Objectividade: o que é isso?

Na parte 2.1 do programa ("Valores e Valoração"), as Orientações determinam que se deverá discutir
"o problema do carácter subjectivo ou objectivo dos valores, concretizando-o na questão de saber se os juízos valorativos têm um carácter subjectivo, ou se são relativos às culturas, ou se são antes juízos objectivos."
Foi o que fizemos nas Lições 12, 13 e 14. Numa versão anterior (o manual foi reescrito várias vezes), explicávamos várias concepções diferentes de objectividade, mas vários professores que leram essas versões consideraram que isso complicava desnecessariamente a discussão e acabava por confundir os alunos. Dada a nossa postura de simplificação didáctica neste manual, eliminámos essa discussão, e parece-me que fizemos bem. Ao ler algumas discussões recentes sobre as abordagens do problema da objectividade dos valores noutros manuais, vale a pena, contudo, fazer alguns esclarecimentos.

Do nosso ponto de vista, é legítimo, didacticamente, e até aconselhável, discutir o problema da objectividade dos valores sem sobrecarregar os estudantes com distinções sofisticadas sobre o conceito de objectividade aqui em causa. Contudo, não é legítimo, e dá maus resultados, se nós próprios, autores de manuais, não estudamos as coisas um pouco mais a fundo, acabando por escrever asneiras e confundir os alunos. Vejamos então alguns esclarecimentos que nós, professores, devemos ter em mente.

O que é a objectividade, afinal de contas? Um autor importante nesta área é Stephen Gaukroger, e o seu livro Objectivity: A Very Short Introduction é bastante esclarecedor. Sem seguir a sua classificação exaustivamente, vale a pena destacar alguns sentidos do conceito de objectividade, para ver qual deles é mais relevante no debate sobre os valores.

Primeiro, temos a ideia de que um juízo é objectivo quando é um juízo de facto, isento de valores. Há muitas vezes a ideia de que as ciências da natureza são objectivas neste sentido. Esta é uma ideia algo ingénua do que dá objectividade às ciências da natureza, e muitos filósofos não a aceitam (como é o caso de Thomas Nagel, outro filósofo cujas reflexões sobre a objectividade são importantes). Se a objectividade fosse isto, todo o juízo de facto isento de valores seria objectivo, mas isto é falso; e todo o juízo de valor seria trivialmente não-objectivo, o que quereria dizer que a discussão sobre a objectividade dos valores seria tola. Conclusão: não é este sentido de objectividade que nos interessa.

Um segundo sentido de objectividade relaciona-o com a verificabilidade. Neste caso trata-se de uma condição necessária da objectividade: se um juízo for objectivo, há um procedimento que verifica o seu valor de verdade. Uma vez mais, as ciências da natureza são aqui um modelo de objectividade, quando temos ideias verificacionistas ou falsificacionistas. A dificuldade deste sentido de objectividade é que muitos juízos que nos parecem objectivos não são verificáveis nem falsificáveis, como acontece com quase todos os juízos filosóficos, mas também os juízos da história e de muitas outras áreas. Qualquer concepção de objectividade que ponha no mesmo saco um juízo subjectivo feito à toa sobre a salada de agriões ser mais saborosa do que a salada de alface e a nossa melhor história, filosofia e outras áreas, parte de uma posição muitíssimo insatisfatória. No contexto da discussão sobre os valores, este sentido de objectividade é ligeiramente melhor do que o anterior, pois não é trivial que não se possa verificar ou falsificar alguns juízos de valor. Contudo, este conceito é ainda insatisfatório, pelas razões apontadas.

Um terceiro sentido de objectividade está relacionado com o segundo, mas elimina as dificuldades do verificacionismo e do falsificacionismo, entendendo a objectividade em termos de representação precisa da realidade. Por exemplo, quando fazemos um mapa de Portugal, este terá de ser uma representação precisa, para ser objectivo. Isto elimina as dificuldades do verificacionismo e do falsificacionismo à custa de não nos dizer quando uma representação é mais ou menos precisa, e eximindo-se de explicar o que se entende por "realidade". Por exemplo, a matemática é um modelo de objectividade, certamente. Contudo, é uma representação da realidade? Que realidade? E como sabemos se é uma representação precisa? No contexto da discussão sobre valores, há filósofos que defendem a sua objectividade, mas rejeitam o realismo, entendido como factualismo (é o caso de Thomas Nagel), e por isso esta concepção não é muito feliz.

Um quarto sentido é o que usámos no nosso manual, e escapa a todas estas dificuldades, apesar de estar longe de ser pacífico. É a ideia simples de que um juízo é objectivo quando é imparcial, quando não é tendencioso. E isto é tão simples, que decidimos incluir a noção sem discussão e sem passar pelas outras concepções.

Para minha surpresa, descobri que muitos autores de manuais têm uma concepção popular e irreflectida de objectividade, diferente das quatro apresentadas e tão implausível que não costuma sequer ser considerada neste debate. É a ideia de que a objectividade diz respeito ao objecto, sendo que a subjectividade diz respeito aos sujeitos. Para ver a confusão, imagine-se este diálogo entre um médico e o seu paciente:

— Doutor, estou com uma terrível dor nas costas.
— Não posso fazer nada, infelizmente.
— Como não? Então você não é médico?
— Sou, mas você não concorda que a medicina é uma ciência objectiva? Ou pensa que isto é subjectivo?
— Claro que é objectiva, é uma ciência, sim, e depois?
— Ora, a sua dor nas costas é sua, diz respeito a si, que é um sujeito, logo é subjectiva e logo a medicina, por ser objectiva, nada tem a dizer sobre isso. Vá antes ao curandeiro!

Como é óbvio, há algo de errado aqui. Dizer respeito ao sujeito não é em si sinal de subjectividade; nem sequer ser relativo ao sujeito, para ser mais preciso. Pois muitos juízos perfeitamente objectivos são relativos aos sujeitos, como ter um certo peso ou ter duas pernas ou ter uma irmã.

Em conclusão, podemos e devemos poupar aos estudantes complexidades que poderão confundi-los e afastá-los do debate principal. Mas nós, professores e autores de manuais, temos de ter ideias muito claras sobre os conceitos fundamentais que estão em causa na discussão. E ainda que não apresentemos uma discussão desses conceitos, devemos apresentar aos alunos, com clareza e simplicidade, pelo menos uma noção que seja ao mesmo tempo relevante para a discussão e filosoficamente rigorosa.

O que pensam os colegas?

Comentários

  1. Considero uma ótima opção. Talvez, substituiria 'imparcial' pela palavra 'neutro'.'Imparcial',ao menos para os alunos aqui no Brasil, carrega um sentido pejorativo, de modo que pode causar confusão a tratar da noção em estética, por exemplo.

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  2. Obrigado, Thiago! Fiquei surpreendido com o significado de "imparcial" aqui no Brasil e fui ver no Aurélio. Eis o que encontrei:

    imparcial.

    [De im-2 + parcial.]
    Adjetivo de dois gêneros.
    1. Que julga desapaixonadamente; reto, justo.
    2. Que não sacrifica a sua opinião à própria conveniência, nem às de outrem. ~ V. estimador —.

    O Aurélio não regista o significado pejorativo de "imparcial".

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  3. Desculpe, Desidério, me expressei muito mal e, na verdade, eu acabei fazendo confusão. Mais precisamente, as palavras 'imparcial' e 'parcial' possuem uma conotação moral muito forte entre os alunos, levando eles a entender o termo 'imparcial' como sinônimo de honesto.

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  4. Então os alunos não entendem mal o termo "imparcial". A ideia é mesmo essa. Ser imparcial é não ser tendencioso. No debate sobre a objectividade dos valores, este é o aspecto mais importante da objectividade. Trata-se de saber se todos os valores são tendenciosos, ou se pelo contrário há alguns valores que não o sejam.

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  5. Era essa minha dúvida. Se era apenas uma questão de compreensão do termo. O ponto é que pode ser um erro minha pretensão de procurar uma noção polivalente de objetividade, tendo em vista que há certa dificuldade, por parte dos alunos, em entender que parcialidade na observação científica não tem haver com desonestidade.

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    1. Bom, talvez eu esteja vendo mal, mas parece-me que parcialidade na observação científica tem realmente muitas vezes a ver com desonestidade intelectual. Por exemplo, uma pessoa pretende verificar se as pessoas que comem brócolos três vezes por semana apanham menos resfriados do que as outras. Forma os grupos, incluindo grupo de controlo, e depois ao ver que há vários casos de pessoas que comeram brócolos mas mesmo assim apanharam resfriados, decide ignorar esses dados. Isto é observação parcial e é uma falta grave de ética científica: é supressão de dados. Mas talvez o Thiago queira dizer outra coisa com parcialidade na observação científica.

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  6. Considero num sentido mais amplo. Que a parcialidade na observação científica não é necessariamente desonesta. O cientista pode confiar equivocadamente na neutralidade das informações obtidas pelos sentidos. E essa distinção em alguns casos requer um pouco mais tempo para esclarecer aos alunos. Mas, como você disse, realmente a dificuldade parece ser apenas terminológica e não possui maiores barreiras para a aprendizagem.

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