Uma homenagem


Há excelentes professores que, de forma discreta e tranquila, têm contribuído, com o seu empenho e o seu exemplo de profissionalismo, para a dignificação do ensino da Filosofia. Deixamos aqui um belo texto de homenagem a um colega assim, que acaba de se reformar. O texto foi enviado por outro colega que faz questão de registar aqui o seu reconhecimento. Temos todo o gosto em publicar o texto aqui. Aliás, tendo alguns dos autores de 50LF a felicidade de conhecer o homenageado, fazemos até questão de o publicar. 
Ao João Félix  
Que ingredientes são precisos para fazer um professor? Esta não será uma das perguntas de um milhão de dólares, mas será, certamente, uma das perguntas que jamais devemos deixar de ter presentes. Dirão uns que o que faz o verdadeiro professor será a sua exímia erudição e completo saber; dirão outros que o mais importante é o uso de cuidada pedagogia; outros dirão ainda que será a disponibilidade interior para com os seus alunos. Todos estarão, seguramente, certos, mas apenas parcialmente.  
Khalil Gibran escreveu: «O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo, mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.» O mesmo é dizer: um homem não pode emprestar a sua consciência a outro homem. A verdade é que todos nós estamos sós no momento de aprender o que importa verdadeiramente aprender. É claro que definir isso que verdadeiramente importa aprender levar-nos-ia a uma longa discussão. Por isso, deixemos tal tarefa para outro momento. 

Apesar da extraordinária invenção que é a linguagem, só é possível partilhar o que verdadeiramente importa aprender quando os outros já comungam connosco aquilo que queremos partilhar, o que à partida parece paradoxal. Assim sendo, será, então, pertinente perguntar se a arte de ensinar e educar não será a arte do paradoxo e da inutilidade. Como responder a esta pergunta? Lembremo-nos do legado dos clássicos: o homem, criatura de precária condição, com uma boa educação pode ser como um deus, mas desprovido desta, será pior do que uma besta. 

A arte de vencer tal paradoxo é a arte do exemplo. Este é o crédito dos mestres. Esta é a característica dos professores que ficam. É nesta arte que o João sempre se destacou: erudito sem ser vaidoso; eloquente sem ser retórico; generoso mas recatado; discreto para com quem gosta e complacente para com os outros; conciliador sem ser acrítico; pacífico sem ser fraco e arguto sem ser egoísta. 

Sabemos que há muito tempo um tal de Diógenes de Sínope, o Cínico, deambulava pela ágora em plena luz do dia, com uma candeia na mão, à procura de um homem que fosse digno de tal denominação. Se o espírito de Diógenes ainda não terminou a sua tarefa, nós lhe dizemos: - Procura por aqui Diógenes e, certamente, poderás descansar em paz. 

Os nossos agradecimentos ao Professor de Filosofia, João Félix. 

Alexandre Guerra 
(Prof. de Filosofia da E. S. Poeta António Aleixo)

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