A priori outra vez

Os comentários de Eduardo e Luísa à minha última nota fizeram-me pensar que talvez seja uma boa ideia esclarecer melhor os conceitos de a priori e a posteriori.

A primeira coisa a notar é que o conhecimento, seja a priori ou a posteriori, é sempre uma relação entre um sujeito cognitivo e o que é conhecido. O que é conhecido tanto pode ser 1) uma prática, como andar de bicicleta, caso em que se trata de saber-fazer, 2) coisas, como a Ponte da Arrábida ou 3) verdades, como que a Ponte da Arrábida fica no Porto.

Uma vez que é o conhecimento que é a priori ou a posteriori, rigorosamente falando as proposições não são a priori nem a posteriori. O que acontece é que podemos falar algo informalmente e dizer que uma dada proposição é a priori, quando o que queremos dizer é que qualquer agente cognitivo mais ou menos como nós consegue saber tal proposição a priori. Assim, este é o primeiro aspecto a notar: rigorosamente falando, as proposições não são a priori nem a posteriori, pois é a relação de conhecimento entre um sujeito cognitivo e essa proposição que é a priori ou a posteriori.

O segundo aspecto a notar é que o que torna um dado caso de conhecimento a priori ou a posteriori não é a origem do que se conhece, mas antes a justificação envolvida. O conhecimento tem como condição necessária a justificação — quando alguém acerta por sorte na verdade, não dizemos que sabia realmente do que estava a falar — e é esta que difere nos casos do conhecimento a priori e a posteriori. O que nos conduz ao terceiro aspecto a ter em mente:

Quando os filósofos no passado falavam de conhecimento a priori não se davam geralmente conta de que praticamente tudo o que conhecemos a priori podemos conhecer também a posteriori. Por exemplo, eu posso saber a priori o resultado de multiplicar 345 por 9887, calculando o resultado. Mas também posso sabê-lo a posteriori, seja perguntando a alguém que já tenha feito o cálculo seja usando um computador. Os filósofos tradicionais não se davam conta deste aspecto porque tinham em mente o que podemos chamar “conhecimento primitivo”, que é o género de conhecimento que resulta do uso do que podemos chamar “justificação última”. A justificação última é o que não tenho quando pergunto a alguém qual é o resultado de uma dada operação de multiplicação; quem tem essa justificação última é quem fizer realmente o cálculo. Porque os filósofos tinham aparentemente em vista apenas a justificação última, falavam como se tudo o que conhecemos a priori não pudesse ser conhecido a posteriori, o que é falso. Mas podemos aceitar algo como isto, que nos aproxime dos filósofos tradicionais: tudo o que é conhecível a priori só quando é conhecido desta maneira é conhecido da maneira mais robusta, digamos, ou mais bem justificada.

Muito bem, tendo em vista estes esclarecimentos, como devemos apresentar o conhecimento a priori e a posteriori aos alunos? De uma maneira muito simples, pois quem tem os dogmas que provocam confusão somos nós e não eles! Aos alunos é fácil dizer que uma pessoa conhece algo a priori quando ela conhece isso pelo pensamento apenas, e ela conhece algo a posteriori quando o conhece pela experiência. E agora vem a subtileza: praticamente tudo o que uma pessoa pode conhecer a priori ela poderia ter conhecido a posteriori, porque poderia ter lido num livro, perguntado a um professor, etc. Isto significa que o que conta para nós é se uma dada verdade é susceptível de ser conhecida a priori e não se efectivamente o foi: uma dada verdade pode ter sido conhecida a posteriori, mas isso não a torna uma verdade a posteriori; se acaso essa mesma verdade poderia ter sido conhecida a priori, então isso é que é relevante para efeitos de epistemologia.

Resumindo: apesar de haver algumas subtilezas no que respeita ao conceito de a priori e a posteriori, não é muito difícil dar a estes conceitos um tratamento a um tempo rigoroso e acessível aos estudantes.

Comentários

  1. Acho que a subtileza de que falava é capaz de ser, justamente, uma excelente ilustração da dificuldade em que me encontrava. Pois, partindo do princípio de que o conhecimento (não as proposições, ok) que aqui tentamos estabelecer é exatamente do tipo a priori, conhecível pelo pensamento apenas, por muito que eu perguntasse ao DM, e ele pacientemente respondesse, para mim este não constituiria conhecimento, enquanto o meu pensamento não reconhecesse a explicação. E enquanto essa justificação última, 'mais robusta', como lhe chamou, não fosse encontrada, reconhecida por mim, pelo meu pensamento, não haveria conhecimento, de todo... por muito que perguntasse ao professor, lesse num livro ou apenas apresentasse um resultado de máquina de cálcular. E se, 'finalmente', eu discorresse o processo de justificação isso permitir-me-ia continuar a considerar este processo a priori (embora com bengala).
    Pelo que, se uma dada verdade fosse suscetível de ser conhecida a priori, nunca seria, efetivamente, conhecida a posteriori.
    Ora, era este o meu erro?! Dado que, com este processo que fiz (perguntar, perguntar, perguntar... ...) acabo de conhecer esta verdade a posteriori apesar de ela ser conhecível a priori (por um sujeito cognitivo mais ou menos como eu). É isso? :-)

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    1. Olá, Luísa! Sim, penso que agora a dificuldade que encontrámos ficou mais clara. O que a Luísa está a pressupor é algo bastante natural, mas implausível se pensarmos um pouco. Pois se exigirmos que para conhecer verdadeiramente algo cada sujeito cognitivo tem de ter na sua posse o género mais robusto de justificação, isso significaria que quase nenhum de nós conheceria praticamente coisa alguma. Por exemplo, nenhum cientista saberia realmente que a água é H2O a menos que fosse ele mesmo fazer todos os testes necessários; nenhum médico saberia realmente qual é o tratamento adequado da pneumonia, a menos que fizesse ele mesmo todas as experiências científicas necessárias; e nenhum matemático saberia realmente que o teorema de Gödel é verdadeiro a menos que fizesse por si todos os cálculos que a ele conduzem.

      Uma vez que estas consequências não são muito aceitáveis, os filósofos consideram hoje em dia que não se exige padrões de justificação assim tão elevados para considerar que um sujeito cognitivo sabe algo.

      Espero ter ajudado... ou baralhei? :)

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    2. Ajudou, claro. Mas não me parecia que esses padrões de justificação fossem assim tão exigentes, tanto na química, como na medicina e ainda menos na matemática. Assim, na filosofia também seria exigível o mesmo tipo de justificação (ainda que não desvalorize, obviamente, o testemunho/argumentos dos especialistas).
      O facto de me parecer que era pouco o que conhecia, efetivamente e com bases minimamente sólidas, bom... essa sensação é-me mesmo familiar. ;-)

      Pouco comum, também, é essa disponibilidade que tem sempre para explicar o que sabe, mesmo sem conhecer os interlocutores e 'sem ter nada a ganhar com isso'.
      Mais uma vez, obrigada.

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    3. Vale a pena acrescentar o seguinte, Luísa. Imagine que decide ir pela rota da exigência epistémica, declarando que só a justificação mais robusta produz conhecimento. O impressionante é que não faz qualquer diferença, pelo menos à primeira vista. Porquê? Porque todos os problemas filosóficos que tínhamos antes com a concepção menos exigente de conhecimento passamos agora a ter relativamente a um novo conceito que teremos de introduzir para esse quasi-conhecimento que temos quando sabemos por testemunho, por exemplo, a composição da atmosfera de Marte.

      Obrigado pelas suas palavras, estou aqui para esclarecer e ajudar!

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    4. Aí, sempre me pareceu que era mais justificável aceitar o conhecimento por testemunho da composição da atmosfera de Marte (por razões óbvias) do que dos conhecimentos matemáticos ou filosóficos. Se são conhecíveis a priori, dispensam a viagem a Marte e o laboratório bem apetrechado... era pensar outra vez e lá se chegaria mais cedo para uns... mais tarde para outros. eh eh

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    5. Sim, faz sentido à primeira vista ser menos exigente no que respeita ao conhecimento a posteriori. Mas pensando melhor não faz assim muito sentido, porque tendemos a comparar conhecimento a priori banal, como 2 + 2 = 4, com conhecimento a posteriori substancial. Mas se compararmos o comparável, temos de comparar o conhecimento a posteriori não-imediatista (onde aceitamos o testemunho) com o conhecimento a priori também não-imediatista. E agora já não é assim tão óbvio que devamos exigir a máxima justificação no conhecimento a priori só por ser a priori. Se você pegar num matemático qualquer, ou num lógico, e lhe tirar o acesso a toda a informação dos livros, ele só será capaz de demonstrar uma ínfima parte dos resultados que ele mesmo sabe que existem. A esmagadora maioria dos resultados ele só os conhece por testemunho.

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  2. Tem razão, não há dúvida.
    Mas agora é como se me tivesse fechado numa espécie de 'quarto chinês'; eu manipulo conhecimentos que, na sua maioria, não sou capaz de justificar e depois diz-me: Deixa lá porque tu, os livros e os investigadores, no seu conjunto, conhecem.
    Ainda que os outros estejam, pelos vistos, mais ou menos, na mesma situação, há de convir que isto não é lá muito lisonjeiro para quem alimentou tantos anos ambições epistémicas simplistas e ingénuas! 8(
    Obg.

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    1. :-) Na verdade, eu penso que o conhecimento é ainda mais social do que parece à primeira vista. Parece-me que o modelo algo solipsista do agente cognitivo sozinho, como Descartes e Russell, perguntando-se o que pode ele saber, começa logo mal porque a justificação epistémica é, em si mesma, fortemente dependente do controlo de terceiros. Mas se quiser saber, terá de a minha introdução do livro A Ética da Crença! E espero que, ao lê-lo, se sinta menos... sozinha! :-)

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  3. Esse não tenho. Já li agora, em pdf, o ensaio do Clifford.
    A introdução é o seu texto 'Fé, epistemologia e virtude', que se pode ler na Crítica?
    Era bom. Este mês já mandei vir o 'Enigmas da existência', e o 'ajustamento exigido pela troika' não deixa comprar muitos livros ... ;)

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    1. Ah! É esse mesmo. Imagine que não sabia que estava na Crítica e fui eu mesmo que lá o coloquei! :-) Nesse texto há uma parte em que eu falo dos ajustes e do carácter social da justificação.

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