sexta-feira, 12 de julho de 2013

Encontro de professores de Filosofia com... o filósofo Simon Blackburn


Simon Blackburn é um filósofo que dispensa apresentações. Os seus livros são usados e citados por muitos professores e manuais portugueses. Todos os que se interessam pelo que Blackburn escreve vão poder ouvi-lo, conversar e discutir com ele já no próximo dia 6 de Setembro, em Coimbra.

Blackburn é o convidado internacional do 11º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, organizado pela Sociedade Portuguesa de Filosofia e, nesta edição, em colaboração com o Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 

O tema geral do Encontro, que irá decorrer nos dias 6 e 7 no Teatro Paulo Quintela, é «O Estatuto da Filosofia na Escola». 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Filosofia antiga: catorze séculos de filosofia

Catorze séculos... sem contar com as sementes que continuam a dar frutos. Mais uma entrevista da série No Jardim da Filosofia.

A propósito, vale a pena continuarmos atentos à tradução em curso da obra completa de Aristóteles, coordenada precisamente por António Pedro Mesquita.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A priori outra vez

Os comentários de Eduardo e Luísa à minha última nota fizeram-me pensar que talvez seja uma boa ideia esclarecer melhor os conceitos de a priori e a posteriori.

A primeira coisa a notar é que o conhecimento, seja a priori ou a posteriori, é sempre uma relação entre um sujeito cognitivo e o que é conhecido. O que é conhecido tanto pode ser 1) uma prática, como andar de bicicleta, caso em que se trata de saber-fazer, 2) coisas, como a Ponte da Arrábida ou 3) verdades, como que a Ponte da Arrábida fica no Porto.

Uma vez que é o conhecimento que é a priori ou a posteriori, rigorosamente falando as proposições não são a priori nem a posteriori. O que acontece é que podemos falar algo informalmente e dizer que uma dada proposição é a priori, quando o que queremos dizer é que qualquer agente cognitivo mais ou menos como nós consegue saber tal proposição a priori. Assim, este é o primeiro aspecto a notar: rigorosamente falando, as proposições não são a priori nem a posteriori, pois é a relação de conhecimento entre um sujeito cognitivo e essa proposição que é a priori ou a posteriori.

O segundo aspecto a notar é que o que torna um dado caso de conhecimento a priori ou a posteriori não é a origem do que se conhece, mas antes a justificação envolvida. O conhecimento tem como condição necessária a justificação — quando alguém acerta por sorte na verdade, não dizemos que sabia realmente do que estava a falar — e é esta que difere nos casos do conhecimento a priori e a posteriori. O que nos conduz ao terceiro aspecto a ter em mente:

Quando os filósofos no passado falavam de conhecimento a priori não se davam geralmente conta de que praticamente tudo o que conhecemos a priori podemos conhecer também a posteriori. Por exemplo, eu posso saber a priori o resultado de multiplicar 345 por 9887, calculando o resultado. Mas também posso sabê-lo a posteriori, seja perguntando a alguém que já tenha feito o cálculo seja usando um computador. Os filósofos tradicionais não se davam conta deste aspecto porque tinham em mente o que podemos chamar “conhecimento primitivo”, que é o género de conhecimento que resulta do uso do que podemos chamar “justificação última”. A justificação última é o que não tenho quando pergunto a alguém qual é o resultado de uma dada operação de multiplicação; quem tem essa justificação última é quem fizer realmente o cálculo. Porque os filósofos tinham aparentemente em vista apenas a justificação última, falavam como se tudo o que conhecemos a priori não pudesse ser conhecido a posteriori, o que é falso. Mas podemos aceitar algo como isto, que nos aproxime dos filósofos tradicionais: tudo o que é conhecível a priori só quando é conhecido desta maneira é conhecido da maneira mais robusta, digamos, ou mais bem justificada.

Muito bem, tendo em vista estes esclarecimentos, como devemos apresentar o conhecimento a priori e a posteriori aos alunos? De uma maneira muito simples, pois quem tem os dogmas que provocam confusão somos nós e não eles! Aos alunos é fácil dizer que uma pessoa conhece algo a priori quando ela conhece isso pelo pensamento apenas, e ela conhece algo a posteriori quando o conhece pela experiência. E agora vem a subtileza: praticamente tudo o que uma pessoa pode conhecer a priori ela poderia ter conhecido a posteriori, porque poderia ter lido num livro, perguntado a um professor, etc. Isto significa que o que conta para nós é se uma dada verdade é susceptível de ser conhecida a priori e não se efectivamente o foi: uma dada verdade pode ter sido conhecida a posteriori, mas isso não a torna uma verdade a posteriori; se acaso essa mesma verdade poderia ter sido conhecida a priori, então isso é que é relevante para efeitos de epistemologia.

Resumindo: apesar de haver algumas subtilezas no que respeita ao conceito de a priori e a posteriori, não é muito difícil dar a estes conceitos um tratamento a um tempo rigoroso e acessível aos estudantes.

sábado, 6 de julho de 2013

Preparar o 11º ano: teoria do conhecimento


É já no final deste mês que será publicada esta excelente Introdução à Teoria do Conhecimento, de Dan O'Brien, na colecção Filosofia Aberta (Gradiva). É uma introdução contemporânea, mas historicamente informada, além de muito rigorosa e abrangente. Depois de, nos últimos tempos, ter lido uma boa dezena de outras introduções a esta disciplina central da filosofia, parece-me que esta de Dan O'Brien é a mais adequada para o público português. 

Como seria de esperar, o livro inclui capítulos sobre a própria definição do conhecimento, sobre as fontes do conhecimento, sobre a justificação e sobre o cepticismo (em particular a discussão dos argumentos cépticos avançados por Descartes), que são temas centrais do programa do 11º ano de Filosofia. 

Mas também tem um capítulo inteiro sobre o problema da indução, tanto na formulação tradicional de Hume como na do chamado «novo enigma da indução», formulado por Nelson Goodman. Como sabemos, o problema da indução é um problema epistémico (trata-se da justificação do raciocínio indutivo), mas que terá importantes implicações na questão do método científico, o que também faz parte do programa do 11º ano. 

Mas o livro é ainda muito útil para leccionar alguns temas do programa do 10º ano, pois inclui um capítulo sobre conhecimento moral (onde se discutem perspectivas como o cepticismo moral, o relativismo moral e o emotivismo, por exemplo), e outro capítulo sobre a justificação da crença na existência de Deus, no qual se expõem e discutem os argumentos tradicionais, bem como a questão dos milagres, a aposta de Pascal e as posições ateístas e agnósticas.

As primeiras secções de cada capítulo são sempre muito acessíveis e esclarecedoras, usando a informação dada nessas secções para avançar depois gradualmente na discussão nas secções seguintes. Tudo isto num diálogo feliz entre a tradição filosófica e a discussão contemporânea.

Penso que um livro como este estava a fazer falta entre nós, até porque se trata de uma área central da filosofia.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Confusão a priori

O conceito de a priori tende a gerar algumas confusões. Vejamos se podemos esclarecer as coisas.

Em primeiro lugar, trata-se de um conceito que diz respeito ao modo como justificamos crenças; como não temos apenas crenças verdadeiras, uma vez que não somos omniscientes, segue-se que o a priori não é incompatível com a falsidade. Por exemplo, quando nos enganamos ao fazer uma conta de cabeça, formamos uma crença a priori mas falsa.

Contudo, se falarmos de conhecimento a priori em vez de falarmos de crenças, é evidente que todo o conhecimento a priori é conhecimento de verdades. Mas isto é só porque todo o conhecimento é factivo, seja ele a priori  ou a posteriori. Se alguém sabe realmente algo, segue-se que isso que essa pessoa sabe é verdadeiro,  e esse conhecimento tanto pode ser a priori como a posteriori.

Em segundo lugar, quando se afirma que a filosofia é uma disciplina a priori, como a matemática, isto não significa que em filosofia se despreza a informação empírica. O que significa, ao invés, é duas coisas. Primeiro, que a informação empírica não desempenha um papel central na filosofia. Segundo, e muito mais importante, que não compete a quem faz filosofia estabelecer informações empíricas: isso compete aos cientistas empíricos.

Para esclarecer este aspecto, consideremos o seguinte raciocínio:

A dor é moralmente relevante, seja quem for que a sente.
Ora, muitos animais não-humanos sentem dor.
Logo, devemos evitar provocar-lhes dor.

Este é um raciocínio filosófico porque o que há nele de central é a primeira premissa; a segunda premissa é mera informação empírica, que compete aos biólogos estabelecer. A segunda premissa  só é conhecível a posteriori; mas a primeira premissa só é conhecível a priori. Estabelecer a segunda premissa é um trabalho empírico; estabelecer a primeira premissa é um trabalho filosófico que irá envolver várias linhas de raciocínio que visam conectar a dor com o que é ou não permissível. A conclusão do raciocínio só é conhecível a posteriori, mas o raciocínio é filosófico porque a sua premissa central é filosófica; e esta premissa, a primeira, só é conhecível a priori.

Então por que razão a informação empírica não desempenha um papel central na filosofia? Porque o raciocínio completo, com a sua premissa a posteriori, é trivial, é banal. O que há de interessante e de não banal no raciocínio é a premissa filosófica em que assenta e que teremos de tentar justificar adequadamente. E não conseguiremos justificá-la adequadamente a posteriori. Além disso, imagine-se que se descobria empiricamente que afinal nenhum animal não-humano sente realmente dor. Mesmo assim, nós queríamos saber se a primeira premissa é verdadeira ou não, porque é em si interessante filosoficamente, ainda que não tenha relevância prática para esclarecer o nosso relacionamento ético com os animais não-humanos.

Este aspecto a priori da filosofia passa despercebido quando do pensamento dos filósofos só conhecemos descrições superficiais das suas conclusões, mas não o modo como eles raciocinaram para chegar a elas. Quando olhamos apenas para as conclusões dos filósofos, vemos, muitas vezes, que inclui informação empírica. E por isso parece falso afirmar que a filosofia é uma disciplina a priori. Mas isto é confundir as coisas só porque estamos a olhar apenas para o resultado do trabalho filosófico e não para o trabalho em si. Um pouco como alguém que fica surpreendido quando descobre que a pintura envolve muito trabalho braçal, físico, na preparação das telas e das tintas, pois essa pessoa está habituada a pensar apenas no resultado desse trabalho, que são os quadros já todos bonitinhos expostos numa galeria e com o pintor de gravata ao lado a sorrir.

O central do trabalho filosófico é raciocínio a priori sobre princípios filosóficos. Mas isso só se vê se olharmos para o processo de fazer filosofia, em vez de olharmos apenas para o resultado desse processo. Ora, isto é muito importante didacticamente, pois do mesmo modo que não se aprende a pintar quadros apreciando apenas quadros já pintados, também não aprendemos a fazer filosofia apreciando apenas as conclusões dos filósofos. Para aprender a filosofar é preciso assistir ao processo de fazer filosofia, e isso é fundamentalmente raciocínio intenso a priori.