Confusão a priori

O conceito de a priori tende a gerar algumas confusões. Vejamos se podemos esclarecer as coisas.

Em primeiro lugar, trata-se de um conceito que diz respeito ao modo como justificamos crenças; como não temos apenas crenças verdadeiras, uma vez que não somos omniscientes, segue-se que o a priori não é incompatível com a falsidade. Por exemplo, quando nos enganamos ao fazer uma conta de cabeça, formamos uma crença a priori mas falsa.

Contudo, se falarmos de conhecimento a priori em vez de falarmos de crenças, é evidente que todo o conhecimento a priori é conhecimento de verdades. Mas isto é só porque todo o conhecimento é factivo, seja ele a priori  ou a posteriori. Se alguém sabe realmente algo, segue-se que isso que essa pessoa sabe é verdadeiro,  e esse conhecimento tanto pode ser a priori como a posteriori.

Em segundo lugar, quando se afirma que a filosofia é uma disciplina a priori, como a matemática, isto não significa que em filosofia se despreza a informação empírica. O que significa, ao invés, é duas coisas. Primeiro, que a informação empírica não desempenha um papel central na filosofia. Segundo, e muito mais importante, que não compete a quem faz filosofia estabelecer informações empíricas: isso compete aos cientistas empíricos.

Para esclarecer este aspecto, consideremos o seguinte raciocínio:

A dor é moralmente relevante, seja quem for que a sente.
Ora, muitos animais não-humanos sentem dor.
Logo, devemos evitar provocar-lhes dor.

Este é um raciocínio filosófico porque o que há nele de central é a primeira premissa; a segunda premissa é mera informação empírica, que compete aos biólogos estabelecer. A segunda premissa  só é conhecível a posteriori; mas a primeira premissa só é conhecível a priori. Estabelecer a segunda premissa é um trabalho empírico; estabelecer a primeira premissa é um trabalho filosófico que irá envolver várias linhas de raciocínio que visam conectar a dor com o que é ou não permissível. A conclusão do raciocínio só é conhecível a posteriori, mas o raciocínio é filosófico porque a sua premissa central é filosófica; e esta premissa, a primeira, só é conhecível a priori.

Então por que razão a informação empírica não desempenha um papel central na filosofia? Porque o raciocínio completo, com a sua premissa a posteriori, é trivial, é banal. O que há de interessante e de não banal no raciocínio é a premissa filosófica em que assenta e que teremos de tentar justificar adequadamente. E não conseguiremos justificá-la adequadamente a posteriori. Além disso, imagine-se que se descobria empiricamente que afinal nenhum animal não-humano sente realmente dor. Mesmo assim, nós queríamos saber se a primeira premissa é verdadeira ou não, porque é em si interessante filosoficamente, ainda que não tenha relevância prática para esclarecer o nosso relacionamento ético com os animais não-humanos.

Este aspecto a priori da filosofia passa despercebido quando do pensamento dos filósofos só conhecemos descrições superficiais das suas conclusões, mas não o modo como eles raciocinaram para chegar a elas. Quando olhamos apenas para as conclusões dos filósofos, vemos, muitas vezes, que inclui informação empírica. E por isso parece falso afirmar que a filosofia é uma disciplina a priori. Mas isto é confundir as coisas só porque estamos a olhar apenas para o resultado do trabalho filosófico e não para o trabalho em si. Um pouco como alguém que fica surpreendido quando descobre que a pintura envolve muito trabalho braçal, físico, na preparação das telas e das tintas, pois essa pessoa está habituada a pensar apenas no resultado desse trabalho, que são os quadros já todos bonitinhos expostos numa galeria e com o pintor de gravata ao lado a sorrir.

O central do trabalho filosófico é raciocínio a priori sobre princípios filosóficos. Mas isso só se vê se olharmos para o processo de fazer filosofia, em vez de olharmos apenas para o resultado desse processo. Ora, isto é muito importante didacticamente, pois do mesmo modo que não se aprende a pintar quadros apreciando apenas quadros já pintados, também não aprendemos a fazer filosofia apreciando apenas as conclusões dos filósofos. Para aprender a filosofar é preciso assistir ao processo de fazer filosofia, e isso é fundamentalmente raciocínio intenso a priori.

Comentários

  1. Desidério,

    penso que a seguinte frase poderia ser esclarecida:

    "A conclusão do raciocínio só é conhecível a posteriori, mas o raciocínio é filosófico porque a sua premissa central é filosófica; e esta premissa, a primeira, só é conhecível a priori."

    isso porque a primeira premissa pode também ser conhecida a posteriori, quando a justificação para a crença nela tiver como base o testemunho, por exemplo.

    no mais, concordo com você. Todos deveriam estar a par destas coisas ao estudar filosofia.

    um abraço

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    1. Perfeito, Eduardo, muito obrigado pela correcção. Onde se lê "só é conhecível a priori" deve ler-se "só é primitivamente conhecível a priori" (pressupondo que o conhecimento por testemunho não é primitivo, neste caso, apesar de o ser noutros casos).

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  2. Qual a diferença entre a priori e dedutivo?

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    1. As proposições que constituem um raciocínio são conhecíveis a priori ou não; mas não são em si dedutivas ou não-dedutivas. Os raciocínios é que são em si dedutivos ou não. Assim, o raciocínio dedutivo "Alguns filósofos são gregos; logo, alguns gregos são filósofos" é dedutivo; mas tanto a premissa como a conclusão não é conhecível a priori.

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  3. Mas *sabemos* a priori que *se* a premissa for verdadeira, *então* a conclusão não pode deixar de ser verdadeira. Este facto torna o raciocínio dedutivo.

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  4. Perdão, este facto faz que o argumento seja dedutivamente válido. (Se fosse por isso que o argumento é dedutivo então os argumentos dedutivos inválidos não poderiam ser dedutivos.)

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    1. O que torna um raciocínio dedutivamente válido é 1) o facto de ser impossível que as premissas sejam V e a conclusão F; e 2) o facto de sabermos a priori que tal coisa é impossível.

      Penso que talvez uma compreensão algo frágil da diferença entre a validade e a verdade seja responsável por alguma confusão. Consideremos o seguinte argumento:

      Alguns filósofos são gregos.
      Logo, alguns gregos são filósofos.

      Eu sei a priori que o argumento é dedutivamente válido, isto é, que é impossível que tenha premissas V e conclusão F. Mas só a posteriori sei que a conclusão é V. E se só pudesse ter conhecimento desta conclusão por meio deste argumento, eu saberia a posteriori que a conclusão é V porque esse conhecimento resultava de dois outros conhecimentos: 1) do meu conhecimento a priori de que o argumento é dedutivamente válido, ou seja, que é impossível que tenha premissas V e conclusão F; e 2) do meu conhecimento a posteriori de que a premissa é V.

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    2. Já agora, talvez se compreenda agora melhor o erro de quem fica surpreendido quando se afirma que a filosofia é uma disciplina a priori. Esta pessoa pensa que se a filosofia fosse uma disciplina a priori, então nenhum conhecimento empírico seria relevante. Mas isto é não compreender as coisas. O que nos interessa em filosofia é sobretudo as relações conceptuais entre informações, algumas destas sendo empíricas. Assim, por exemplo, eu quero saber se é adequado concluir que não tenho livre-arbítrio partindo da informação empírica, científica, de que todo o universo é determinístico. O que me interessa em filosofia é saber se existe tal ligação conceptual, ou não.

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    3. Considera o seguinte argumento:

      Se 2+2=4 então os solteiros não são casados
      Os solteiros não são casados
      Logo, 2+2=4

      Este argumento é dedutivamente (ou formalmente) inválido, embora satisfaça o teu ponto (1): não é possível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa (aliás, a conclusão é necessariamente verdadeira).
      Também satisfaz o teu ponto (2) pois sabemos *a priori* que é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa.

      Mas neste caso (1) e (2) não podem ser condições suficientes, pois este argumento satisfá-las e não é formalmente válido.

      Uma nota a parte: O que me chamou a atenção anteriormente foi o facto de se não soubéssemos a priori quando a condicional "Se as premissas são verdadeiras a conclusão tem de ser verdadeira" é verdadeira acerca de um dado argumento, então nenhum argumento poderia ser dedutivamente válido. Ou seja, se só tivéssemos conhecimento a posteriori (ou se o único conhecimento a priori fosse conhecimento de banalidades) não poderíamos fazer inferências dedutivamente válidas. Logo, não poderíamos argumentar dedutivamente a favor da ideia de que só há conhecimento a posteriori.

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  5. Vitor,

    ao que me parece, o argumento que você apresentou é dedutivamente válido, embora seja formalmente inválido. É dedutivamente válido porque cumpre os dois requisitos postos pelo Desidério, mas é formalmente inválido porque sua forma lógica não garante a sua validade. O que acontece é que com as ferramentas da lógica clássica não conseguimos decidir pela sua validade, ainda que seja dedutiva. Este seria um caso de uma validade conceitual, ainda que não seja formal.

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    2. O que afirmei atrás era falso (apaguei para evitar confusões). Para um argumento com a forma Se P então Q; Q; Logo P ser válido (embora formalmente inválido) não é necessário (nem mesmo disjuntivamente) que a antecedente e a consequente na primeira premissa sejam necessariamente verdadeiras (embora isso seja suficiente para o argumento ser válido sem ser formalmente válido, e isso porque basta a antecedente ser necessariamente verdadeira para a conclusão ser necessariamente verdadeira).

      Para um argumento com a forma indicada ser válido (sem ser formalmente válido), basta que uma de duas condições se verifique: ou 1) a conclusão é uma verdade conceptual (o que no caso de argumentos com a forma indicada implica que também a antecedente da condicional é uma verdade conceptual) ou 2)a verdade da antecedente na primeira premissa implica a verdade da consequente e vice-versa.

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  6. Olá Eduardo,

    Sim, estava a pensar nisso. Os argumentos "válidos mas formalmente inválidos" não deixam de ser dedutivos. "Dedutivamente válido" consiste apenas em ser dedutivo e válido, o que fica aquém de formalmente válido.

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    1. O argumento que deste é dedutivamente válido, mas não é formalmente válido. Um argumento é formalmente válido sse a sua validade é detectável olhando exclusivamente para a sua forma lógica.

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    2. Olá Desidério,
      fiquei um pouco confuso com a distinção entre argumentos dedutiva e formalmente válidos :(
      Queres dizer que, por exemplo na falácia da afirmação do consequente, se as proposições simples forem ambas verdadeiras, o argumento é dedutivamente válido e formalmente inválido, mas se, na condicional, o antecedente for falso e o consequente verdadeiro, a única circunstância em que as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa, o argumento é dedutivamente e formalmente inválido?

      Se os ratos são mamíferos, então são seres vivos.
      Os ratos são seres vivos.
      Logo, são mamíferos.

      Dedutivamente válido e formalmente inválido?

      Se os ratos são peixes, então são seres vivos.
      Os ratos são seres vivos.
      Logo, são peixes.

      Dedutivamente e formalmente inválido?

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    3. Um argumento é dedutivamente válido se e só se:

      1) É impossível que tenha premissas verdadeiras e conclusão falsa, conjuntamente; e
      2) Sabemos a priori dessa impossibilidade.

      Isto significa que nem todos os argumentos dedutivamente válidos são formalmente válidos; para ser formalmente válido é preciso uma terceira condição:

      3) O argumento tem uma forma lógica válida.

      Qualquer argumento que tenha a forma lógica do modus ponens é válido, e é formalmente válido:

      Se p, então q.
      p.
      Logo, q.

      Mas quando um argumento tem uma forma lógica inválida, isso não significa que o próprio argumento seja inválido; significa apenas que é formalmente inválido, isto é, significa que há outros argumentos com a mesma forma, mas que são inválidos. Por exemplo:

      Se p, então q.
      q.
      Logo, p.

      Esta forma é inválida. Mas que quer isso dizer? Não quer dizer que todos os argumentos com esta forma são inválidos, mas apenas que nem todos os argumentos com esta forma são válidos. Isto contrasta com uma forma válida: quando a temos, isso significa que todos os argumentos com essa forma são válidos. Eis então um argumento com a forma lógica anterior, mas válido:

      Se 2 + 2 = 4, então o Sol é feito de hélio.
      O Sol é feito de hélio.
      Logo, 2 + 2 = 4.

      O argumento é válido porque é impossível que tenha premissas verdadeiras e conclusão falsa, conjuntamente. Mas não há formalmente válido porque há outros argumentos exactamente com a mesma forma mas que são inválidos, como o seguinte:

      Se Eça viveu em Paris, viveu em França.
      Eça viveu em França.
      Logo, viveu em Paris.

      Este argumento é inválido porque, apesar de ter premissas verdadeiras e conclusão também verdadeira, poderia ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.

      Assim, temos de distinguir a validade dedutiva da validade dedutiva formal; esta última é apenas uma parte própria da primeira. Todos os argumentos formalmente válidos são dedutivamente válidos, mas nem todos os argumentos dedutivamente válidos são formalmente válidos.

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    4. Sendo assim, no penúltimo parágrafo, em vez de "Este argumento é inválido", poderíamos dizer "Este argumento é dedutivamente válido mas formalmente inválido"?
      E quando dizemos apenas que um argumento é válido ou inválido, estamos implicitamente a dizer que é formalmente válido ou inválido?
      E, por fim, os exemplos que dei no final da minha mensagem anterior são adequados?

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    5. O argumento do Eça é formalmente inválido e não é informalmente válido; é inválido porque apesar de ter premissas verdadeiras e conclusão também verdadeira, poderia ter premissas verdadeiras e conclusão falsa. O argumento não só é formalmente inválido, como é inválido também informalmente.

      Geralmente, quando se diz que um argumento dedutivo é inválido, as pessoas querem dizer que é formalmente inválido. Mas os exemplos que usam são geralmente de argumentos que além de formalmente inválidos são inválidos informalmente. Os argumentos dedutivos formalmente inválidos mas válidos não são comuns. E são todos transformáveis em argumentos formalmente válidos (mas isto é apenas porque qualquer argumento inválido é transformável num argumento formalmente válido).

      Quanto aos seus exemplo: o primeiro é formalmente inválido, e não é informalmente válido. E o segundo também. A única diferença relevante entre o seu primeiro exemplo e o segundo é que a antecedente da primeira premissa é verdadeira num caso e falsa no outro. Mas a verdade e falsidade das premissas dos argumentos é uma coisa diferente da validade ou invalidade dos argumentos. Confundir uma coisa com a outra é confundir a validade com a verdade.

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    6. Olá Desidério,
      depois de muitas horas de estudo, creio que começo a compreender o problema.
      Então

      Se 2 + 2 = 4, então o Sol é feito de hélio.
      O Sol é feito de hélio.
      Logo, 2 + 2 = 4.

      é válido porque "2 + 2 = 4" e "O Sol é feito de hélio" são verdades necessárias (embora a primeira a priori e a segunda a posteriori) e por isso a conclusão nunca pode ser falsa?
      E se for assim, só é possível provar a validade do argumento (a ser possível fazê-lo) no âmbito da lógica modal?

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    7. Não; o argumento é válido porque a conclusão é uma verdade necessária. Qualquer argumento cuja conclusão seja uma verdade necessária, é válido, sejam quais forem as premissas. A lógica modal não prova a validade deste argumento porque não é uma validade formal. Para ser uma validade formal tem de ter uma forma lógica válida; ora, a validade deste argumento não decorre da sua forma lógica, que é inválida, mas tão-somente do facto de a sua conclusão ser uma verdade necessária.

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    8. Ok Desidério, obrigado pelos esclarecimentos.

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  8. Voltando à distinção entre a priori e dedutivo, considere-se o seguinte argumento:

    Se X é maior do que Y então Y é menor do que X
    Y é menor do que X
    Logo, X é maior do que Y

    Para saber que é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa temos de saber que a verdade de “X é maior do que Y” implica a verdade de “Y é menor do que X” e vice-versa. Sabemos isto a priori. Só sabemos a posteriori que X é maior do que Y. Mas não temos de saber que X é maior do que Y para saber que a verdade da antecedente implica a verdade da consequente e vice-versa. O argumento é dedutivo. A primeira premissa é conhecível a priori e a segunda premissa e a conclusão só são conhecíveis a posteriori. Sabemos a priori que o argumento é válido. Sabemos a priori que o argumento é formalmente inválido (porque sabemos a priori que para algumas condicionais, permutar a antecedente pela consequente altera o valor de verdade; porque sabemos a priori que uma condição suficiente nem sempre é uma condição necessária e vice-versa).

    Ah, e sabemos a priori que uma pessoa com 1,80 m é mais alta do que uma pessoa com 1,50 m. Mas só sabemos a posteriori se alguém pertence à classe dos que têm 1,80 m ou a qualquer outra classe baseada na altura.

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  10. «A dor é moralmente relevante, seja quem for que a sente.» É uma proposição cujo valor de verdade pode ser estabelecido a posteriori? Foi isso que Eduardo B. corrigiu e o Desidério M. concordou? Acho que não percebi bem.


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    1. Não, essa proposição é insusceptível de ser estabelecida a posteriori. É uma proposição filosófica, o tipo de tese que só a argumentação filosófica pode estabelecer. Apesar disso, no desenvolvimento do raciocínio filosófico que vise justificar tal tese, o filósofo pode evidentemente recorrer a dados empíricos que considere relevantes. Mas o fundamental do seu trabalho será conceptual: estabelecer relações conceptuais entre tais dados empíricos e a tese filosófica que ele visa defender.

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    2. Obrigada. É que tinha ficado com a sensação que lhe tinha respondido o contrário.

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    3. Trata-se de uma subtileza: quase qualquer proposição conhecível a priori é conhecível também a posteriori, como explico no meu livro Essencialismo Naturalizado. O que se passa é que há proposições que não são primitivamente conhecíveis a posteriori. O conhecimento primitivo é o conhecimento que tem de estar na origem da cadeia causal do conhecimento ou aquela maneira que envolve o tipo de justificação mais adequada para o conhecimento em causa. Assim, por exemplo, apesar de eu poder perguntar a alguém o que é o teorema de Pitágoras, ou apesar de eu poder ler isso num livro, este conhecimento a posteriori do teorema não é primitivo porque na origem do conhecimento do teorema alguém teve de o conhecer a priori e a maneira mais adequada de justificar a crença no teorema é a priori.

      O "quase" atrás é porque parece haver proposições que só podem ser conhecidas a priori, como a expressa pela frase "eu existo", se ao indexical "eu" não for dado um peso excessivo que ligue o meu eu de agora ao meu eu do passado -- mas é argumentável que sem essa ligação o indexical "eu" é vazio.

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  11. Com o "quase", eu já ficava tranquila. A afirmação do Eduardo B. ia além do exemplo e a correção que fazia visava cobrir ambos os casos (das que só podem ser conhecidas a priori e das que podem igualmente sê-lo a posteriori) certo?
    Posso abusar e perguntar se a verdade, da mesma primeira premissa, seria passível de ser estabelecida de forma derivada a priori ou se seria sempre necessário o recurso a qq conhecimento a posteriori? É que o seu último parágrafo quase me provocou uma crise solipsista ... :)
    Mais uma vez, obrigada.

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    1. :-)

      Retomemos então:

      A dor é moralmente relevante, seja quem for que a sente.
      Ora, muitos animais não-humanos sentem dor.
      Logo, devemos evitar provocar-lhes dor.

      O que eu afirmei correctamente foi que a conclusão é conhecida a posteriori quando a conhecemos por meio deste raciocínio; é conhecida a posteriori porque uma das premissas, a segunda, é a posteriori. Contudo, é a primeira premissa que é a tese filosófica fundamental para este raciocínio. E o que eu afirmei erradamente foi que essa primeira premissa só pode ser conhecida a priori. Isto é falso, como o Eduardo viu. O que é verdadeiro é que a primeira premissa só pode ser primitivamente conhecida a priori. Isto porque quase qualquer proposição conhecível a priori é também conhecível a posteriori (basta pensar no testemunho, se aceitarmos que o conhecimento por testemunho é a posteriori, o que me parece muitíssimo razoável).

      Está tudo claro, agora?

      Portanto, voltando ao que importa no artigo: os filósofos usam informação empírica nos seus raciocínios e isso torna as suas conclusões a posteriori; contudo, a informação empírica usada nos seus raciocínios não é a parte crucial dos mesmos. A parte crucial dos mesmos são as teses filosóficas e estas são a priori. (Aqui entra a subtileza para a qual o Eduardo chamou a atenção: tudo o que é a priori é não-primitivamente também a posteriori. Mas se definirmos “proposição a priori” como uma proposição que só é primitivamente conhecível a priori por seres humanos, é correcto falar como eu fiz.)

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  12. Não completamente, mas eu não vou confessar já... ;-)

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