Novidade editorial... para breve


Está para breve a publicação, na colecção Filosofia Aberta (Gradiva), da Introdução à Filosofia da Ciência, da filósofa italiana Lisa Bortolotti. Como seria de esperar, o livro apresenta e discute questões relativas à ciência, que são leccionadas no 11º ano. Para dar uma ideia, deixo aqui o início do capítulo 5, sobre a questão da racionalidade científica e do progresso na ciência.


O êxito da ciência é muitas vezes celebrado como a mais extraordinária conquista humana. Contudo, vimos que é difícil assinalar o que a ciência tem de especial: as generalizações indutivas subjacentes à prática da ciência são falíveis; o método usado pelas ciências não pode ser facilmente explicado de uma maneira única e distintiva; uma teoria científica não tem de ser verdadeira ou de nos apresentar uma descrição precisa da realidade para receber confirmação empírica, para ser empregue na explicação ou para funcionar como um instrumento de previsão eficaz. À luz destes debates, a questão de saber se temos justificação ao atribuirmos à ciência um estatuto privilegiado no seio de outras práticas humanas torna-se ainda mais premente. Mas antes de podermos responder a esta questão, temos mais duas outras para resolver: será que a ciência evolui de uma maneira progressiva? Será a mudança na ciência guiada por princípios racionais? 

Mesmo se formos realistas no que respeita às teorias científicas e acreditarmos que as entidades e as relações postuladas pelas teorias científicas actuais existem realmente, a natureza do progresso em ciência obriga-nos a reconhecer que há teorias que foram aceites no passado e que já não são consideradas verdadeiras, e que postulavam a existência de entidades ou de relações que hoje pensamos que nunca existiram. Como podemos confiar que as nossas teorias actuais são realmente melhores do que as anteriores, e não meramente diferentes? Será que a escolha da teoria a adoptar pode ser apoiada por argumentação racional? Quando uma comunidade científica destitui uma teoria e adopta outra, muitas vezes isto acontece mediante um processo gradual de mudança que há muito os filósofos da ciência tentam compreender usando modelos concorrentes. 

As questões sobre se a mudança científica é racional e se o progresso é cumulativo têm constituído o objecto do debate tradicional entre racionalistas e historicistas, e têm sido tratadas em conjunto com outras questões, tais como a referência dos termos teóricos que já não usamos, a finalidade da ciência, a capacidade dos cientistas para comunicar eficazmente com os que defendem teorias concorrentes, e a pluralidade de estilos de raciocínio que caracterizam as investigações humanas sobre a natureza. Se pensamos que a teoria que hoje aceitamos está mais próxima da verdade (ou é mais adequada empiricamente) do que a anterior e que consegue explicar mais factos de uma maneira mais satisfatória e abrangente, tenderemos a considerar a mudança da teoria anterior para a teoria actual como um exemplo de progresso, um progresso baseado nos princípios racionais da escolha de teorias. 

Os racionalistas retratam a mudança exactamente nos seguintes termos: a comunidade científica avança com base em argumentação sólida sustentada por indícios empíricos sólidos. De acordo com eles, o estilo de raciocínio promovido pela ciência, modelado pelo método científico, é o estilo que melhor contribui para o conhecimento. Os historicistas, porém, cuja análise é inspirada pela análise pormenorizada de episódios específicos da história da ciência, sublinhando a complexidade dos factores que frequentemente se vem a saber determinarem a mudança das teorias actuais, comparam provocatoriamente a substituição de uma teoria dominante num domínio da investigação a uma conversão religiosa. A comunidade científica não é um agente racional colectivo que pesa as razões a favor e contra teorias concorrentes de uma maneira objectiva. Ao contrário, divide-se entre a sua atitude conservadora natural, que encoraja os cientistas a conservar as teorias existentes, e a pressão resultante da constatação de que as teorias existentes podem ter deixado de se adequar satisfatoriamente aos dados. Neste contexto, a escolha de uma teoria em detrimento das teorias concorrentes não é sempre defendida com base em argumentos puramente racionais. O compromisso com a verdade ou a eficácia da teoria escolhida é um acto de fé da comunidade científica (ou de parte da comunidade científica) em alguns pressupostos metafísicos e metodológicos, e não uma consequência do juízo de que a teoria escolhida é superior às suas concorrentes no que respeita a indícios neutros e padrões objectivos. 

Para tornar o debate sobre a mudança científica ainda mais complexo, os historicistas vêem o papel dos indícios empíricos na mudança de teorias de uma maneira diferente. Para o historicista, não podemos discriminar facilmente entre teorias rivais baseando-nos apenas nos dados, uma vez que estes nunca são apresentados de uma maneira completamente neutra e podem ser interpretados como apoiando uma ou outra das teorias incompatíveis. O racionalista pode concordar que os dados por si só não são sempre suficientes para discriminar entre teorias rivais (relembremos a tese de Duhem-Quine que discutimos no capítulo anterior), mas insiste que há critérios objectivos para a escolha de teorias que nos permitem considerar a mudança como um exemplo de progresso. 

No final deste capítulo o leitor estará habilitado para: 

·      Identificar os factores relevantes numa explicação filosófica sobre a mudança científica.

·   Listar e comparar critérios possíveis para a escolha de teorias, bem como avaliar a alegação de que alguns critérios são mais importantes que outros.
·      Distinguir e avaliar as perspectivas racionalista e historicista sobre a mudança e o progresso.
·      Identificar as implicações da tese da incomensurabilidade na ciência em geral e na noção de progresso cumulativo em particular.
·   Examinar criticamente várias interpretações da tese de que a ciência é racional.

Comentários

  1. Otimo isso. Vc sabe quem está fazendo a tradução Aires?

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  2. Sei sim, Rodrigo, pois sou eu quem está a fazer a revisão científica. A tradução foi feita por Jorge Beleza (que fez um trabalho muito bom) e a minha revisão está quase no fim.

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  3. Obrigado pela informação Aires, e mais ainda por mais essa contribuição com a tradução de livro. Espero por mais esse livro agora. Vcs não fazem ideia de como sou grato pelo trabalho filosófico e didático que vc e outros professores de PT tem feito (conheço um pouco de seu trabalho [o famoso DEF na rede e outros manuais], do Desidério [a Critica e seus livros e traduções], do Rolando Almeida, do Domingos Farias, etc.). Ainda me falta adquirir mais dos materiais que vcs tem produzido. O trabalho de vcs tem me ajudado e me inspirado muito, vcs estão a contribuir para um ensino de filosofia de boa qualidade (porque reconheço o efeito produzido por esses materiais em mim proprio). Espero poder num futuro proximo alavancar ao nível de vcs. Mas aplicação nao me falta.

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  4. Obrigado por tão simpáticas palavras, Rodrigo. Estamos a trabalhar todos em prol da filosofia. Um abraço.

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  5. Acredito nisso tbm Aires. Esse trabalho de base didático é muito importante para a formação de uma cultura filosófica forte, que falta ainda no Brasil, pois vejo apenas poucos professores valorizarem, estarem preocupados e envolvidos nisso. Um abraço

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