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A mostrar mensagens de Maio, 2013

Robert C. Bishop em Lisboa

Nos próximos dias 12 e 14 de Junho, Robert C. Bishop, físico e filósofo da ciência norte-americano, especialista nas questões da complexidade, não-linearidade, determinismo e emergência, fará duas conferências na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a convite do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Mais informações:

conferências Robert Bishop

Além da cogência

Quando um filósofo apresenta uma ideia qualquer e nos perguntamos se ele tem razão, uma das nossas tarefas é ver se há algum raciocínio adequado que a sustente. Isto significa que temos de saber avaliar raciocínios. Dois dos conceitos mais elementares no que respeita à avaliação de raciocínios é a validade e a solidez. A lógica é importante em filosofia porque nos permite saber com rigor se os raciocínios são válidos; ora, quando um raciocínio não é válido, é irrelevante discutir se as suas premissas são aceitáveis ou não, pois mesmo que o sejam, isso não impede a conclusão de ser falsa. Dado que geralmente é mais fácil saber se um raciocínio é válido, a discussão começa geralmente por aí: se o raciocínio não for válido, temos de procurar reformulá-lo para que valha a pena discutir as premissas em causa. 
Depois de saber que um raciocínio é válido, temos então a tarefa de discutir as premissas, pois se alguma delas for falsa ou pelo menos implausível, a validade do raciocínio torna-s…

O que é a filosofia, afinal?

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Como apresentar de maneira adequada a filosofia pela primeira vez aos alunos? Há diferentes maneiras de o fazer adequadamente, mas vale a pena ter em conta alguns esclarecimentos, começando por um aspecto que discutimos brevemente no Livro de Apoio: a maneira como por vezes se define as outras disciplinas, como a física, ao apresentá-las aos estudantes pela primeira vez.

O caso da física O professor de filosofia sente-se por vezes em situação desvantajosa, pensando que no caso da física, por exemplo, há uma definição explícita adequada para apresentar aos alunos, o que não aconteceria na filosofia. Mas isto é falso, pois a definição de física geralmente apresentada tem dois defeitos cruciais: primeiro, está errada e segundo, mesmo que não o estivesse, não seria esclarecedora para os alunos.

Se definirmos a física como uma disciplina em que estudamos fenómenos físicos, estaremos a dar uma definição incorrecta. Isto porque a biologia também estuda fenómenos físicos (não estuda, certam…

Café com filosofia

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Um Café Filosófico
http://www.umcafefilosofico.blogspot.pt
Tomás Carneiro

Mais um blog do inevitável Tomás Carneiro, desta vez sobre os bem sucedidos cafés filosóficos que há anos realiza um pouco por todo o país, mas mais frequentemente na região do Porto. Ninguém faz isto melhor do que o Tomás.


Não acreditar em Deus

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Boa vontade ou vontade boa?

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No contexto da ética kantiana — mais precisamente da sua teoria do bem — deve-se falar de vontade boa ou, em vez disso, de boa vontade? Ou será que tanto faz?  
A expressão original alemã usada por Kant é «guter Wille» e é tão adequado traduzir esta expressão por «boa vontade» como por «vontade boa». Isso mesmo pode ser confirmado no índice remissivo da tradução portuguesa da Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Edições 70), onde são dadas como expressões sinónimas. Assim, ninguém que use uma ou outra estará a cometer qualquer erro ou imprecisão, do mesmo modo que ninguém erra se utilizar a expressão «pessoa boa» em vez de «boa pessoa», ou «múltipla escolha» em vez de «escolha múltipla».
Nós, autores, discutimos isso cuidadosamente — como, de resto, quase tudo no manual —  e acabámos por optar por «vontade boa». Haverá alguma razão para isso? 
Sim, há. Pensamos que, embora correcta, a expressão «boa vontade» pode, em certos contextos, dar origem a alguma confusão. Em português, a ex…

O que é uma religião?

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Apesar de a maior parte das religiões estarem associadas a crenças em divindades, nem todas o estão. Michael Martin, no livro Um Mundo Sem Deus: Ensaios sobre o Ateísmo, que traduzi para as Edições 70, explica que há algumas variantes de budismo ateísta. Trata-se de manifestações religiosas que rejeitam a existência de quaisquer divindades (e não apenas da divindade teísta), mas insistem em valores vistos como religiosos como a bondade, a religação universal, o respeito pela natureza e a importância dos rituais.

Estas manifestações religiosas tornam mais difícil a tentativa de definir adequadamente, ou até caracterizar, o conceito de religião. O que é então uma religião? Nesse mesmo livro, Michael Martin discute um conjunto de nove características propostas por Alston que não seriam condições necessárias nem suficientes para algo ser uma religião, mas seriam características importantes. 

Contudo, mesmo aceitando que não se trata de condições necessárias nem suficientes, tais caract…

Crente, agnóstico, ateu?

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Note-se que, no quadro seguinte, estamos a usar o termo "agnóstico" no seu sentido actual. No passado, este mesmo termo foi usado não para quem suspende a crença numa divindade, mas antes para quem, apesar de ter fé numa divindade, considera que não podemos ter conhecimento da sua existência.

E a história da filosofia?

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Os nomes dos filósofos, assim como outras referências que para nós são evidentes, são opacas e desconhecidas para a maior parte dos alunos do 10.º ano. Por esta razão, não é muito adequado pensar que tais nomes e referências históricas ajudam o aluno a "localizar-se"; pelo contrário, na maior parte dos casos, representa apenas um esforço cognitivo acrescido para o aluno. Assim, os nomes dos filósofos e as referências históricas não devem ser encaradas, do ponto de vista do 50LF, como instrumentos para facilitar a aprendizagem da filosofia, pois não é esse geralmente o efeito que tem, mas antes como conteúdos adicionais, valiosos por si mesmos.
Tendo estas considerações em mente, incluímos as referências históricas do 50LF como informação adicional, cuidadosamente separada do corpo do texto principal. No Caderno do Estudante, o aluno encontra uma brevíssima história da filosofia, assim como breves apontamentos biográficos de todos os filósofos mencionados no manual. Deste m…

Filosofia da religião: algumas distinções

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A tabela foi alterada em função das observações de Fernanda Gontijo, que chamou a atenção para o facto de não ser óbvio que o henoteísmo esteja presente em algumas passagens da Bíblia. Na antiguidade, contudo, e antes disso, o henoteísmo não era incomum: a ideia de que diferentes sociedades prestam culto a diferentes divindades, cujo poder relativo era inclusivamente testado em situação de guerra.

Monoteísmos

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Por vezes os professores precisam de dar exemplos, de ilustrar e de contextualizar historicamente certas ideias e debates. O problema é que não é raro os alunos desconhecerem alguns factos históricos que se supõe serem do conhecimento geral. É o caso das religiões, que frequentemente eles confundem e baralham. Algum conhecimento empírico de base sobre a história e a sociologia das religiões pode, por vezes, ser útil para a discussão filosófica. O quadro que a seguir se apresenta pode ajudar os alunos a ter uma noção menos vaga das principais religiões monoteístas.
Este quadro foi originalmente elaborado pelo colega e amigo Luís Gonçalves (E. S. Teixeira Gomes), com algumas pequenas adaptações, e faz também parte do manual digital. Obrigado, Luís.

O Homem da Terra

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O Homem da Terra (2007, 87 minutos) é um filme ímpar que pode motivar uma boa discussão com os alunos sobre o tema do sentido da existência. Além disso, pode contribuir para alargar a cultura cinéfila dos alunos, saindo dos lugares-comuns do cinema de acção e entretenimento algo vácuo.
Sendo um filme sem qualquer acção de monta, surpreende pela capacidade que tem de nos agarrar, ao contrário de tantos filmes de acção que, depois de dezenas de explosões e de pessoas mortas, nada mais consegue do que fazer-nos bocejar e olhar para o relógio. O filme apresenta-nos uma conversa entre várias pessoas sobre uma revelação espantosa que uma delas, John Oldman (João Homem Antigo) lhes faz: que nasceu há 14 mil anos, e não envelhece nem morre. 
O filme pode ser explorado em sala de aula sob três aspectos. Por um lado, no que respeita à epistemologia, está em causa a questão de saber se alguma daquelas pessoas tem boas razões para acreditar que John Oldman realmente tem 14 mil anos. Este aspecto,…

A prova ontológica da existência de Deus

Eis mais um exemplo de materiais complementares que estarão disponíveis apenas para os professores que adoptarem o 50LF. 

Um baú diversificado

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O Meu Baú
http://omeubau.net António Gomes


O seu autor, António Gomes, é um dos mais activos e irrequietos ciberprofessores de filosofia do secundário, desde há vários anos. Este espaço veio, em parte, substituir outros criados anteriormente por ele e contém material muito diversificado, não só no âmbito da filosofia mas de outras áreas culturais, como a música, as artes visuais e a fotografia. Sempre actualizado e com uma marca muito pessoal, é um sítio a visitar com regularidade.

Obrigado, colegas da Pinheiro e Rosa!

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Fiquei comovido, e verdadeiramente sem fala ao ler este maravilhoso texto de Sara Raposo e Carlos Pires. Em dezoito anos de trabalho abnegado em prol da excelência do ensino da filosofia em Portugal, nunca li um texto que me tocasse tão profundamente. Muito, muito obrigado.

Sublinhe-se o salto qualitativo ocorrido em Portugal, e justamente reconhecido no texto: hoje, ao contrário de 2003 (quando apareceu o primeiro A Arte de Pensar), temos vários bons manuais de filosofia. O Luís Rodrigues, o Paulo Ruas, o Pedro Galvão, o Faustino Vaz e outros colegas extraordinários e de imenso valor, estão a dar o seu contributo para que as novas gerações tenham direito ao que nós não tivemos: um ensino de excelência da filosofia. Estamos todos de parabéns. Que nós tenhamos sido preferidos por colegas do calibre da escola que alberga o Dúvida Metódica é ainda mais significativo para nós precisamente porque, ao contrário do que acontecia em 2003, há hoje trabalho do mais elevado nível em Portugal. …

Juízo estético

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Mar Adentro: eutanásia

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Mar Adentro (2004, 125 minutos) é um belíssimo e tocante filme, baseado na história real do espanhol Rámon Sampedro (1943-1998). Realizado por Alejandro Amenábar e com Javier Bardem no principal papel, é um filme inesquecível, pleno de arte e de vida, maximamente dramático, mas que nunca cai no sentimentalismo. Real e inesperado como a vida.

É adequado para ser usado pelos professores para promover uma discussão de ética em sala de aula. Ao invés de se discutir apenas a questão da moralidade ou imoralidade do suicídio assistido, o professor pode pedir aos alunos que reflictam no problema com base no que aprenderam sobre as éticas de Mill e Kant.

Assim, o problema é o seguinte:
Que espaço teórico têm as teorias de Mill e Kant para justificar uma resposta positiva ou negativa quanto à moralidade do suicídio assistido de Rámon? Se um defensor da teoria de Kant considera que o suicídio assistido de Rámon é (i)moral, que espaço lhe dá a sua teoria normativa para justificar essa resposta? E…

Experiência, atitude e propriedades estéticas

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Será que todos temos alguma teoria da arte? E os argumentos?

50LF no Brasil

Está já à venda no Brasil o 50 Lições de Filosofia.

Será que todos temos alguma teoria da arte?

As teorias da arte andam por aí. É só escutar com atenção o que as pessoas dizem.

Eis um exemplo, que pode dar para começar uma boa discussão filosófica.


Objectividade: o que é isso?

Na parte 2.1 do programa ("Valores e Valoração"), as Orientações determinam que se deverá discutir
"o problema do carácter subjectivo ou objectivo dos valores, concretizando-o na questão de saber se os juízos valorativos têm um carácter subjectivo, ou se são relativos às culturas, ou se são antes juízos objectivos." Foi o que fizemos nas Lições 12, 13 e 14. Numa versão anterior (o manual foi reescrito várias vezes), explicávamos várias concepções diferentes de objectividade, mas vários professores que leram essas versões consideraram que isso complicava desnecessariamente a discussão e acabava por confundir os alunos. Dada a nossa postura de simplificação didáctica neste manual, eliminámos essa discussão, e parece-me que fizemos bem. Ao ler algumas discussões recentes sobre as abordagens do problema da objectividade dos valores noutros manuais, vale a pena, contudo, fazer alguns esclarecimentos.

Do nosso ponto de vista, é legítimo, didacticamente, e até aconselháv…

Filmes

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Eis a lista de filmes sugeridos ao longo de 50LF, respondendo ao pedido de uma colega no Porto para indicarmos também a duração de cada filme.






A FILOSOFIA E A SUA DIMENSÃO DISCURSIVA
Acordar para a Vida, de Richard Linklater (EUA, 2001). 99 minutos. À procura de respostas para algumas perguntas filosóficas.
Bem-Vindo Mr. Chance, de Hal Ashby (EUA, 1979). 130 minutos. Os riscos de interpretar a superficialidade como profundidade, quando não se raciocina adequadamente.
Doze Homens em Fúria, de Sidney Lumet (EUA, 1957). 96 minutos. A importância de saber raciocinar e argumentar cuidadosamente.

A AÇÃO HUMANA
I, Robot , de Alex, Proyas (EUA, 2004). 115 minutos. Poderá um robô agir livremente?
Relatório Minoritário, de Steven Spielberg (EUA, 2002). 145 minutos. Se o determinismo for verdadeiro, talvez seja possível prevenir crimes mesmo antes de estes acontecerem.
Mulheres Perfeitas, de Bryan Forbes (EUA, 1975). 115 minutos. Uma sociedade aparentemente perfeita, mas em que parte da sua população carece d…

As mulheres são louras ou não?

O professor Rolando Almeida chama a atenção aqui para a ideia incorrecta de que o subjectivismo quanto aos valores se opõe à tese de que todos os valores são objectivos. Ele correctamente faz notar que a negação da tese de que os valores são subjectivos (a tese subjectivista) não é a tese de que os valores são objectivos, mas antes que alguns valores não são subjectivos. 
Mas a questão aqui não é apenas um deslize de lógica. Apesar de ser de esperar de uma pessoa formada em filosofia que não cometa deslizes elementares de lógica, qualquer pessoa pode cometer erros de pormenor lógico. É tão intuitivo pensar que a negação da tese "Os valores são subjectivos" é a tese "Os valores são objectivos" (= "Os valores não são subjectivos"), que não estranho muito que mesmo uma pessoa com formação filosófica cometa este deslize.
O que considero muitíssimo mais grave é o seguinte. Pondo de lado a questão de saber qual é a negação correcta da tese de que os valores sã…

O conceito de proposição

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Eis mais um exemplo do género de materiais complementares disponíveis exclusivamente para professores no Livro de Apoio do nosso manual.

O conceito actual de proposição é muito diferente do conceito medieval. Alguns filósofos medievais, na sequência de Boécio, usavam o termo propositio no sentido em que usamos hoje o termo “frase” e em que outros usavam dicta: uma entidade física que exprime ideias, como é o caso de símbolos escritos num papel ou sons proferidos por alguém. Antes disso, os estóicos tinham também distinguido claramente as duas coisas, o que não parece ocorrer no caso de outros filósofos da antiguidade grega. Os estóicos chamavam lekta ao meio de expressão das ideias, a que hoje chamamos frase, e axiomata ao que hoje chamamos proposição, ou seja, as ideias que exprimimos com as frases.
A partir do renascimento, os filósofos afastaram-se da noção de proposição, que entendiam no sentido de Boécio, defendendo que nos interessa não a expressão verbal das ideias, mas as ide…

Não, Platão não defende o objectivismo estético.

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Platão aponta para cima, para o mundo das ideias. É lá que está a beleza, não nos objectos que vemos.
Um colega enviou-me um email pessoal com uma dúvida sobre estética, pedindo a nossa opinião sobre o assunto. Parece-nos que vale a pena responder aqui, pois pode interessar a outros também. A dúvida era a seguinte:
Comecei a dar a estética e fui ver o que os novos manuais diziam sobre o subjetivismo/objetivismo estético. Num deles li que o objetivismo estético é a perspetiva defendida por Platão, defendendo este que um objeto é belo em virtude das suas propriedades intrínsecas, as quais se encontram no objeto e só no objeto. Acho estranho Platão defender isto. Mas como já encontrei o mesmo noutro manual, pergunto se isto é mesmo assim. 
A primeira coisa a sublinhar é que se o objectivismo é a perspectiva segundo a qual a beleza (ou as propriedades que fazem algo ser belo) se encontram no objecto e só no objecto, então Platão nunca poderia ter defendido o objectivismo estético. Pela sim…

Mais ensino da filosofia na rede

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Webfólio - Ensino da Filosofia
http://webphilos.com
Joana Inês Pontes

Um blog com muito que ler, rigoroso e de qualidade. A autora, Joana Inês Pontes, não se limita a colocar nem a reformular materiais alheios, acrescentando algo realmente pessoal, mas que pode ser bastante útil.

O que é o conhecimento?

Validade e necessidade

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Eis mais um exemplo de materiais adicionais incluídos no Livro de Apoio do 50LF:


Há várias maneiras igualmente corretas de definir a validade dedutiva; mas há maneiras incorretas de a definir. A definição parcial usada no manual está correta e é didacticamente a mais adequada. Contudo, é importante afastar as definições erradas, nomeadamente as que cometem o deslize das modalidades.
Comete-se o deslize das modalidades ao definir a validade quando se declara que se um raciocínio dedutivo for válido e tiver premissas verdadeiras, então a conclusão será necessariamente verdadeira. Isto é falso porque, a ser literalmente verdadeiro, todas as conclusões das deduções válidas seriam verdades necessárias, o que não acontece. O que dizemos literalmente nesta definição não é o que queremos dizer. Queremos dizer que 1) necessariamente, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão será verdadeira; mas dizemos que 2) se as premissas forem verdadeiras, a conclusão será necessariamente verdadeira.…