Não, Platão não defende o objectivismo estético.

Platão aponta para cima, para o mundo das ideias. É lá que está a beleza, não nos objectos que vemos.

Um colega enviou-me um email pessoal com uma dúvida sobre estética, pedindo a nossa opinião sobre o assunto. Parece-nos que vale a pena responder aqui, pois pode interessar a outros também. A dúvida era a seguinte:

Comecei a dar a estética e fui ver o que os novos manuais diziam sobre o subjetivismo/objetivismo estético. Num deles li que o objetivismo estético é a perspetiva defendida por Platão, defendendo este que um objeto é belo em virtude das suas propriedades intrínsecas, as quais se encontram no objeto e só no objeto. Acho estranho Platão defender isto. Mas como já encontrei o mesmo noutro manual, pergunto se isto é mesmo assim. 

A primeira coisa a sublinhar é que se o objectivismo é a perspectiva segundo a qual a beleza (ou as propriedades que fazem algo ser belo) se encontram no objecto e só no objecto, então Platão nunca poderia ter defendido o objectivismo estético. Pela simples razão de que a tese de que a beleza está nas coisas é inconsistente com a bem conhecida teoria platónica das ideias. De acordo com a teoria das ideias, o que nos faz dizer que um dado objecto é belo não é o que nele vemos, mas a ideia imutável de beleza que esse objecto imita. Ora, como sabemos, as ideias — incluindo a ideia de beleza, em virtude da qual chamamos «belos» a certos objectos — encontram-se num mundo à parte, diferente do mundo dos objectos sensíveis. 

Sendo assim, como se pode dizer que Platão é objectivista? Dizer que Platão é objectivista é o mesmo que dizer que Platão não defende a teoria das ideias, de acordo com a qual a beleza não está nos objectos. 

Mas será que, por não estar nos objectos, a beleza deixa de ter uma existência real e independente de quaisquer sujeitos? A resposta de Platão é que a beleza tem uma existência real, mas não está nos objectos nem depende de sujeitos: ela está no mundo transcendente das ideias perfeitas. Assim, o que Platão defende é o realismo estético, não o objectivismo estético, que são coisas diferentes.

Em suma: não, Platão não defende o objectivismo estético. Nem é preciso ler mais do que a passagem da Alegoria da Caverna para se concluir isso.

Nota: No meu texto não aplico o novo acordo ortográfico, o que não acontece na citação acima.

Comentários

  1. Interessante texto e análise!
    Permita-me questionar...

    O que defende o realismo estético?

    Existe, em Platão, a ideia de beleza que não é atribuída pelo sujeito aos objectos no mundo sensível, isto seria subjectivismo estético.
    *O BELO* reside no mundo das ideias, é imutável e eterno - desta ideia de beleza, incorruptível claro está, participam todas as coisas belas do mundo sensível (teoria da participação platónica).

    Cito e sublinho: "(...) nem depende de sujeitos: ela está no mundo transcendente das ideias perfeitas."

    Grato.

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    1. Caro Luís

      No que respeita ao subjectivismo estético, o que há de relevante é saber se coisas como as obras de arte e os objectos sensíveis são belos em si e por si mesmos, ou se são belos em virtude de outra coisa. Ora, como é evidente, dada a teoria das ideias de Platão, coisas como pinturas ou cadeiras ou montanhas não são belas em si e por si, dado que, quando são belos, são-no exclusivamente por participarem da forma da beleza. O que provoca confusão é que, evidentemente, Platão pensava que a forma da beleza era bela em si, sem que isso dependesse de nós. Mas ser objectivista quanto à ideia ou forma de beleza é completamente diferente de ser objectivista quanto à beleza dos objectos sensíveis, e é esta última que conta no que respeita ao objectivismo estético.

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  2. Caro Desidério,

    Obrigado pela sua resposta, eu entendo e concordo com o que defende, é da maior importância fazer-se este trabalho - sério.
    Já tinha tido essa dúvida em relação ao suposto objectivismo estético platónico.

    Agora, tendo em conta que Platão era objectivista em relação à ideia de belo; e também considerando a sua teoria da participação - objectivos sensíveis participam das formas imutáveis; o que é, afinal, o realismo estético platónico? Cito: "Assim, o que Platão defende é o realismo estético, não o objectivismo estético(...)".

    Agora, que esta distinção entre objectivismo/subjectivismo estéticos aparece algo, diria, forçada em manuais, isso sim. E mesmo considerando a abordagem posterior, a kantiana, no subjectivismo estético.

    É com agrado que reconheço no 50LF um sério e honesto trabalho, felicito-vos por isso.

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    1. Olá, Luís

      Obrigado pelas suas palavras. Procuramos fazer o melhor, e estamos sempre abertos a melhorar e corrigir o nosso trabalho.

      Por realismo estético entende-se a ideia de a beleza ter existência independente de nós. Por objectivismo estético entende-se a ideia de a beleza estar nos objectos sensíveis. Platão é um realista porque considera que a beleza existe independentemente de nós, no mundo das ideias. Mas não é objectivista porque não entende que a beleza esteja nos objectos sensíveis (excepto, claro, derivadamente, porque os objectos sensíveis participam da ideia de beleza).

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  3. Obrigado, Luís, pelos comentários. Peço desculpa só agora reagir, mas tenho passo estes dois dias quase sempre fora de casa.

    Pergunta o Luís o que é o realismo. O realismo é a tese que afirma a existência de algo independentemente do que pensamos, sentimos, acreditamos, etc. a seu respeito. Sendo assim, quem é objectivista é, neste sentido, também realista. Mas nem todo o realista é objectivista, como é precisamente o caso de Platão acerca não só da beleza mas de universais em geral. Isto porque Platão sustenta que a beleza (como qualquer outro universal) tem uma existência real e independente da mente (e, já agora, independente da linguagem ou do nosso aparato conceptual). Mas onde estão esses universais, como a beleza? Nos objectos sensíveis do mundo físico? A resposta é que não estão nem na nossa mente nem nos objectos físicos, mas num mundo à parte: o mundo das ideias, que nada tem que ver com as ideias em sentido psicológico.

    Em suma, Platão é realista, mas de maneira nenhuma objectivista. Este tipo de realismo platónico é, por vezes, designado como realismo transcendente e opõe-se claramente ao realismo imanente de Aristóteles, esse sim, objectivista.

    Um abraço,



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  4. Oops, escrever à pressa e publicar logo a seguir dá nisto. Peço desculpa pelo uso atabalhoado do teclado, logo a abrir.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Grato pela resposta, Aires, ainda que tardia.
    Felicito-o, também, pelo trabalho.

    Já me tinha entendido com o Desidério em relação a esses termos. Tinha também já partilhado a minha suspeita em relação a esta temática, assim que a encontrei explanada em manuais de filosofia.
    O Aires tem alguma coisa a acrescentar em relação à teoria da participação como contra-argumento? "Existem coisas belas, porque participam da ideia/forma de beleza".
    Ou, será que, em relação ao belo, devemos apenas julgar a sua forma imutável e eterna que reside, obviamente, no mundo inteligível? Forma esta e a sua existência independente de nós, daí o realismo.

    Inclino-me, como havia dito ao Desidério em comentários acima, a concordar com o as vossas conclusões. Sublinho que esta dicotomia (objectivismo/subjectivismo) nos conteúdos da estética, cheira um pouco a forçada.

    Para finalizar, parece-me que estes conteúdos e interessantes textos estão a chegar, paulatinamente, ao debate público, principalmente pela discussão gerada aqui no blog e até na própria rede social. Ora, parece-me que este texto, entre outros, deveria ser lido por todos os professores que se encontram, neste exacto momento, a ensinar a seus alunos um suposto objectivismo platónico em relação à estética, ao belo.

    Mais uma vez vos congratulo pelo trabalho e a aposta, que entretanto tive oportunidade de verificar, no prezi. Tenho usado essa ferramenta e, de facto, tem qualidades didácticas imensas.

    Abraço,

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