Inspetores de circunstâncias ou tabelas de verdade?


Imagine-se o que seria ensinar lógica sem um termo específico para o conceito de raciocínio. Seria possível? Sim, claro. Apenas seria desnecessariamente mais difícil. Sempre que quiséssemos falar de raciocínio, teríamos de dizer apenas “sequência de proposições” — subentendendo, claro, que nem todas as sequências de proposições são raciocínios.

A vantagem de um termo específico para o conceito de raciocínio é precisamente o facto de os raciocínios terem propriedades que as proposições não têm, e vice-versa: os raciocínios são válidos ou inválidos, mas não verdadeiros ou falsos, e as proposições são verdadeiras ou falsas, mas não válidas ou inválidas. Um raciocínio é uma sequência de proposições, tendo propriedades que dizem respeito à estrutura dessa sequência, e não a cada uma das proposições que a compõem. Tudo isto é apenas um aspecto da elementar distinção entre validade e verdade, e não é arriscado supor que é consensual.

Todavia, o caso muda de figura quando falamos de inspetores de circunstâncias. Apesar de a razão de ser desta expressão, cujo original inglês é “circunstance surveyor”, ser exatamente a mesma, há quem a rejeite. Surpreendentemente, rejeita-a sem propor uma designação alternativa — exatamente como quem rejeita a designação de “raciocínio” para o conceito relevante, mas se inibe de propor uma alternativa, falando-se então de sequências de proposições. Um inspetor de circunstâncias é, de facto, uma sequência de tabelas de verdade. Contudo, do mesmo modo que uma sequência de proposições que constitui um raciocínio não é uma proposição e do mesmo modo que uma sequência de tijolos que compõem uma casa não é um tijolo, também uma sequência de tabelas de verdade não é uma tabela de verdade. Uma tabela de verdade estabelece que uma dada forma proposicional é uma verdade lógica, uma falsidade lógica ou uma contingência lógica, ao passo que um inspetor de circunstâncias estabelece que uma dada forma de raciocínio é válida ou não.

Que razão adequada haverá para não usar o termo que ocorre no livro introdutório de lógica de Newton-Smith? Talvez o facto de tal termo ocorrer apenas neste livro e não noutros? Este facto (se é um facto: eu não fui ver todos os livros introdutórios de lógica para ver se usam algo como “circunstance surveyor”) parece-me quase completamente irrelevante e um sinal seguro de uma menoridade académica e escolar incompatível com uma formação intelectual sólida. Faz-me lembrar uma história, não sei se apócrifa, na qual Einstein, ao descobrir que perto de uma centena de eminentes físicos do seu tempo escreveram à revista onde ele publicou o seu artigo original com a primeira parte da teoria da relatividade protestando pela sua publicação, reage comentando que se algo houver de errado no artigo não é preciso tanta gente: basta um, e basta que mostre o que está errado. Parece-me completamente irrelevante que nenhum outro livro de lógica use uma expressão específica para um conceito bem delimitado e cujo uso tem um impacto didático importante; o que me parece relevante é ser capaz de pensar autonomamente sobre as opções que temos à nossa frente: usar “tabelas de verdade” e cometer um erro científico e uma inadequação didática ou usar um termo específico para sequências de tabelas de verdade que não são meras sequências de tabelas de verdade tal como um raciocínio não é uma mera sequência de proposições. E quando se pensa desta maneira, a opção parece-me clara.

Há outra razão contra o uso de “inspetor de circunstâncias”, e esta é muitíssimo mais promissora. É que o termo português foi introduzido por mim porque fui eu quem traduziu o livro, e um princípio adequado da vida académica e escolar portuguesa é que, seja o que for que eu faça, é lixo. Esta razão tem bastante peso, uma vez que nos últimos vinte anos fui suficientemente estúpido para tentar dar uma contribuição modesta e humilde para melhorar ligeiramente o ensino da filosofia no meu país (quão estúpido, eu sei!), em vez de pensar exclusivamente nos meus interesses pessoais e profissionais. Procurei dar mais à filosofia do que a filosofia me deu a mim, e este é um princípio ridículo quando quase toda a gente faz exactamente o inverso disso.

Comentários

  1. Não me ocorre nenhum comentário filosófico mas sempre posso mandar um abraço :)

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  2. Caro Desidério, acompanho o seu trabalho desde os primeiros tempos do grupo de discussão no yahoogroups. Não foi uma revelação mas foi reconfortante encontrar alguém que lutava como eu para melhorar o ensino da Filosofia e, em particular, da Lógica e da pedagogia da escrita argumentativa. Creia que a sua influência sobre o atual ensino da Filosofia é maior do que aquela que aqui afirma. Não sou um filósofo analítico e discordo de algumas propostas que fez para o ensino da Filosofia. No entanto, não posso deixar de testemunhar e agradecer quão estimulante são sempre as suas contribuições para quem ousa pensar o ensino da Filosofia.

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