O belo e o sublime

Sublime, belo, ou nem uma coisa nem outra?

Outra vez o belo e o sublime. Outra vez um autor setecentista. Quem será o autor do texto abaixo?

Grandes carvalhos e recantos com sombras num bosque sagrado são sublimes; tapetes de flores, sebes baixas e árvores com figuras talhadas são belas. A noite é sublime, o dia é belo. Na tranquilidade da noite estival, quando a luz bruxuleante das estrelas penetra a escuridão da noite que acolhe em si a lua solitária, nas almas que possuem o sentimento do sublime despertará a pouco e pouco um sentimento de amizade, de desprendimento do mundo e de eternidade. O dia radioso infunde uma diligência activa e proporciona um sentimento de alegria. O sublime comove, o belo encanta. A expressão de um homem dominado pelo sentimento do sublime é séria e, por vezes, perplexa e com assombro. No caso do sentimento do belo, porém, ela anuncia-se por meio de uma satisfação cintilante no olhar, por traços risonhos, e com frequência por manifestações de alegria. [...] 
O sublime tem de ser sempre grande, o belo pode também ser pequeno. O sublime tem de ser simples; o belo pode estar adornado e engalanado. Uma grande altura é tão sublime como uma profundeza, mas esta é acompanhada de uma sensação de estremecimento e aquela de uma sensação de admiração, porquanto a primeira é uma sensação assustadora e a segunda é nobre. [...] 
O entendimento é sublime; o engenho é belo; a audácia é grande e sublime; a astúcia pequena, porém, bela. A cautela dizia Cromwell, é uma virtude do regedor. A sinceridade e a rectidão são simples e nobres; o gracejo e a lisonja obsequiadora são finos e belos. A gentileza é a beleza da virtude. A solicitude desinteressada é nobre, a cortesia e a delicadeza são belas. As qualidades sublimes infundem um respeito venerável; enquanto as belas inspiram o amor. As pessoas cujo sentimento tende preferencialmente para o belo, somente em caso de necessidade escolhem como companhia amigos honestos, confiáveis e sérios, enquanto para convivas no entretenimento escolhem pessoas agradáveis, atenciosas e elegantes. Quando se admira alguém de forma excessiva, então parece ser impossível amar essa pessoa, pois a despeito da admiração que por ela temos, encontra-se numa posição tão superior à nossa, que é difícil aproximarão-nos dela com a confiança do amor.
Kant, I. Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime. Trad. Pedro Panarra. Lisboa: Edições 70, 2012, pp. 33-7.

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