeira vez) e lá encontrarão, na página 240, as planificações para o primeiro período (unidade inicial, acção e livre-arbítrio, valores), que correspondem a 33 aulas. As planificações para o segundo e terceiro períodos seguem a mesma estrutura e serão disponibilizadas oportunamente.

Apesar de alguns grupos não usarem este tipo de planificações, pensamos que podem ser úteis para muitos outros. 

Ensinar a filosofar


Está já disponível no manual digital (página 240) um artigo intitulado "Ensinar a Filosofar", que escrevi para um livro que será lançado em breve no Brasil. Talvez o artigo seja esclarecedor para os professores, uma vez que explicita a concepção kantiana de ensino do filosofar que subjaz ao 50LF. Eis o começo do artigo:
No contexto escolar e universitário em que nos encontramos, os professores de filosofia estão institucionalmente obrigados a avaliar os alunos. Contudo, é a filosofia, pela sua própria natureza, compatível com a avaliação? A primeira parte deste artigo esclarece sob que pressupostos se rejeita a avaliação, ainda que estejamos institucionalmente obrigados a simulá-la, e sob que pressupostos a avaliação é parte integrante do ensino da filosofia. 
A segunda parte do artigo apresenta uma concepção do ensino e da avaliação da filosofia que leva a sério a ideia de ensinar a filosofar, sendo a avaliação rigorosa uma parte própria deste processo e não uma mera formalidade institucional. Esta segunda parte tem um caráter mais orientador das práticas dos professores, ao passo que a primeira fornece um enquadramento que se deseja esclarecedor.
Todos os comentários são bem-vindos!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Novo ano escolar


Esperamos que os colegas e estudantes tenham tido umas boas férias de Verão — eu no Brasil ainda não tive as minhas férias de Inverno (começam daqui a duas semanas). Estivemos parados aqui no blog de apoio ao 50LF, mas agora é tempo de retomar os nossos trabalhos. Todas as sugestões são bem-vindas!

O nosso objectivo aqui é dar apoio aos professores e alunos que usam o 50LF. Faremos este trabalho acompanhando o ritmo da leccionação das matérias. Mas porque os ritmos diferem ligeiramente, qualquer professor pode contactar-nos dizendo que entrou já numa dada matéria e deseja alguma orientação nossa. O que faremos aqui é indicar a publicação de vários materiais didácticos, de reflexão e outros que complementem o 50LF; todos esses materiais são publicados no espaço do manual digital, cuja ligação directa está já disponível no menu superior. Evidentemente, só os professores que adoptaram o 50LF têm acesso ao manual digital e a todos os materiais que continuaremos a acrescentar a este inovador recurso pedagógico.

Muitos materiais estão disponíveis aqui no próprio blog porque foram produzidos antes de o manual digital estar pronto, e continuarão aqui livremente disponíveis para todos. E é alguns desses materiais que quero destacar agora, pois podem ser úteis para os professores que se preparam agora para começar a leccionar o 10.º ano:

  • O que é a filosofia? — Encontramos aqui um conjunto de PowerPoints que podem ser usados pelo professor logo na primeira aula para apresentar a filosofia aos alunos; e espero que os alunos se sintam intrigados e estimulados com esta apresentação da nossa disciplina! 
  • O que é a filosofia, afinal? — Este texto, dirigido apenas a professores, esclarece vários aspectos didácticos da apresentação da filosofia a alunos do 10.º ano. Estudando este texto torna-se mais fácil compreender por que razão apresentamos a filosofia no 50LF da maneira como o fazemos. (E, claro, todas as críticas são bem-vindas!)
  • Ao apresentar a filosofia é inevitável explicar, pelo menos preliminarmente, que esta é uma disciplina a priori ou conceptual, tal e qual como a matemática (mas difere da matemática porque não trata apenas do que se pode resolver com os instrumentos formais da matemática). Isto significa ter uma compreensão aprofundada do conceito filosófico de conhecimento a priori (ainda que não seja necessário aprofundar este conceito com os alunos!). Temos aqui no blog dois textos meus que visam esclarecer algumas das subtilezas relacionadas com o conhecimento a priori: "Confusão a priori" e "A priori outra vez".  

Bom regresso ao trabalho! (E desejem-me boas férias de Inverno a mim, daqui a duas semanas!)