Kuhn e a incomensurabilidade dos paradigmas

Kuhn escreve o seguinte no seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas:

«Levados por um paradigma novo, os cientistas adoptam novos instrumentos e olham para novos lugares. Ainda mais importante, durante as revoluções, os cientistas vêem coisas novas e diferentes, mesmo olhando com os instrumentos do costume para os lugares para onde antes já olhavam. É um pouco como se a comunidade profissional tivesse sido transportada para outro planeta onde os objectos familiares são vistos sob uma luz diferente e aos quais se juntam também outros novos. [...]
O que no mundo do cientista era um pato antes da revolução passou a ser um coelho depois dela.»

(Guerra e Paz Editores, pp. 157-8)



Se for verdade que, como defende Kuhn e a passagem anterior reforça, os paradigmas são incomensuráveis, então é incorrecto afirmar que...

a)... o novo paradigma resolve as anomalias do paradigma anterior;
b)... o novo paradigma é mais abrangente do que o anterior;
c)... o novo paradigma é melhor do que o anterior;
d)... há paradigmas que explicam melhor do que outros aquilo que é observado.

Porquê? Porque em qualquer destes casos se estaria a comparar a capacidade de os paradigmas responderem aos mesmos problemas. Ora, esse tipo de comparação é incompatível com a ideia de incomensurabilidade.


Comentários

  1. Talvez um reflexo mais básico deste género de confusão aqui apontada seja a tendência que as pessoas têm para dizer, acerca de algo que valorizam muito, que "não tem comparação" com outras coisas. Mas o que está implicado naquela expressão é que aquilo acerca do qual se fala é muito melhor, numa qualquer escala de valoress, do que outra coisa.

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  2. A ideia de «testabilidade empírica» como critério de demarcação (meramente epistemológica e nunca semântica - como a do verificacionismo)entre a ciência e a não-ciência fez com que Popper fosse "acusado" de ser neo-positivista (e é claro que não o é); do mesmo modo, a ideia de «incomensurabilidade de paradigmas» fez com que Kuhn fosse "acusado" de ser relativista (e, embora seja, por vezes, um pouco ambíguo, considero que não o é). Vejamos o seguinte texto:

    «Imagine-se uma árvore que represente o desenvolvimento das especialidades científicas modernas desde as suas origens comuns, ou seja, da filosofia natural primitiva e dos ofícios. Uma linha subindo por essa árvore acima, nunca se voltando para trás, do tronco para a ponta de um dos ramos, representaria uma sucessão de teorias de ascendência comum. Considerando-se qualquer destas teorias, tiradas de um ponto da árvore não demasiado próximo da sua origem, deveria ser fácil constituir uma lista de critérios que permitiriam a um observador imparcial distinguir, fosse em que momento fosse, as teorias mais antigas das mais recentes. Entre os mais úteis estariam os seguintes: rigor nas predições, em especial das predições quantitativas; o equilíbrio entre assuntos esotéricos e do dia-a-dia; e o número de diferentes problemas resolvidos. Menos úteis a este propósito, embora elementos também determinantes na vida científica, serão os valores como a simplicidade, o alcance das teorias e a compatibilidade com diferentes especialidades. Estas listas estão longe de ser as que precisamos, mas não duvido de que podem vir a ser completadas. Se assim for, o desenvolvimento científico é, como o desenvolvimento biológico, um processo unidireccional e irreversível. Teorias científicas posteriores são melhores que as anteriores na resolução de enigmas dentro do contexto normalmente bastante diferente em que se aplicam. Esta não é uma posição relativista e torna evidente em que sentido eu sou um crente convicto no progresso científico».

    Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, tr. Carlos Marques, Guerra e Paz Editores, p. 274.

    Digamos que há uma "orgânica interna" na evolução da ciência cujo processo implica uma evolução em progresso. Os cientistas não podem comparar paradigmas pois fazer ciência é assumir a mundividência de um paradigma particular e correspondente impregnação teórica (é isto que quer dizer a «incomensurabilidade» entre paradigmas, creio). Todavia, o filósofo da ciência, numa perspetiva de análise diferenciada, pode compreender a "racionalidade" inerente ao advento de um novo paradigma (este surge por ser melhor do que o anterior). Penso que o autor, neste passo é claro e desambigua a questão. A visão de Kuhn sobre a ciência não é, creio, a de um caleidoscópio cujas mudanças são aleatórias. O problema deste autor é que, repito, nem sempre foi claro no seu não-relativismo. E talvez por isso seja apreciado por tão diversas orientações filosóficas...

    Pedro Cardim Ribeiro

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    1. No livro de Susan Haack Defending Science — Within Reason, a autora discute as ideias de Popper e Kuhn, entre outros filósofos, e faz uma observação que nunca devemos esquecer. Um filósofo apresenta uma dada teoria, que tem certas características. A teoria visa responder a certas dificuldades. Fá-lo de um dado modo, que o filósofo considera razoável. Só que invariavelmente essa teoria acaba por ter consequências indesejadas. Então, o filósofo recua e nega o que a sua própria teoria implica.

      É exactamente o que acontece no caso de Kuhn. A teoria dele é relativista. Mas ele não quer, evidentemente, ser relativista. Só que é incapaz de explicar como consegue a teoria dele evitar tal coisa, a partir do momento em que os paradigmas científicos são incomensuráveis. De modo que o texto acima, de Kuhn, é precisamente um daqueles momentos em que o filósofo, como diz Susan Haack com muita graça, depois de nos fazer acreditar que ele acredita em algo, "he takes it back".

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    2. Talvez erradamente, acredito que é possível conciliar a incomensurabilidade dos paradigmas com o progresso científico. Seria qualquer coisa do género: Os paradigmas são incomensuráveis do ponto de vista do praticante da ciência (quase sempre normal); têm de ser compatíveis com a realidade mas não usam as mesmas noções (na posição do Prof. JP Monteiro, trata-se de um perspetivismo moderado); o sujeito da ciência é aqui fundamental pois «ser incomensurável» pressupõe um sujeito que não pode comparar de modo totalmente objetivo duas teorias (pois esse exercício implica o uso de noções adstritas a uma delas - impedindo uma "visão pura"). Mas do facto de não ser possível ter total consciência do progresso científico mesmo nos momentos em que surgem ruturas e novos paradigmas (por serem incomensuráveis) não se segue que não haja progresso. Este progresso só não é avaliável cientificamente; é, antes, expressável enquanto crença filosófica que, embora não seja "dedutível" do sistema kuhniano, parece-me compatível com ele. A tese do verificacionismo não é verificável tal como a do falsificacionismo não é falsificável. Mas nunca vi isso como falhas teóricas. São pontos de partida que devem ser avaliados filosoficamente pela sua razoabilidade. De um modo diferente, nesta leitura, considera-se que existe (como possibilidade) um progresso científico cujas teorias inovadoras, por serem incomparáveis com as anteriores, surgem por rutura, "transformando" as «anomalias» em «enigmas». Até pode não dar para comparar teorias diretamente mas dá para perceber se o problema é resolúvel ou não. Se é, então é irracional não admitir o novo paradigma, tal como é irracional voltar para a pré-ciência. Teríamos aqui uma espécie de continuidade minimalista num modelo essencialmente descontinuísta. Por exemplo, não dá para comparar o modelo heliocêntrico com o geocêntrico diretamente pois isso implicaria aceitar algum ponto de vista teórico. Contudo, parece razoável admitir que houve ganhos ao nível da explicação e da previsão dos fenómenos que ambos desejam analisar. os fenómenos são os mesmos e por aí dá para ver que o novo paradigma é melhor do que o anterior pois explica-os melhor (simplesmente explica-os com noções não-mensuráveis/compreensíveis por outros pontos de vista teóricos). Teríamos: paradigmas não-mensuráveis entre si e realidade fenomenológica (sem conotações husserlianas) - explicável por eles - cujos problemas a explicar e correspondente explicação são os critérios. Parece que há aqui uma lógica interna da evolução científica nem sempre (ou quase nunca) percetível.

      Acha impossível esta leitura? Obrigado.

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    3. Caro Pedro

      Acho a sua proposta muito interessante e criativa. Contudo, enfrenta algumas dificuldades que me parecem significativas. Começando pelo mais simples: o caso do verificacionismo. A saída que propõe para a acusação de que a tese verificacionista é incoerente porque não é verificável é defender esta: a tese verificacionista é uma mera crença filosófica, digamos assim. A dificuldade é que esta crença filosófica determina que o que não é verificável não é verdadeiro, pelo que a própria crença não é verdadeira. Esta é a primeira dificuldade. A segunda é que a saída que propõe parece arbitrária: sempre que temos uma dificuldade elementar numa teoria (a sua incoerência), declaramos que a nossa teoria está fora do âmbito do que a própria teoria prescreve. Talvez estas duas dificuldades não fossem decisivas se não tivéssemos alternativas teóricas; mas temos: podemos rejeitar, sem incoerência, o verificacionismo.

      Quanto a Kuhn, a sua proposta é enfraquecer a tese da incomensurabilidade para se tornar uma tese epistêmica. Deste modo, apesar de na realidade a teoria 2 ser melhor do que a 1, os cientistas da 1 e da 2 não conseguem compará-las e ver qual é melhor. Entendida deste modo, a teoria enfrenta duas dificuldades. Primeiro, é banal e desinteressante, pois quer dizer apenas que os cientistas estão por vezes numa situação tal que não conseguem comparar teorias. Segundo, é falsa, apesar de banal e desinteressante, pois se alguém é capaz de comparar teorias do modo como Kuhn faz (citado por si e muito bem), então os cientistas também são capazes de o fazer; podem não ser sempre capazes de o fazer, mas isso é irrelevante pois, uma vez mais, o que conta para que a tese seja interessante é que a incomensurabilidade seja uma questão de princípio e não de facto. O que conta é que seja uma tese metafísicas e não epistêmica ou até psicológica.

      Assim, talvez eu tenha visto mal, mas não me parece que se consiga conciliar as contradições do pensamento de Kuhn.

      Passando agora para um comentário mais construtivo: Kuhn parece ter ficado surpreendido com dois factos. Primeiro, ao olhar para a história da ciência, viu que esta não se parece com um debate racional, ponderado e razoável. Há na história da ciência muitos outros elementos. Segundo, ao tentar compreender melhor a estrutura das teorias científicas, viu que, do ponto de vista puramente lógico, é sempre possível continuar a defender a teoria 1 contra todas as evidências, fazendo mudanças em aspectos inessenciais da teoria, apenas por casmurrice. Pior: viu que muitos cientistas é mesmo isso que fazem. E viu que, apesar disso, muitas teorias acabam por ser abandonadas a favor de outras. Por isso, tinha muita dificuldade em continuar a aceitar um progresso científico linear, razoável e racional. Isto fê-lo cair num relativismo cognitivo difícil de defender (para não dizer incoerente). Quando viu isto, tentou recuar. Mas uma coisa é o que nós queremos pensar outra coisa é o que as teorias que defendemos realmente implicam. Nós não mandamos nas implicações das teorias que defendemos. E quando elas implicam o que não desejamos, caímos em contradição. Daí o comentário certeiro da Susan Haack.

      Mas talvez eu esteja a ver mal?

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  3. Em primeiro lugar, muito obrigado pelo texto da autora e correspondente leitura de Kuhn - muito esclarecedora. A minha leitura talvez seja ad hoc - evitando o inevitável. Terei de a repensar. Em todo o caso, penso que é importante não apresentar Kuhn como simples relativista mas sim transmitir as suas implicações de um modo problematizador. Por fim, parece assustador um autor tão influente como Kuhn não conseguir compatibilizar coerentemente a sua teoria central e as ditas implicações. Por outro lado, se o professor estiver correto e se não formos relativistas ou reformulamos Kuhn (o que parece impossível) ou temos de o colocar de parte...

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    1. É normal errar, Pedro. Mesmo os filósofos são humanos e os seres humanos erram. E é muito comum uma pessoa fazer uma teoria e não ver que ela tem implicações indesejadas. Depois uma pessoa tenta evitar essas implicações, mas nem sempre consegue. O verificacionismo é um caso típico, mas em filosofia há muitos outros; e porquê? Porque em filosofia, ao contrário do que acontece noutras áreas, lidamos com conceitos e problemas que 1) são muito gerais e 2) são fundacionais.

      Por serem fundacionais, estão na base de quase tudo o que pensamos e não temos outros conceitos mais fundacionais ou elementares que nos ajudem; quando fazemos uma casa, usamos ferramentas, mas estas ferramentas foram feitas com outras ferramentas, e estas também, até que chegamos a um ponto em que temos de fazer uma ferramenta com as nossas próprias mãos. Isto é a filosofia: estamos nus perante problemas fundamentais.

      Por serem muito gerais, os problemas de que nos ocupamos em filosofia têm tendência para dar origem a teorias demasiado gerais para o nosso gosto, e é aí que temos sempre a ameaça de incoerência: se temos uma teoria sobre todas as teorias, inevitavelmente tal teoria se aplica à nossa própria teoria e é vão tentar fugir disso.

      Concordo veementemente nisto que o Pedro escreveu e que é muito importante: é importante ensinar criticamente as ideias de Kuhn. Na verdade, para lhe ser sincero, não vejo qualquer interesse no ensino da filosofia a menos que seja crítico. Se for meramente descritivo, é mera descrição de opiniões de filósofos, mera doxografia. Pelo contrário, se for um ensino crítico, estamos a ensinar a pensar criticamente sobre os mais difíceis problemas que a humanidade alguma vez descobriu. Ora, ensinar criticamente filosofia não é apenas ensinar a descrever as ideias de Kuhn (ou de outro filósofo); é ensinar 1) a compreender o problema que está em causa e 2) a compreender como um dado filósofo tenta resolver o problema e 3) avaliar as dificuldades que a resposta deste filósofo enfrenta e porquê, e se há ou não espaço teórico para modificar ligeiramente a teoria de modo a torná-la imune às críticas. Este é o trabalho genuinamente filosófico, do meu ponto de vista, e só o ensino disto vale a pena; o resto é mera cultura geral e considero-a completamente desinteressante, além de não fazer muito sentido a sua presença na escola (se bem que grande parte das disciplinas que estão na escola deveriam, pelo mesmo raciocínio, ser completamente reformuladas ou então abolidas). Mas isto são ideias polémicas, certamente!

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  4. Subscrevo na íntegra aquilo que escreve e revejo-me na sua postura. Por isso, considero este manual um bom instrumento. Obrigado por contribuir para a atividade filosófica como ela deve ser.

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    1. Eu é que agradeço, Pedro! Juntos, colaborando generosa e criticamente, podemos fazer um trabalho melhor para os nossos alunos. Sinta-se em casa: este blog é para si.

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  5. Boas. Antes de mais desculpe incomodar, mas sou aluna do 11º ano de Ciencias e Tecnologias e estou a preparar-me para o exame nacional de Filosofia. Embora tenha uma nota bastante segura, o ideal era não a baixar em exame, e é uma grande responsabilidade mantê-la. O que eu peço é: será que me podiam dispensar alguma ajuda caso eu tivesse alguma dúvida urgente sobre a matéria de 10º/11º? Ficaria deveras agradecida. Quando tinha testes da disciplina vinha aqui ao blog e ajudava-me imenso, pois é outra forma de explicar. Sem mais nenhum assunto de momento, continuação do ótimo trabalho.

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  6. Boa Noite. Tenho uma dúvida acerca da matriz fornecida pelo GAVE. Analisando a matriz pressupõe-se que no Módulo II, o tópico 2.2 ( Valores e cultura- a diversidade e o diálogo de culturas) não será avaliado no exame, já que não consta da matriz. Assim como, o tópico 3.1.1 ( Intenção e norma moral), 3.1.2 ( A dimensão pessoal e social- o si mesmo, o outro e as instituições). Dado que não estão especificados na matriz, tal como os outros tópicos, inferi que não vão ser examinados. Está correto?

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    1. Mas há pouco tempo verifiquei que alguns conteudos que não estavam especificados na matriz respetiva de anos anteriores saíram em exame. O melhor será estudar mesmo tudo.

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