domingo, 31 de março de 2013

Vila Real


O nosso manual será apresentado em Vila Real no próximo dia 5 de Abril (sexta-feira), no Hotel Miracorgo, às 16:15. Para se inscrever, clique aqui.

sábado, 30 de março de 2013

Um cheirinho de filosofia na TV


Na próxima terça-feira, dia 2 de Abril, às 22:00 horas estarei no programa É a Vida Alvim, no canal de cabo +TVI. O outro convidado, além de mim, é o escritor, editor e ex-Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

O programa é repetido nos dias seguintes no mesmo canal. No dia seguinte passa também na TVI, mas às... 5:00 horas!

sexta-feira, 29 de março de 2013

Tao Te Ching ou Daodejing?

Duas novas traduções recentes da obra clássica do taoismo relembram-nos a dificuldade que é compreender a cultura chinesa, devido às diferenças linguísticas profundas que nos separam. Tudo começa logo pelo próprio título da obra: tradicionalmente conhecida na Europa por Tao Te Ching, é mais recentemente referida como Daodejing, segundo as novas normas de transliteração do chinês para o nosso alfabeto fonético. O próprio nome do autor passou do mais conhecido Lao Tsé (por vezes também Lao Tzu) para Laozi. 

Só no séc. XIX esta obra foi pela primeira vez traduzida numa língua europeia, o francês, mas desde então não tem parado de exercer um forte fascínio entre os leitores. Sendo uma obra a um tempo poética e filosófica, é fascinante não apenas pela sua estranheza mas também por comunicar uma comunhão religiosa, ou próximo disso, com uma realidade mais profunda que subjaz às aparências superficiais. O tema da distinção entre a aparência e a realidade não é, evidentemente, novidade no pensamento filosófico europeu (e é até defensável que se trata de uma distinção de tal modo central que nenhum pensamento sofisticado pode ignorá-la); se quisermos recuar a um dos textos fundadores da tradição filosófica europeia, encontramos em Parménides a insistência de que a via da aparência não deve ser confundida com a via do que genuinamente é, ou do ser. E Platão tornou vívido o contraste na famosa alegoria da caverna. Contudo, em Daodejing encontramos uma abordagem cativante e algo misteriosa desse tema comum.
Quem foi realmente o autor de Daodejing, e quando foi esta obra escrita? Não se sabe ao certo. Laozi significa apenas "velho mestre" em chinês, não se sabendo ao certo quem era essa pessoa, ou sequer se existiu uma só pessoa que tenha sido o autor dessa obra. Sabe-se que por volta de 800 a.C. circulavam já exemplares de Daodejing, título que significa apenas algo como "O Cânone Clássico da Via ou Caminho". O caráter poético e muito sintético da obra torna a sua interpretação e compreensão, mesmo em chinês, difícil. Além disso, no chinês literário clássico, tal como acontecia com o grego da antiguidade, não se usava vírgulas nem pontos nem outras marcas gráficas para assinalar períodos, frases e parentéticas. Esta ausência, noutros textos menos complexos, não levanta dificuldades; no Daodejing, contudo, as dificuldades são imensas. 

Tudo o que pode fazer quem não domina o chinês é deitar mão das novas traduções eruditas que vão surgindo, como é o caso da publicada na Oxford Classics, de Edmund Ryden, antecedida por uma esclarecedora introdução de Benjamin Penny. Como exemplo das diferenças de interpretação e tradução, compare-se a versão de Ryden com a tradução popular recente de Aaron Scott Brachfeld.

Tradução de Ryden

Podes falar das vias,
mas não da Via Perene.
Usando nomes podes nomear,
mas não podes nomear o Nome Perene.

O sem nome é a origem da miríade de coisas;
o que tem nome é a mãe da miríade de coisas.

Consequentemente,
liberta-te do desejo, para contemplares a sua obscuridade; entrega-te ao desejo, para contemplares o que ela deseja.

Ambos se revelam o mesmo, mas são nomeados como opostos,
Sendo o mesmo, denominam-se "abstruso".
O abstruso do abstruso é o pórtico para toda a obscuridade.

Tradução de Brachfeld

O bem que pode ser descrito não é o verdadeiro bem, tal como um nome que possa ser nomeado não é um verdadeiro nome. O sem nome deu origem ao universo, o que tem nome deu origem às incontáveis coisas que o universo contém. Quando não temos desejos, apercebemo-nos do mistério, quando desejamos, apercebemo-nos das manifestações. Tanto o desejo como o sem desejo vêm da mesma fonte, ainda que difiram nos seus nomes. Esta fonte é percebida como trevas, trevas nas trevas, um pórtico para o mistério.

A filosofia no ensino secundário

A Filosofia no Ensino Secundário é um blog especialmente destinado a alunos e professores de filosofia do secundário, da autoria de um dos mais antigos e ativos bloggers portugueses na área da filosofia: Rolando Almeida. Com atualizações regulares e notícias filosóficas em cima do acontecimento.


quinta-feira, 28 de março de 2013

O quadrado de oposição

No artigo "O Quadrado de Oposição Tradicional" (em inglês), o Professor Terence Parsons, da UCLA, que prepara um muito aguardado livro sobre a lógica medieval, desfaz ideias comuns historicamente falsas com respeito ao quadrado de oposição. A versão rápida da história é que apesar de ser comum atribuir aos medievais e a Aristóteles a ideia de que temos de rejeitar termos vazios para preservar todas as relações lógicas do quadrado de oposição, nem os primeiros nem os segundos defendiam tal coisa; esta ideia surge apenas no séc. XIX, depois da desgraça que foi o fim do estudo cuidadoso e sistemático da lógica, ocorrido no séc. XVI (segundo Ashworth, a partir da terceira década desse século), sendo o livro conhecido como "Lógica de Port Royal" o primeiro a espalhar várias ideias erradas sobre a lógica em geral e o quadrado de oposição em particular. (A propósito, este livro, publicado anonimamente, mas da autoria de Antoine Arnauld e Pierre Nicole, tinha por título... La logique, ou l'art de penser.)

O problema mais conhecido levantado pela doutrina tradicional do quadrado de oposição é a ideia de que as proposições de tipo I (como "Algum A é B") têm uma relação de subalternidade com as proposições de tipo A (como "Todo o A é B"). Esta relação de subalternidade existe também, segundo a doutrina tradicional, entre as proposições de tipo O e E. Ora, a dificuldade é que se usarmos termos vazios e uma certa maneira de entender o valor de verdade das frases em que os termos ocorrem, não existe subalternidade. Vejamos apenas o caso das proposições I e A. 

Q é subalterna de P se, e só se, não pode acontecer que P seja verdadeira e Q falsa. Ora, se considerarmos que "Todos os marcianos são louros" é verdadeira (porque não há marcianos), e que "Alguns marcianos são louros" é falsa (precisamente por não haver marcianos), a subalternidade entre A e I perde-se. Uma maneira de salvar a subalternidade é excluir termos vazios, como "marcianos", isto é, termos que não referem coisa alguma. Contudo, apesar de ser comum atribuir esta perspetiva tanto a Aristóteles como aos medievais, eles não a defendiam. O que defendiam era mais interessante e sofisticado, diz-nos Parsons. 

Não é fácil ver se uma proposição de tipo A é verdadeira ou falsa quando o seu termo sujeito é vazio. A maneira habitual de explicar por que razão a proposição é verdadeira é raciocinar por oposição. Considere-se a proposição de que todos os marcianos são louros. Será isto verdadeiro? É difícil saber, porque não há marcianos. Pensemos então na sua contraditória, que é a proposição de que alguns marcianos não são louros. É esta proposição verdadeira ou falsa? A resposta contemporânea é que é falsa, precisamente porque não há marcianos – e nós entendemos a proposição de que alguns marcianos não são louros como querendo dizer que existem realmente marcianos e alguns deles não são louros. Ora, dado que não existem marcianos e uma conjunção é falsa desde que uma das suas conjuntas o seja, é falso que alguns marcianos não sejam louros.

Contudo, se é falso que alguns marcianos não são louros, então a sua contraditória (todos os marcianos são louros) é verdadeira. Mas então "Alguns marcianos são louros" não é subalterna de "Todos os marcianos são louros", pois esta é verdadeira mas aquela é falsa. 

Todavia, nem Aristóteles nem os medievais aceitariam este raciocínio, pois pensavam que "Alguns marcianos não são louros" era... verdadeira, e não falsa. De modo que "Todos os marcianos são louros" era considerada falsa. A ideia era a seguinte: dado não haver marcianos, é vacuamente verdadeiro que alguns marcianos não são louros. É vacuamente verdadeiro porque não há marcianos que possam tornar falsa a proposição de que alguns marcianos não são louros; afinal, quando pensamos que é falso que algumas mulheres têm cinco braços é porque podemos apresentar várias mulheres e nenhuma delas tem cinco braços. Se não pudéssemos apresentar mulheres, não poderíamos mostrar que tal proposição era falsa. E isso é exatamente o que acontece no caso dos marcianos. 

Assim se vê que podemos manter a totalidade do quadrado de oposição, com as suas relações de subalternidade, e também com a diferença entre as contrárias e as subcontrárias: basta entender as proposições particulares (tipo I e O) desta maneira especial, sendo vacuamente verdadeiras quando o termo sujeito é vazio. 

Esta maneira de entender a lógica aristotélica é muitíssimo superior ao que falsamente era costume atribuir a Aristóteles e aos medievais, pois a rejeição de termos vazios impede-nos de usar também termos que não sabemos se são vazios ou não (como extraterrestres ou divindades). Além disso, é genuinamente interessante saber se uma proposição com a forma lógica "Algum A é B" deve adequadamente ser entendida como o fazemos hoje (como uma conjunção existencialmente quantificada), ou se devemos antes entendê-la como Aristóteles e os medievais a entendiam.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Enciclopédias de filosofia

A Enciclopédia Stanford de Filosofia, livremente acessível na Internet, é um recurso valioso para estudantes e professores, assim como a Enciclopédia de Filosofia da Internet (ambas em língua inglesa). Em ambos os casos encontramos enciclopédias vivas, ainda em formação, publicando regularmente novos artigos. Os artigos variam em termos de profundidade e sofisticação: alguns são bastante avançados, outros são perfeitamente acessíveis. Em ambos os casos, contudo, trata-se de um recurso educativo fundamental.

terça-feira, 26 de março de 2013

Tolstoi sobre a confusão entre a beleza, o bem e a verdade



«A ciência da estética, ciência do belo, nunca desapareceu nem poderia desaparecer, porque nunca existiu; apenas o facto de os gregos, como todas as pessoas, sempre e em toda a parte, considerarem a arte boa quando estivesse ao serviço do bem (de acordo com a sua compreensão do que era o bem), e má quando fosse contrária a este bem, como sucede em qualquer outro assunto. Os próprios gregos eram moralmente tão pouco desenvolvidos, que o bem e a beleza se lhes afiguravam coincidentes, e com base nesta conceção primitiva do mundo dos gregos foi construída a ciência da estética, inventada pelas pessoas do século XVIII e especialmente transformada em teoria por Baumgarten. Os gregos [...] nunca tiveram ciência estética alguma. As teorias estéticas, e o próprio nome dessa ciência, surgiram há cerca de cento e cinquenta anos entre as classes ricas do mundo cristão europeu, em povos diferentes simultaneamente: Itália, Holanda, França e Inglaterra. O seu fundador, que lhe deu forma científica e teórica, foi Baumgarten. Com pedante precisão e simetria tipicamente alemãs, ele inventou e formulou esta extraordinária teoria. E nenhuma outra teoria, apesar da sua incrível falta de fundamento, agradou tanto à multidão instruída e foi aceite com tanta prontidão e tamanha falta de crítica. Esta teoria agradou tanto às pessoas das classes altas que até agora, apesar da sua absoluta arbitrariedade e da falta de substância das suas teses, tem sido repetida por cultos e incultos como algo indubitável e indiscutível.

Por mais infundadas que as teorias deste género sejam e por mais contrárias a tudo aquilo que é conhecido e reconhecido pela humanidade, por mais obviamente imorais que sejam, são aceites convictamente e sem crítica, pregando-as com um entusiasmo ardente, por vezes durante séculos, até ao momento em que as condições que as justificam desaparecem ou o absurdo dessas teorias se torna evidente. Assim é também a espantosa teoria da trindade de Baumgarten — Bem, Beleza e Verdade —, segundo a qual se mostra que o melhor que se pode fazer pela arte dos povos que viveram mil e oitocentos anos de vida cristã consiste em identificar como ideal de tal vida o mesmo que há dois mil anos atrás foi o ideal de um povo meio-selvagem e esclavagista, que representava muito bem a nudez do corpo humano e que construía edifícios agradáveis à vista. Ninguém repara em todas estas incongruências. Pessoas instruídas escrevem longos e nebulosos tratados sobre a beleza como membro da trindade estética: a beleza, a verdade e o bem. Das Schöne, das Wahre, das Gute; le Beau, le Vrai, le Bon, é repetido com letras maiúsculas por filósofos, por estetas, por artistas, por pessoas comuns, por romancistas e panfletistas, e todos parecem pensar que, pronunciando estas palavras sagradas, falam sobre algo perfeitamente definido e firme — algo em que é possível fundamentar as suas opiniões. Na verdade, estas palavras não só não têm significado preciso como nos impedem de dar um significado preciso à arte existente. São palavras necessárias para justificar apenas a falsa importância de uma arte que transmite sentimentos de toda a espécie, desde que esses sentimentos nos causem prazer.

Bastava só deixarmos de lado por algum tempo o hábito de considerar esta trindade tão verdadeira quanto a trindade religiosa, e perguntarmo-nos o que todos nós sempre entendemos pelas três palavras dessa trindade, para nos convencermos sem margem para dúvidas de quão disparatado é unir numa só estas três palavras e noções completamente diferentes e, acima de tudo, incomparáveis.

O bem, a beleza e a verdade são colocados no mesmo nível, sendo estas três noções consideradas fundamentais e metafísicas. No entanto, nada disso acontece na realidade. O bem é eterno, o objetivo maior da nossa vida. Seja qual for o entendimento que dele temos, a nossa vida não é senão uma incessante procura do bem — isto é, de Deus. De facto, o bem é um conceito fundamental que metafisicamente constitui a essência da nossa consciência, um conceito que não se define racionalmente. O bem é algo que ninguém pode definir, mas que define tudo o resto. Mas a beleza, se não nos quisermos satisfazer com palavras e antes falar sobre o que compreendemos — a beleza nada mais é do que aquilo que nos é agradável. O conceito de beleza não só não coincide com o de bem, sendo até o seu oposto, porque o bem, na maior parte das vezes, coincide com a vitória sobre as paixões, enquanto a beleza é a base de todas as nossas paixões.

Quanto mais nos entregamos à beleza, tanto mais nos afastamos do bem. Sei que a resposta do costume é que a beleza pode ser moral ou espiritual, mas isto é apenas um jogo de palavras, porque por beleza espiritual ou moral entende-se nada mais do que o bem. A beleza espiritual, ou o bem, na maioria das vezes não só não coincide com aquilo que normalmente se entende por beleza, como é mesmo contrária a esta.

No que diz respeito à verdade, é ainda menos possível atribuir a este membro da imaginária trindade a unidade com o bem ou a beleza, nem mesmo uma qualquer existência independente. Só chamamos verdade à concordância entre a manifestação ou a descrição de um objeto e a sua essência, ou com a compreensão desse objeto que é comum a todas as pessoas. O que é, então, comum aos conceitos de beleza e de verdade, por um lado, e ao de bem, por outro? Os conceitos de beleza e de verdade não só não são conceitos equivalentes ao de bem, não partilham a mesma essência com o bem e nem sequer coincidem com ele. A verdade é a concordância da descrição com a essência do objeto e, por isso, é também um dos meios de alcançar o bem, mas por si mesma a verdade não é nem o bem, nem a beleza e nem sequer coincide com eles. Dessa forma, por exemplo, Sócrates e Pascal, assim como muitos outros, consideravam o conhecimento da verdade acerca dos objetos inúteis como discordante do bem. Quanto à beleza, nada tem sequer em comum com a verdade e é, na maior parte das vezes, contrária a ela, pois a verdade, ao expor frequentemente o engano, destrói a ilusão, a principal condição da beleza.

Ora, a união arbitrária destes três conceitos incomensuráveis e estranhos entre si nunca serviu de base à espantosa teoria segundo a qual a diferença entre a boa arte, que transmite bons sentimentos, e a má, que transmite sentimentos perversos, é completamente inexistente; e uma das mais baixas expressões da arte, a arte exclusivamente para o prazer — contra a qual as pessoas foram prevenidas pelos maiores mestres da humanidade — veio a ser considerada arte superior. E a arte deixou de ser a coisa importante que deveria ser para se tornar um oco entretenimento de pessoas ociosas.»
Lev Tolstoi, O Que é a Arte? Trad. Ekaterina Kucheruk (Gradiva, 2013).

A arte do diálogo

No blog A Arte do Diálogo encontramos vários filmes interessantes com pequenos diálogos filosóficos, umas vezes entre jovens e outras com adultos, moderados por Tomás Carneiro, especialista na arte do diálogo filosófico. Muito interessante para pessoas de qualquer idade, seja qual for a sua preparação filosófica.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Quarteto de Alexandria

Acaba de ser reeditada a obra-prima de Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, na Dom Quixote. Muitíssimo recomendável para os alunos que já apreciem a boa literatura, é uma boa fonte de inspiração para o professor. O aspeto central do quarteto é uma mesma história de amor ser narrada de diferentes pontos de vista, o que poderá ajudar a explorar o tema da relatividade dos valores morais.

Williamson sobre a natureza da filosofia


"Imagine-se uma conferência de filosofia na Grécia dos pré-socráticos. A questão do dia é: as coisas são feitas de quê? Os seguidores de Tales dizem que tudo é feito de água, os de Anaximandro que tudo é feito de ar e os seguidores de Heraclito que tudo é feito de fogo. Ninguém vê muito claramente o que estas afirmações querem dizer; alguns põem até em causa se os fundadores das respetivas escolas alguma vez as fizeram. Mas entre os apoiantes fala-se muito sobre o emocionante progresso recente. Aqueles que troçam e duvidam também falam muito. Sublinham que não se vislumbra qualquer resolução para a disputa entre as escolas. Consideram que Tales, Anaximandro e Heraclito sofrem de uma tendência para generalizar excessivamente. É sensato perguntar de que é feito pão, ou as casas, mas perguntar de que são feitas as coisas em geral é destituído de sentido, sugerem, porque a pergunta é feita sem qualquer conceção de como fazer para verificar se uma dada resposta é correta; a linguagem foi de férias. Os pragmatistas daquele tempo convidam toda a gente a relaxar, esquecer as suas pseudoinvestigações fúteis e fazer ao invés algo útil.

Naquele tempo era muito fácil troçar e duvidar da filosofia, mas hoje sabemos que, pelo menos num aspecto importante, não tinham razão. Apesar de toda a confusão, Tales e os outros estavam a fazer uma das perguntas mais importantes que alguma vez se fez, uma pergunta que conduziu, depois de muito trabalho árduo, a grande parte da ciência moderna. Abandonar tal pergunta há dois mil e quinhentos anos devido à sua incoerência conceptual ou por outra razão teria sido rendermo-nos anémica e desnecessariamente ao desespero, estreiteza de espírito, cobardia ou indolência. Contudo, é igualmente claro que os métodos de investigação usados pelos pré-socráticos eram totalmente inadequados relativamente às suas ambições. Se uma tradição intelectual aplicasse apenas esses métodos a tais perguntas durante dois mil e quinhentos anos, o que está longe de ser inimaginável, poderia muito bem não ter avançado um só passo. Grande parte do progresso alcançado desde o tempo dos pré-socráticos consiste no desenvolvimento de métodos para fazer intervir a experiência em perguntas que, quando as fazemos, parecem irremediavelmente esquivas e ingénuas. Mas é claro que progredir envolve também aprimorar e clarificar a pergunta inicial: porém, no início não se pode prever todos os aprimoramentos e clarificações. Estes surgem no processo de tentar responder à pergunta original grosseira, e não surgiriam de outro modo. 

Os pré-socráticos foram os precursores tanto da filosofia como da ciência modernas; não distinguiam as ciências da natureza da filosofia. Para os positivistas, a moral da história é que foi preciso separar a filosofia das ciências da natureza, tratando as estas últimas como um campo em que se aplica a observação, a medição e a experimentação, antes de termos podido progredir seriamente. Há sem dúvida algo de correto nesta ideia, apesar de, tal como se apresenta, dificilmente fazer justiça à importância dos métodos raciocinativos nas ciências da natureza, nomeadamente o uso da matemática e das experiências mentais, em Galileu e Einstein, por exemplo. Além disso, a ideia positivista não dá atenção a um aspecto metodológico mais profundo. O caso dos pré-socráticos mostra que não podemos sempre prever a que perguntas será profícuo tentar responder. Mesmo que uma comunidade comece sem qualquer ideia remotamente adequada de como responder a uma dada pergunta, não se conclui que esta é destituída de sentido ou que não vale a pena enfrentá-la. Isto aplica-se tanto às perguntas que hoje classificamos como filosóficas quanto às que hoje classificamos como empíricas ou das ciências da natureza.

Quem se opõe à teorização filosófica sistemática poderá responder que não estão a ajuizar as perguntas filosóficas antes de estas serem desenvolvidas; estão a ajuizá-las depois de dois milénios e meio de fúteis tentativas de resposta. […]

Não devemos ser demasiado pessimistas quanto à resposta […]. Em muitas áreas da filosofia, sabemos muito mais em 2007 do que se sabia em 1957; e sabia-se muito mais em 1957 do que em 1907; e muito mais se sabia em 1907 do que em 1857. Tal como acontece nas ciências da natureza, numa comunidade podemos coletivamente saber algo mesmo que isso seja ocasionalmente rejeitado por membros excêntricos dessa mesma comunidade. Apesar de a discordância fundamental ser conspícua na maior parte das áreas da filosofia, as melhores teorias numa dada área estão em muitos casos muitíssimo mais bem desenvolvidas em 2007 do que as melhores teorias dessa área o estavam em 1957, e assim por diante."

Timothy Williamson, A Filosofia da Filosofia (2007), trad. D. Murcho, pp. 278-279

domingo, 24 de março de 2013

Enciclopédia Internacional de Ética

A Wiley acaba de anunciar a publicação da monumental Enciclopédia Internacional de Ética, organizada por Hugh LaFollette. Com mais de 700 artigos distribuídos por nove volumes, a obra está disponível não apenas em formato de livro, mas também em formato eletrónico, com acesso restrito às universidades e escolas que subscreverem o serviço. Alguns artigos estão contudo disponíveis para leitura livre (em inglês apenas): Aristóteles, Autonomia da Ética, Ética Ambiental das Virtudes, Sigmund Freud, Intervenção Humanitária, Intersubjetividade, Ética Jurídica, e Supererogação.

Caderno do estudante


O nosso manual é acompanhado de um útil Caderno do Estudante, que inclui um glossário capítulo a capítulo, indicações sobre como estudar e como escrever ensaios, uma brevíssima história da filosofia, e uma apresentação simples de todos os filósofos mencionados ao longo do manual, entre outros conteúdos. Uma amostra do Caderno do Estudante está aqui.

Livro de Apoio


50 Lições de Filosofia é acompanhado de generoso um Livro de Apoio para o professor, com 124 páginas, que inclui várias explicações e sugestões adicionais, lição a lição, assim como um glossário para cada capítulo, sete testes com as respetivas respostas e um banco de questões adicionais para a elaboração de testes, entre outros materiais complementares. Um excerto está disponível aqui.

A opinião dos alunos também conta

No prefácio agradecemos a vários colegas e amigos que tiveram a gentileza de ler criticamente versões preliminares de vários capítulos de 50 Lições de Filosofia, obrigando-nos, por vezes, a reescrever lições inteiras.

Mas também a opinião de alunos contou, mesmo quando não era claro para eles que estava a contar. É, por isso, justo que lhes agradeçamos também. Por diversas vezes usei algum material destas lições nas aulas, como complemento aos materiais habituais, estando atento às suas reacções e opiniões. Depois de lhes ter dito isso, fizeram questão (com toda a razão) de que o agradecimento dos autores ficasse registado de forma visível. Eis, pois, uma das turmas mais participativas, na sua peculiar encenação da Escola de Atenas. E assim terminou o 2º período.

Bem hajam! Esperamos continuar a aprender convosco.

sábado, 23 de março de 2013

Proposições, afirmações e declarações

Alguns filósofos objetam ao conceito de proposição, tal como é hoje entendido: o conteúdo verdadeiro ou falso expresso por uma frase. Uma razão, entre outras, para rejeitar a existência de proposições é a vontade de não nos comprometermos com a existência de entidades abstratas problemáticas. O percurso histórico algo acidentado do conceito de proposição é brevemente apresentado no Livro de Apoio, mas vale a pena ver que alternativas temos se quisermos evitar este conceito.

Na maior parte dos contextos da filosofia e da lógica (exceto quando tratamos do tema dos atos locutórios), não desejamos falar de frases, pois uma frase é meramente um meio para fazer uma afirmação, uma pergunta, dar uma ordem, etc. O que queremos geralmente em filosofia e lógica é falar das afirmações que as frases exprimem.

Uma alternativa ao uso de "proposição" é "afirmação". Este termo é neutro, no sentido em que não nos compromete com a existência dessas entidades abstratas problemáticas que são as proposições, mas por outro lado também não se trata apenas da própria frase. Muitos autores de língua inglesa usam statement ou claim precisamente para evitar falar de proposições. A desvantagem de "afirmação" é que teremos de admitir que as negações (como "Não há justiça sem igualdade") são... afirmações. Evidentemente, isto não é verbalmente feliz na nossa língua.

Uma alternativa seria usar "asserção", que por ser um termo desconhecido dos alunos não é imediatamente identificado com o contrário de uma negação. Todavia, a rigor, uma asserção é uma afirmação, pelo que também é algo infeliz dizer que uma negação é uma asserção. Só não parece tão estranho porque a palavra é menos habitual.

Uma segunda alternativa, mais promissora, é usar "declaração" (que está próximo de claim). Não parece problemático dizer que uma negação é uma declaração. Todavia, "declaração" sofre de uma ambiguidade ato-objeto, ou seja, tanto pode designar o ato de declarar algo como esse algo que é declarado. Ora, quando queremos falar do que é expresso por uma frase, não queremos falar do ato de declarar, mas apenas do que é declarado.

Em conclusão, usar o termo "proposição", apesar de estar longe de ser pacífico, não é uma opção obviamente pior do que as outras.

Diapositivos de ética (amostra)

Eis aqui uma amostra de 10 diapositivos (slides PowerPoint) dos 33 que acompanham o Capítulo 4 (ética) do 50 Lições.

Preparação para o teste intermédio

Acabo de ler aqui a notícia do lançamento do livro de Álvaro Nunes de preparação para o exame intermédio de filosofia do 11.º ano.

Sessões de apresentação

Para se inscrever nas sessões de apresentação do nosso manual, siga esta ligação.

Bem último e ação correta


Valorizamos muitas coisas: gostamos de cinema, por exemplo, ou de filosofia. De tudo o que valorizamos, muitas valorizamo-las apenas instrumentalmente. Por exemplo, valorizamos as vacinas apenas porque valorizamos a saúde. Mas valorizamos a saúde porquê? Talvez possamos dizer que é porque a saúde é importante para nos sentirmos felizes. Nesse caso, a felicidade é importante porquê?
Este é o problema do bem último. Qual é o bem em função do qual valorizamos todas as outras coisas como meios?
Ora, as nossas ideias morais têm sempre a ver com os conceitos de bem e de mal. Quando as pessoas condenam o uso da minissaia é porque pensam que usar minissaia é mau; quando defendemos a igualdade das mulheres é porque pensamos que isso é bom. Assim, temos de esclarecer o que é o bem último para podermos justificar adequadamente as nossas ideias morais.
Quando as pessoas condenam o uso da minissaia por ser imoral, não querem apenas dizer que usar minissaia é mau. Querem também dizer que é incorreto usar minissaia. Mas o que distingue as ações corretas das incorretas? Qual é o critério que nos permite fazer essa distinção adequadamente?
Este é o problema da ação correta. Trata-se de saber que caraterísticas fazem uma ação ser correta e outra incorreta.
O problema do bem último e o problema da ação correta estão relacionados. Isto porque é natural pensar que as ações corretas promovem o bem, e as incorretas promovem o mal.
Assim, o problema da fundamentação da moral reduz-se a duas perguntas: o que é o bem último? E qual é o critério da ação correta? Estas são as duas perguntas centrais da ética. Para justificar adequadamente as nossas ideias morais, temos de ter respostas plausíveis a estas duas perguntas. As duas teorias que vamos estudar respondem de maneira muito diferente nos dois casos.

Ética utilitarista de Mill Ética deontologista de Kant
Qual é o bem último? A felicidade A vontade boa
Qual é o critério da ação correta? As consequências O imperativo categórico

Conteúdos

Tolstoi sobre a definição da arte


O Que é a Arte? é um dos textos clássicos sobre a questão da definição (e do valor) da arte. É neste ensaio filosófico de Tolstoi que, pela primeira vez, é defendida aquela que ficou conhecida como teoria expressivista da arte. Embora a ideia da arte como expressão de emoções não fosse completamente nova (é, de resto, uma ideia cara ao movimento romântico), só com Tolstoi podemos verdadeiramente falar de uma teoria filosófica da arte como expressão. Por isso, é com satisfação que se anuncia aqui, em primeira mão, a tradução portuguesa deste clássico da estética; tradução feita directamente do russo, por Ekaterina Kucheruk, e com uma curta introdução minha. O livro tem publicação prevista para o final de Abril, na colecção Filosofia Aberta, da Gradiva.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A fundamentação da moral


Imagine-se que um cavalo dá um coice numa pessoa e a fere gravemente. Nada de imoral foi feito porque o cavalo não tem qualquer noção do bem e do mal; não distingue as ações moralmente corretas das incorretas. Isto significa que o cavalo não é um agente moral. 

Imagine-se agora que um ser humano comum dá um pontapé forte numa pessoa e a fere gravemente. Neste caso, algo de imoral foi feito porque os seres humanos comuns são agentes morais: temos noção do bem e do mal. Isto significa que consideramos que umas ações são corretas e outras incorretas. 

Precisamente porque somos agentes morais, vivemos em sociedades que têm vários códigos de comportamento, a que chamamos «moral». Por exemplo, no código de comportamento da sociedade portuguesa de há cinquenta anos, era imoral usar minissaia; hoje, não é imoral. Mas como podemos distinguir entre os códigos morais adequados e os inadequados? A filosofia moral ou ética é a área da filosofia que visa responder a esta pergunta, entre outras. 

Para responder a esta pergunta, precisamos de saber o que distingue as ações moralmente corretas das incorretas. Tanto o subjetivista moral como o relativista pensam que não há critérios objetivos para fazer essa distinção; o objetivista, pelo contrário, pensa que há. Mas se há, quais são? 

Imagine-se que a Joana defende que as mulheres devem ter privilégios especiais. Por exemplo, quando estamos na bicha para comprar bilhetes para o cinema, as mulheres devem entrar primeiro. Quando lhe perguntamos porquê, ela responde que deve ser assim porque lhe apetece. Como é óbvio, a justificação da Joana não é adequada. Mas seria adequada se ela invocasse, por exemplo, as tradições da sua sociedade? 

Quando as pessoas se opunham ao uso da minissaia, considerando-o imoral, era isso mesmo que faziam: invocavam as tradições. Contudo, esta não parece uma justificação muito boa da imoralidade da minissaia. Porquê? Porque falta ainda saber se há boas justificações para essas tradições. Se não houver, a tradição não justifica adequadamente a imoralidade da minissaia; e, se houver, são essas justificações que contam, e não as próprias tradições. 

O mesmo acontece quando as pessoas justificam a proibição da escravatura dizendo que viola os direitos humanos. Neste caso, tudo depende de haver ou não boas justificações para defender os direitos humanos. Enquanto não soubermos que justificações são essas, não justificámos adequadamente a proibição da escravatura. 

Assim, o problema da fundamentação da moral é este: como se justifica adequadamente ideias ou convicções morais?

Apresentação do manual


Porquê um manual organizado por lições? Em primeiro lugar, porque é precisamente para isso que serve um manual escolar: para lecionar. Essa foi uma das razões que nos levou a optar pela estrutura que melhor pode servir os professores na sua tarefa de ensinar. Em segundo lugar, porque um manual serve também para os alunos aprenderem e estudarem. Um manual organizado por lições também facilita o estudo e a aprendizagem dos alunos.

Os professores dispõem, assim, de um manual estruturado em função das suas necessidades concretas, com a planificação das aulas facilitada no que diz respeito às matérias a lecionar, à sua distribuição temporal e aos recursos a utilizar. Quanto aos alunos, dispõem de um guia simples de apoio às aulas, com as matérias arrumadas de acordo com elas, permitindo-lhes encontrar facilmente o que procuram.

E porquê 50 lições? Este não foi um número encontrado ao acaso. Na verdade, é o número de lições (de noventa minutos) indicado no programa da disciplina. Assim, o professor tem a garantia que, ao seguir as lições do manual, estará a cumprir integralmente o programa da disciplina, obedecendo também à distribuição de horas indicada para cada tema. É certo que o programa tem algumas opções que nem todos os professores lecionam, mas isso apenas contribui para deixar espaço para cada professor usar como bem entender: promovendo o debate nas aulas, recorrendo a um dos 50 textos do manual, aos filmes sugeridos ou a outras estratégias.

As lições estão integradas em capítulos. A estrutura de cada capítulo mantém-se ao longo do manual: começa sempre com um esclarecedor guia, apresentando o percurso a explorar ao longo das lições seguintes, e termina com sugestões de leitura criteriosamente pensadas para os alunos, além de filmes e textos. As sugestões de leitura e os filmes são também acompanhados de uma breve indicação do que neles se pode encontrar.

Cada lição tem em média três páginas e está dividida em curtas secções temáticas. A intenção foi a de as lições poderem ser lecionadas em apenas quarenta e cinco minutos. Assim, os professores podem aproveitar os restantes quarenta e cinco minutos (ou uma segunda aula, no caso de estas terem apenas quarenta e cinco minutos) para aprofundar as matérias, para trabalhar os textos com os alunos ou simplesmente para abrir o debate entre os alunos da forma como entenderem. Não haverá, pois, qualquer pressão sobre o professor para cumprir o que consta de cada lição, pois estas contêm apenas o que é fundamental e necessário.

A preocupação de clareza, de rigor e de simplicidade esteve sempre presente na conceção e elaboração deste manual; tanto no que diz respeito ao seu conteúdo como ao seu grafismo e aos diversos materiais de apoio que o acompanham. Assim, optou-se por um grafismo limpo e arrumado, mas também moderno e elegante, ao mesmo tempo que se evitou a repetição desnecessária, o ruído enciclopédico, a proliferação ruidosa de imagens, assim como a linguagem pomposa, rebuscada e escusadamente tecnicista. A linguagem simples manifesta-se também nos glossários de cada capítulo, incluídos nos materiais de apoio de alunos e professores.

Uma última palavra para o quase obsessivo cuidado didático e científico posto neste manual, que nos levou a reescrever vários capítulos inúmeras vezes, em função das preciosas opiniões e contribuições de colegas e professores que o tornaram muito melhor do que seria sem a sua generosa ajuda. Agradecemos por isso a Alexandre Guerra, Aluízio Couto, António Padrão, Carlos Pires, Daniela Moura Soares, Domingos Faria, Fernando Ildefonso, João Carlos Silva, José Carlos Soares, Luís Gonçalves, Matheus Silva, Rolando Almeida e Sara Raposo. À nossa editora, na pessoa de Paula Prata, agradecemos o apoio incrível, o profissionalismo simpático e a confiança. As infelicidades que ainda restarem são da nossa responsabilidade e estamos permanentemente abertos a todas as críticas, sugestões e comentários.

Esperamos que este manual seja filosoficamente estimulante e que os professores encontrem nele um bom instrumento de apoio às suas aulas, bem como um eficaz elemento de aprendizagem para os seus alunos.