terça-feira, 28 de maio de 2013

O que é a filosofia, afinal?

Como apresentar de maneira adequada a filosofia pela primeira vez aos alunos? Há diferentes maneiras de o fazer adequadamente, mas vale a pena ter em conta alguns esclarecimentos, começando por um aspecto que discutimos brevemente no Livro de Apoio: a maneira como por vezes se define as outras disciplinas, como a física, ao apresentá-las aos estudantes pela primeira vez.

O caso da física

O professor de filosofia sente-se por vezes em situação desvantajosa, pensando que no caso da física, por exemplo, há uma definição explícita adequada para apresentar aos alunos, o que não aconteceria na filosofia. Mas isto é falso, pois a definição de física geralmente apresentada tem dois defeitos cruciais: primeiro, está errada e segundo, mesmo que não o estivesse, não seria esclarecedora para os alunos.

Se definirmos a física como uma disciplina em que estudamos fenómenos físicos, estaremos a dar uma definição incorrecta. Isto porque a biologia também estuda fenómenos físicos (não estuda, certamente, fenómenos espirituais outros fenómenos que não sejam físicos). A definição dada é incorrecta, se temos em mente o sentido comum de "fenómeno físico". A maneira de corrigir a definição torna-a inadequada educativamente, ainda que extensionalmente correcta: se entendermos "fenómeno físico" como “o género de fenómeno estudado pela física”, a definição é extensionalmente adequada, mas não é educativamente adequada, pois quem não sabe o que é a física, não sabe também o que são os tais fenómenos físicos que ela estuda. Se quisermos dar este tipo de má definição da filosofia, também o podemos fazer: é a disciplina em que estudamos problemas filosóficos.

Não é surpreendente que dar definições explícitas adequadas e ao mesmo tempo esclarecedoras não seja fácil; raramente o é. Se por vezes há a ilusão de que é fácil é porque nos habituamos a um certo género de definições, e não nos apercebemos que, ainda que os nossos alunos as repitam diligentemente, ou não têm qualquer papel informativo real ou são extensionalmente inadequadas. Vejamos duas delas.

Actividade problematizadora

Diz-se por vezes que a filosofia é uma actividade “problematizadora”. Isto é parcialmente verdadeiro, mas enfrenta duas dificuldades principais se entendermos isto como uma definição de filosofia educativamente adequada. Primeiro, muitas outras áreas de estudo são igualmente “problematizadoras”: os objectos caem, e isso é óbvio, mas os físicos levantaram o problema curioso de saber por que razão caem eles; Salazar tomou o poder em Portugal, e isso é um facto histórico banal, mas o historiador pergunta-se o que o levou a fazê-lo, o que lhe permitiu fazê-lo e que dinâmicas sociais, políticas e económicas poderiam tê-lo impedido de o conseguir.

Esta é a primeira dificuldade: muitos outros estudos além da filosofia são problematizadores, pelo que esta não é algo que distinga a filosofia (em termos mais rigorosos: não é uma condição suficiente da filosofia, ainda que seja uma condição necessária). A segunda dificuldade é dar ao aluno a ideia de que a filosofia consiste em inventar problemas fantasiosos onde nenhum problema havia antes. Num país onde a filosofia já não goza de grande prestígio, apresentar a disciplina desta maneira parece um tiro certeiro no pé, para não dizer na cabeça.

Actividade crítica

Outro exemplo de coisa que por vezes se diz ao apresentar a filosofia aos estudantes pela primeira vez é que é uma actividade crítica. Uma vez mais, isto é verdadeiro, mas muitas outras áreas de estudo são actividades críticas: fazer física não consiste apenas em repetir diligentemente o que vem nos livros, mas também em estudar criticamente a própria natureza, por exemplo; e fazer história não consiste apenas em repetir datas decoradas, mas também em compreender fenómenos históricos complexos, para os quais há diferentes explicações de diferentes historiadores, tendo nós de assumir uma posição crítica.

Partir de um ou mais exemplos

Dados estes aspectos menos felizes da maneira como por vezes se apresenta a filosofia aos alunos, uma alternativa é pegar desde logo num problema filosófico que o aluno possa compreender que é realmente um problema (e não uma confusão ou um jogo de palavras) e a partir dele apresentar duas características centrais que os distinguem dos problemas das outras áreas de estudos. Há muitos problemas filosóficos óbvios, alguns dos quais o aluno já conhece mas não sabia que são filosóficos: Será que Deus existe? Será que estamos a sonhar quando pensamos que estamos acordados? Serão os valores morais subjectivos? Será que temos o dever de dizer sempre a verdade?

A inevitabilidade dos problemas filosóficos

Quando se reflecte sobre um problema filosófico qualquer, vemos duas coisas importantes. Primeiro, que não há maneira adequada de lhe fugir porque, quando tentamos fazê-lo, invocamos ideias filosóficas para justificar a nossa posição, o que é incoerente. Por exemplo, muitas pessoas têm a tentação de dizer algo como “Não se pode saber se Deus existe e por isso não vale a pena falar nisso, é uma questão pessoal”. Esta pessoa parece pressupor várias ideias filosóficas:
  • Primeiro, talvez pense que “saber”  quer dizer “saber cientificamente”, caso em que defende a ideia filosófica de que a ciência esgota o campo do conhecimento. 
  • Segundo, talvez esteja a pressupor a ideia filosófica de que não se pode saber, mesmo que de qualquer outro modo que não o científico, que Deus existe. 
  • Terceiro, parece pressupor a ideia filosófica de que se não podemos saber algo, não vale a pena estudá-lo. 
Nestes três casos há pressupostos filosóficos ocultos, e é por isso que a filosofia é inevitável. Claro que a pessoa talvez não se dê conta dos seus próprios pressupostos filosóficos, ou talvez não se interesse por eles. Daí que não basta que existam problemas filosóficos para haver filosofia: é preciso que, além disso, existam pessoas interessadas nesses problemas.
Assim, a primeira coisa que vemos quando usamos um problema filosófico qualquer como exemplo é a sua inevitabilidade: quando tentamos eliminá-lo, fazemo-lo com base em pressupostos filosóficos.

O carácter conceptual da filosofia

A segunda coisa que vemos quando consideramos cuidadosamente um problema filosófico é que não há qualquer maneira científica, histórica ou matemática de lhes responder adequadamente. Não podemos fazer experiências no laboratório para saber se temos sempre o dever de dizer a verdade, ou se Deus existe, ou se estamos a sonhar quando pensamos que estamos acordados. Os problemas da filosofia não são susceptíveis de uma abordagem adequada que não seja filosófica.

Isto significa que o que dá unidade aos problemas filosóficos é o facto de serem insusceptíveis de outra abordagem que não a filosófica. Todavia, há aqui uma subtileza curiosa.

Qual é o objecto da filosofia?

Em áreas como a física ou a linguística é certamente difícil definir de maneira adequada o seu objecto de estudo; contudo, há pelo menos algumas razões para pensar que há algo que unifica o objecto de estudo da física, algo que os fenómenos que estudamos em física têm em comum, em si mesmos. Ora, esta unidade de objecto não parece existir no caso da filosofia. O que há de comum entre um problema da ética aplicada, por exemplo, e um problema de ontologia dos números?

É uma tentação dizer que o que os problemas da filosofia têm em comum é o facto de serem, além de conceptuais, não-formais (não são problemas lógicos nem matemáticos). E isto é verdade, mas note-se que estamos a caracterizar os problemas da filosofia não em termos de uma propriedade que eles tenham em si mesmos, mas em termos do modo de os abordar adequadamente. Dizer que o que há de comum entre os problemas filosóficos é o facto de serem conceptuais e não-formais não é uma maneira de especificar a que parte da realidade os problemas da filosofia dizem respeito; e isso é o que fazemos em física ou linguística, ou pelo menos o que pensamos que conseguimos fazer, quando definimos o objecto de estudo destas áreas. No caso da filosofia, isto não parece possível, pois aparentemente é uma área de estudos demasiado heterogénea, na qual abordamos problemas que dizem respeito a aspectos muito diferentes da realidade:
  • O que é a justiça? 
  • O que é um número? 
  • O que é uma verdade necessária?
O que há de comum a todos esses problemas não é o facto de recortarem uma parte da realidade, como acontece noutras áreas de estudos, mas antes a maneira como tais problemas podem ser abordados adequadamente.

Conceitos elementares?

Se procurarmos insistir na unificação do objecto de estudo da filosofia, caímos na tese desagradável de que em filosofia estudamos conceitos e não realidades, o que, além de historicamente falso, tornaria a filosofia uma disciplina desinteressante, pois o que queremos realmente saber, por exemplo, é se é justo que umas pessoas tenham o quádruplo da riqueza das outras, e não algo acerca do conceito de igualdade.

A única via que conheço menos obviamente errada para caracterizar o objecto da filosofia sem recorrer ao seu próprio método é afirmar que nesta disciplina estudamos os aspectos mais elementares da realidade. Isto combina-se muitas vezes com uma conversa sobre conceitos, afirmando-se então que em filosofia nos ocupamos dos conceitos mais elementares ou básicos.

A ideia seria a seguinte: enquanto um físico estuda vários fenómenos em que o tempo é uma componente fundamental, em filosofia estudamos a natureza do próprio tempo, ou o conceito de tempo — um aspecto tão elementar da realidade que não parece haver outros ainda mais elementares e que não sejam também problemas filosóficos.

Não me parece que esta via seja bem-sucedida porque, por um lado, há áreas da ciência que tratam de aspectos muitíssimo elementares, como é o caso da física quântica; por outro, há áreas da filosofia que não parecem ter por objecto aspectos elementares da realidade, mas antes aspectos que incluem muitíssimos elementos, como é o caso de saber o que é uma sociedade justa, ou se é incorrecto maltratar animais não-humanos. É razoável insistir que em todos estes casos estão sempre em causa aspectos muitos elementares da realidade, sendo por isso que tais problemas são filosóficos. Mas se pusermos as coisas deste modo, o aluno não irá realmente entender o que unifica os problemas da filosofia, porque a ideia terá de se tornar muito subtil para resistir aos contra-exemplos óbvios.

E o método?

O que estas reflexões significam é isto: a caracterização ou definição tradicional das áreas de estudos em termos de objecto e método não se aplica facilmente à filosofia. Não é óbvio que seja um dado recorte da realidade o que define o objecto de estudo da filosofia; antes parece que é a maneira como abordamos os problemas filosóficos que lhes dá unidade. Ou seja, parece que é o método da filosofia que recorta seu objecto. Ora, temos nós uma definição adequada e simples do método filosófico? Infelizmente, não. Uma vez mais, tudo o que podemos fazer é dar exemplos e apontar contrastes com outras áreas que o aluno já conhece bem. Assim, a filosofia é parecida com a matemática porque é conceptual: faz-se pensando apenas, sem recorrer a experiências científicas, observações e medições; mas difere da matemática porque não tem por objecto problemas matemáticos. A filosofia envolve raciocínio e teorização intensa, mas o mesmo acontece na matemática e na física. A filosofia envolve análise cuidadosa de conceitos, mas o mesmo acontece noutras áreas, como nas ciências jurídicas, na biologia e na matemática.



Talvez alguns professores considerem estas reflexões algo irrelevantes; eu penso que não, pois considero importante estar ciente das complexidades do que fazemos, ainda que o traduzamos em termos muitíssimo mais simples para os alunos. Em qualquer caso, tendo em conta estas reflexões, como é adequado caracterizar a filosofia aos estudantes mais novos? Penso que explicar o que são problemas conceptuais não-formais, usando algo como a tabela acima, é uma maneira de o fazer, ao mesmo tempo que explicamos o carácter aberto da filosofia (quase não temos teorias ou perspectivas amplamente consensuais). Deste modo, o estudante compreende facilmente a ideia de Kant de que o nosso objectivo não é apenas ficar ciente do que pensavam os filósofos,  mas antes adquirir “proficiência no método de reflectir e fazer inferências por si” (Kant 1756: 2.307). Ou seja, o objectivo é aprender a filosofar.

18 comentários:

  1. Desidério repara que confundes duas coisas: apresentar de modo adequado a filosofia pela primeira vez aos alunos e como definir a Filosofia para os alunos. Parece igual mas não é. Partes do pressuposto que para apresentar a Filosofia parece ser necessário defini-la, teoricamente. Repara que até podíamos considerar uma definição mais histórica...mas não quero discutir isso.
    Começar a disciplina sem qualquer definição seja por comparação com outras disciplinas é difícil. Mas repara que os professores de outras disciplinas não sentem essa dificuldade. O professor de Física ou de História não começa a disciplina por definir cada uma destas disciplinas (penso eu...). Tu apresentas isso como se fosse necessário fazê-lo. Nós podemos fazê-lo aliás fazemos, porque os alunos tem à frente deles um manual que o faz. Agora tenho dúvidas sobre a eficácia dessa introdução
    Começar uma disciplina que antes se chamava de introdução à Filosofia e a meu ver bem, é difícil sem os alunos trabalharem algumas competências filosóficas. E parece-me que isso é possível ser feito trabalhando algumas questões fundamentais da Filosofia e que também são crenças dos alunos. Se começamos pelas ferramentas básicas da Filosofia (argumento, and so on...) podemos e devemos treinar isso mesmo, servindo-nos logo dos temas que mais à frente vamos abordar: a ação e o determinismo, a liberdade etc...se quiseres e não vejo mal nisso, talvez pudéssemos até começar por exercícios básicos de pensamento crítico que como bem sabes seria uma enorme vantagem para o ensino da Filosofia. O problema é o que se faz com o manual e o que deve ele apresentar? Essa é outra questão.

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    1. Do meu ponto de vista, a melhor maneira de apresentar a filosofia aos alunos é começar logo a estudar um problema filosófico intuitivo, em vez de perder muito tempo a falar sobre a filosofia. Do meu ponto de vista, quanto menos se falar sobre a filosofia e mais depressa se começar a estudar filosofia, melhor para o aluno. Contudo, apresentar a filosofia desta maneira é também defini-la; apenas é uma definição implícita. Nem todas as definições são explícitas.

      Uma definição histórica enfrenta precisamente as mesmas dificuldades teóricas das outras definições explícitas. Por um lado, nem tudo o que os filósofos fizeram foi filosofia, e por outro é preciso começar por fazer um recorte daqueles autores que consideramos pertencerem à filosofia. Fazer qualquer uma destas coisas implica usar uma definição (consciente ou não, implícita ou explícita) de filosofia.

      Muitos manuais escolares perdem muito tempo a dizer o que é a filosofia, e nós mesmos o fizemos anteriormente, no Arte de Pensar. Mas no 50LF isso não acontece: o que dizemos sobre a filosofia é como um prefácio apenas: duas páginas. Nada mais. O importante é começar o mais depressa possível a estudar filosofia propriamente dita.

      Já quanto aos instrumentos críticos da filosofia, sou também da opinião que devem ser apresentados à medida que estudamos filosofia. Em vez de dedicarmos muitas semanas a estudar instrumentos críticos, o melhor é apresentá-los à medida que deles precisamos, ao discutir os problemas da filosofia.

      Contudo, quando escrevemos manuais em Portugal temos de obedecer a um programa nacional. É por isso que quase todos os manuais, incluindo o 50LF, têm como que uma introdução à filosofia antes de se começar a discutir a acção humana. Do meu ponto de vista, a unidade inicial não devia existir no programa. Afinal, não existe, tanto quanto sei, nos programas de matemática, história ou física.

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    3. O problema em não apresentar uma definição explícita de filosofia e meramente pressupor uma definição implícita é que algumas definições implicam em uma maneira completamente diferente de fazer filosofia daquela proposta pelo manual. Imagine a decepção de um aluno que passa o ensino secundário estudando o “50 Lições” e escolhe fazer uma graduação em filosofia por causa desse manual, mas só depois de entrar na universidade irá descobrir que no seu departamento alguns, ou a maioria, dos professores recusa a concepção de filosofia implícita no manual – a chama de “analítica”, por exemplo. Não mencionar essas controvérsias metodológicas que são verdadeiros divisores de água na atividade filosófica é deixar o aluno no escuro.

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    4. Só para concluir: eu penso que o mais adequado seria apresentar uma definição explícita de filosofia e observar, talvez com um ou dois exemplos, que há outras definições que implicam em maneiras de fazer filosofia que são muito diferentes.

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    5. A analogia com a Física tem duas falhas. A primeira é que há um consenso na Física acerca da definição, natureza dos problemas e metodologia de Física que não há na Filosofia. Por isso um professor de Física, seja do secundário ou universitário, pode se dar ao luxo de não explicitar ou discutir aquilo que é pressuposto pelos físicos – isto não será informativo para o aluno. A segunda é que saber qual é a melhor definição de Física não é um problema relevante de Física no mesmo sentido em que saber qual é a melhor definição de Filosofia é um problema relevante de Filosofia.

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  2. Concordo contigo Desidério ( o primeiro comentário é meu, esqueci-me da identificação). O aluno deve construir uma definição à medida que vai trabalhando e portanto não é necessário iniciar com uma definição (ou ou que é mais grave, com mais do que uma...). Daí que para se apresentar adequadamente a disciplina é apenas necessário trabalhar os problemas com os instrumentos necessários. E julgo quanto mais treinarem esses instrumentos melhor.

    Ismael

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    1. Viva, Ismael, tudo bem? Apesar de eu compreender também a preocupação do Matheus, mas parece-me que é pedagogicamente muito melhor ir chamando a atenção para vários aspectos metodológicos à medida que vamos avançando no estudo. E a melhor maneira de dominar os instrumentos da filosofia é aplicá-los a pouco e pouco à discussão de problemas filosóficos. Estamos, pois, na mesma linha. O meu texto é para nós, professores, para nosso esclarecimento, seguindo sempre aquela ideia: se ensinamos até à letra D, devemos dominar até à H.

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  3. Bom princípio. Sabes o que também me tem preocupado, tenho estado a tentar escrever um texto sobre isso, é como ajudar os alunos a analisar filosoficamente textos que pertencem à tradição filosófica ou outros que tenham interesse filosófico.É certo que com o treino se consegue, mas estou a tentar avançar com algumas técnicas que possam ajudar a analisar textos em Filosofia.

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  4. Lembro-me que no programa anterior ao que está agora em vigor no secundário em Portugal havia um tema intitulado "o lugar da filosofia" que era lecionado durante um período inteiro. Falavamos nessa altura da dificuldade em definir filosofia, porque os filósofos dão definições diferentes de acordo com a sua filosofia,falavamos das carateristicas da filosofia - universalidade, historicidade, etc - da atitude filosófica racional, crítica, etc. E durante esse período os alunos perguntavam-me constantemente "mas, professor, o que é a filosofia?". Tudo isto porque passavamos aulas e aulas a falar do que era a filosofia mas não "praticavamos" a filosofia, não abordavamos, não discutiamos os temas filosóficos.
    O programa atual introduziu uma nova abordagem referindo que, para além das atividades de diagnóstico, nas aulas iniciais se deve satisfazer a curiosidade dos alunos sobre a disciplina referindo algumas questões filosóficas e as disciplinas filosóficas em que se inserem. Refere ainda a importância de mostrar aos alunos que a filosofia tem uma dimensão discursiva, mas eu aqui, em desacordo com o Desidério penso que o que se exige nesta primeira abordagem é apenas mostrar que a filosofia é texto, é discurso, e que as ferramentas dos filósofos são os conceitos, que precisam de ser clarificados quando estudamos os textos filosóficos, mais as teses e as razões que os filósofos apresentam, que precisam de ser identificados nesta primeira fase e só mais tarde discutidos. Pode-se-lhes dar um texto filosófico muito simples para o aluno fazer este trabalho.O número de aulas para este módulo inicial, como diz o Desidério e como o próprio programa indica, deve ser reduzido, porque a melhor maneira de perceber o que é a filosofia é dar os temas filosóficos que se seguem.
    Desde que eu procedo deste modo os alunos deixaram de me perguntar o que é a filosofia. Eles percebem intuitivamente o que é a filosofia sem precisarem de qualquer definição.
    Considero importante salientar o caráter crítico da filosofia aos alunos, não porque o pensamento crítico seja um exclusivo da filosofia, mas porque, como o Desidério e os seus colegas afirmam no 50 Lições "Não vamos estudar filosofia dessa maneira (da maneira que estudamos física, matemática ou história)porque nesta disciplina não temos o género de respostas consensuais que temos nas outras áreas. Em filosofia quase só há problemas em aberto e respostas contestadas (...)Em vez de nos limitarmos a compreender as ideias dos filósofos (...)vamos avaliar com rigor as suas ideias (...)vamos aprender a raciocinar criticamente sobre os problemas da filosofia"
    Penso que os velhos textos de António Sérgio "Ao aprendiz de filósofo...", e do Bertrand Russel "O valor da filosofia reside na sua própria incerteza...", são textos muito adequados a este módulo.
    Considero importante salientar o caráter racional da filosofia e o apelo aos alunos para que usem a sua própria razão para que os discentes fiquem cientes que quando se discutem problemas, mesmo na unidade "A dimensão religiosa", se tem de recorrer sempre a argumentos lógicos e não a autoridades.

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    1. Obrigado por partilhar a sua experiência, Frederico, é muito importante que tenhamos conhecimento das experiências uns dos outros. Saber que passou pela situação educativa em que os alunos perguntavam o que era a filosofia precisamente quando a tentávamos definir, ao passo que entendem naturalmente o que ela é quando vamos por outra via, vindica a ideia que nos une. Mas tenho de lhe confessar uma coisa: os seus comentários no Dúvida Metódica, a que ainda não tivemos oportunidade de responder, já geraram algumas boas discussões entre os autores do 50LF. Tivéssemos nós tido a oportunidade de as ler, e certamente teríamos mudado bastante a primeira o primeiro capítulo do 50LF. Enfim, é com opiniões sólidas, ponderadas, ainda que totalmente adversas, que aprendemos. Agradeço-lhe, pois, as suas críticas.

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  5. Gostaria de comentar, já que sou um aluno que é obrigado a estudar por este livro, que este livro não passa de frases que baralham a cabeça de qualquer um. Todos os meus colegas, incluindo eu, não conseguimos tirar partido nenhum deste livro. A única solução é mesmo a nossa professora que nos ensina a partir das frases que ela própria tenta "modificar" do livro, para ver se compreendemos algo. Eu deixo a minha opinião e digo logo desde já que este livro não serve para ensinar qualquer aluno do 10º ano que esteja a aprender pela primeira vez filosofia.

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  6. Obrigado, André, mesmo que a sua opinião seja negativa. Não estamos convencidos que este livro esteja isento de defeitos, mas gostaríamos que nos desse alguns exemplos, até para podermos evitá-los. Todos os livros são feitos de frases e os de filosofia visam muitas vezes pôr em causa algumas ideias que nos parecem bem arrumadinhas. Já tentou ver outros livros de filosofia? Será que os outros livros não lhe parecem também conjuntos de frases que baralham a cabeça? Quem sabe se o problema não é mesmo com a filosofia. Isto são apenas possibilidades, não desculpas da nossa parte. Já agora, o André anda em que escola?

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  7. Curioso, André, pois a nossa editora só tem este livro. Por sinal, temos tido uma boa reacção de outros professores, mas isso não significa que as suas queixas não sejam sinceras. Mas a sua professora certamente o saberá ajudar, até porque foram os professores que escolheram este manual. Não nos disse qual é a sua escola.

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  8. Um lapso levou-me a falar de "outros professores" quando queria, obviamente, falar de outros alunos. Peço desculpa.

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  9. Olá!

    De todos os temas que leciono, o de mostrar a natureza da filosofia é o que mais exige estudo de minha parte. Mas não é em razão da definição que ofereço, mas antes pelo precário ensino escolar no Brasil.

    Seguindo o percurso da Lição 1, depois de três anos de aperfeiçoamento de minhas exposições, considero satisfatório no ensino médio (15-17 anos) definir a filosofia como área de conhecimento que investiga problemas conceituais básicos, desde que explique adequadamente que um conceito básico é um conceito (a priori) que não possui conceitos anteriores a ele e que, no fim de todo o conteúdo, alerte-se que há quem discorde da definição apresentada. De modo geral, com isso eles conseguem minimamente identificar problemas filosóficos. E isso parece atender os propósitos da lição.

    Sigo este caminho: 1. há questões que não podem ser respondidas adequadamente por outras áreas de conhecimento; 2. Há dois tipos de problemas que as áreas investigam; 3. problemas empíricos; 4. problemas conceituais; 5. diferença entre filosofia e matemática; 6. definição de filosofia.

    O problema aparece quando começo a falar da natureza dos resultados em filosofia: repostas em aberto, resultados positivos, negativos e transversais. (O manual não apresenta a questão nestes detalhes, mas, até o momento, devido a avalanche de perguntas dos alunos, vejo a necessidade de apresentar). Neste estágio, os alunos começam a se inquietar. Se inquietam por já termos, até o momento, uma quantidade razoável de sutilizas - situação que até então eles não presenciaram em sua vida escolar - e, principalmente, por estarem acostumados a só aprenderem resultados definitivos ou resultados em aberto como se fossem definitivos.

    De todo modo, não vejo como escapar disso. Se não falamos disso no começo, em outro momento teremos que falar. Essa semana mesmo vou ter que reservar uma aula para falar disso para uma turma que está estudando filosofia da ciência que não teve isso com outro professor (f. da ciência em meu Estado é reservado para o último ano do secundário). Portanto, optei por não fugir dele no início. Além do mais, é importante desde o início explicitar o valor de estudar problemas em aberto em qualquer área. Julgo que facilita bem as coisas.

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  10. Se bem me lembro dos meus tempos de escola secundária nos finais dos anos 70, nós tínhamos filosofia no último ano do secundário e o professor começou as aulas pedindo para reflectirmos na questão "qual o propósito da minha vida?" Para mim foi o início de um precurso que me estimulou começar a reflectir sobre problemas conceptuais. Segui ciência, mas paralelamente nunca abandonei um interesse colateral em aprender mais sobre assuntos de filosofia. De facto eu acho que deveria ser obrigatório em qualquer curso de ciência incluir uma cadeira de filosfia no curriculum. Especialmente porque ela nos ensina a pensar logicamente e mais tarde com aspectos da filosofia moral, nos ajuda a tomar decisões que afectam a sociedade. Especialmentenas áreas da biolgia, um conhecimento de filosfia moral é importante para discussões de bioética, ética animal e ética ambiental.
    Presentement ensino Pensamento Crítico e Ética Animal aqui em Cambridge e os participantes parecem entusiasmados com o programa. Os do curso de pensamento critico também aprendem a debater o que trás uma vivacidade positiva ás aulas.

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