Popper e a ciência: a teoria na prática

Acabou de ser publicado entre nós um daqueles livros que é capaz de pôr muita gente entusiasmada a pensar sobre o modo como a ciência, a filosofia, e mesmo a história e a arte se relacionam. Trata-se do aclamadíssimo O Início do Infinito, do premiado físico inglês, de origem israelita, David Deutsch. O livro foi traduzido para a Gradiva por Florbela Marques, com revisão de Carlos Fiolhais. 

Deutsch é um físico com um grande pendor filosófico e que sabe lidar com grandes ideias, não necessariamente novas, mas de uma forma inovadora e desafiante. No fundo, o que Deutsch faz neste livro é dar um novo fôlego às ideias de Popper sobre a ciência, procurando mostrar como a prática científica concreta as tem corroborado. Como Popper, Deutsch opõe-se ao empirismo e ao indutivismo. É um livro de leitura compulsiva e pode ser também muito útil para nós professores, que ensinamos e discutimos nas aulas do 11º ano a perspectiva popperiana sobre a ciência. Segue-se um pequeno excerto do livro para abrir o apetite. 



As teorias científicas são explicações: afirmações sobre o que existe no universo e como se comporta. De onde vêm estas teorias? Em quase toda a história da ciência, a convicção errónea de que as «retiramos» das impressões dos nossos sentidos prevaleceu — uma teoria filosófica conhecida como empirismo:

                                           
                                                Empirismo


Por exemplo, o filósofo John Locke escreveu, em 1689, que a mente é como uma «folha em branco» na qual a experiência sensorial escreve, sendo daí que retiramos todo o nosso conhecimento do mundo físico. Outra metáfora do empirismo dizia que podíamos ler o conhecimento no «livro da natureza», olhando à nossa volta. De qualquer modo, o sujeito do conhecimento é o seu recipiente passivo, não o seu criador. 
Na realidade, as teorias científicas não «derivam» de nada. Não as lemos na natureza, nem a natureza as grava em nós. São suposições — conjecturas criativas. As mentes humanas criam-nas reorganizando, combinando, alterando e acrescentando-as às ideias existentes, com a intenção de as aperfeiçoar. Não começamos com uma «folha em branco», quando nascemos, mas sim com expectativas e intenções inatas, e com uma capacidade natural de as melhorar usando o pensamento e a experiência. Efectivamente, a experiência é essencial para a ciência, mas o seu papel é diferente do postulado pelo empirismo. Não é a origem das teorias. A sua função é escolher entre as teorias já conjecturadas. Isso, sim, é «aprender com a experiência».

Vale a pena espreitar também a tradução, feita pelo Desidério, de uma das conferências TED de Deutsch (a conferência pode ser vista aqui). Ou ainda esta tradução, também do Desidério, do anterior livro de Deutsch, o enorme sucesso mundial que foi The Fabric of Reality.

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