Qualidades primárias e secundárias

A natureza é creditada por algo que nos devia ser reservado a nós: a rosa pelo seu cheiro; o rouxinol pelo seu canto; o sol pelo seu brilho. Os poetas estão completamente enganados. Deviam dedicar os seus versos a eles próprios e convertê-los em odes de auto-congratulação pela excelência da mente humana. A natureza é uma coisa enfadonha, sem som, sem cheiro, sem cor. 
Alfred North Whitehead

Comentários

  1. Deveríamos então concluir que nenhuma substância pode ser "realmente" tóxica, dado que a toxicidade envolve pelo menos dois termos: as propriedades objectivas da substância e as propriedades objectivas dos organismos que com ela entram em contacto. Nada é tóxico na natureza, trata-se apenas de os organismos projectarem propriedades nas coisas que realmente não estão lá. Ou isso ou a objectividade inclui mais do que propriedades monádicas. Tal como a natureza nos inclui a nós, e as nossas experiências sensoriais.

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  2. Vítor, embora nem de perto nem de longe subscreva o que Whitehead diz, parece uma forma eloquente de traçar a putativa distinção entre qualidades primárias e secundárias. Ainda assim, penso que o teu raciocínio não chega a pôr em causa a distinção, uma vez que acabas por reafirmar o que Whitehead já tinha exemplificado. Concluir que nenhuma substância pode ser "realmente" tóxica é precisamente o que ele quer que o seu leitor conclua, pelo que não pode ser uma objecção. Mas mesmo que o fosse, tudo dependeria do que se quer dizer com "realmente". Whitehead pode tranquilamente dizer que tal propriedade ser dependente da reação de sujeitos não é o mesmo que negar a sua realidade. E poderia ainda acrescentar algo do género: os cogumelos que intoxicam o teu organismo caso os comas podem não intoxicar o organismo de outros animais, por exemplo. Logo, a toxicidade depende realmente do modo como os organismos que entram em contacto com certas substâncias reagem.

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  4. Talvez o problema seja mais bem enquadrado em termos de normatividade do que em termos de realidade: supõe que há uns seres semelhantes a nós mas que vêem como verdes as coisas que vemos como vermelhas e vice-versa. Que bases teríamos para dizer que os juízos de cor deles estão errados; ou que base teriam eles para dizer o mesmo dos nossos juízos? Ou será que todas as coisas verdes seriam simultaneamente vermelhas?

    Quando dizemos que "X é verde" fazemos uma afirmação com pretensões normativas. Isto exclui que se possa correctamente ajuizar "X é vermelho". O que X tem é a propriedade disposicional de gerar experiências qualitativamente diferentes em nós e nos tais seres com espectro invertido (já agora, para eles seríamos nós a ter espectro "invertido"). Tal propriedade não dá peso normativo a qualquer um dos juízos, dado que para o fazer teria de excluir um deles.

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  5. Saiu disparate ali atrás. Disse que "é azul" é uma propriedade monádica, quando queria dizer que é um predicado monádico (predicados referem propriedades). (apaguei o comentário para não gerar confusões)
    O predicado "é azul" é monádico, embora seja plausível que a propriedade referida é relacional. (O que me faz pensar se não há um elemento relacional em todas as propriedades referidas com predicados monádicos; p. ex. quando dizemos que a água é H2O estaríamos na verdade a referir uma propriedade relacional, embora diferente do caso das cores, pois a psicologia humana não entra na relação.)

    E claro que se as propriedades sec. não existem na natureza (independentemente de nós) faz sentido (o que não quer dizer que seja verdade) dizer que as projectamos nas coisas. Se o anti-realismo está correcto, então ver propriedades secundárias nas coisas seria, nesse caso, como ver formas animais e outras nas nuvens. Podemos entender as propriedades secundárias assim (como Scruton entende as "propriedades" estéticas). Mas ser anti-realista não é o único modo de aceitar a distinção entre qualidades primárias e qualidades secundárias.

    Podemos aceitar a distinção sem sermos anti-realistas. Claro que outro modo de tentar resolver o problema é negar a distinção e afirmar que as propriedades ditas "secundárias" são na realidade primárias (há quem tenha defendido isso). Mas eu aceito a distinção. O que me fazia confusão era a ideia de colocar as propriedades numa escala, atribuindo-lhes "graus de realidade" (daqui a pouco as propriedades primárias existem ao passo que as secundárias "subsistem").

    A ideia da toxicidade era uma tentativa de redução ao absurdo, se quiseres. Se os cogumelos não são "realmente" tóxicos então não se compreende como me podem envenenar. Ou para ser realmente tóxico teria de ser tóxico para *todos* os organismos, efectivamente existentes e meramente possíveis? O caso dos cogumelos é relevantemente diferente das cores, pois não envolve a nossa psicologia. Do facto de os cogumelos serem tóxicos para uns organismos mas não para outros não se segue que não são de todo tóxicos pois *ser tóxico* é sempre relativo a organismos, tal como ser grave ou agudo é uma propriedade relacional dos sons. A natureza não tem só coisas, tem também relações entre coisas. Do facto de "estar a norte de X" referir uma relação não se segue que na realidade nada está a norte de coisa alguma.

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