Boa vontade ou vontade boa?


No contexto da ética kantiana — mais precisamente da sua teoria do bem — deve-se falar de vontade boa ou, em vez disso, de boa vontade? Ou será que tanto faz?  

A expressão original alemã usada por Kant é «guter Wille» e é tão adequado traduzir esta expressão por «boa vontade» como por «vontade boa». Isso mesmo pode ser confirmado no índice remissivo da tradução portuguesa da Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Edições 70), onde são dadas como expressões sinónimas. Assim, ninguém que use uma ou outra estará a cometer qualquer erro ou imprecisão, do mesmo modo que ninguém erra se utilizar a expressão «pessoa boa» em vez de «boa pessoa», ou «múltipla escolha» em vez de «escolha múltipla».

Nós, autores, discutimos isso cuidadosamente — como, de resto, quase tudo no manual —  e acabámos por optar por «vontade boa». Haverá alguma razão para isso? 

Sim, há. Pensamos que, embora correcta, a expressão «boa vontade» pode, em certos contextos, dar origem a alguma confusão. Em português, a expressão «boa-vontade» diz respeito a uma inclinação que algumas pessoas têm, e outras não, no sentido de serem caridosas ou terem empatia pelas outras, por exemplo. Ora, do ponto de vista de Kant, o que conta moralmente não são as inclinações. Assim, uma pessoa que faz algo por boa-vontade mas não por sentido do dever não tem uma vontade boa, tem apenas boa-vontade. Pense-se, por exemplo, numa mãe que pede ajuda ao filho e comenta que ele a está a ajudar de má-vontade. Isto normalmente quer dizer que o filho está a ajudá-la sem prazer; apenas por obrigação. A ideia é que se o filho a ajudasse de boa-vontade, não sentiria isso como uma obrigação (ou dever). Ora, neste contexto, a expressão «boa-vontade» parece até algo anti-kantiana.

Em suma, ao optarmos por «vontade boa» (apesar de «boa vontade» ser igualmente correcto), estamos a ajudar o aluno a não confundir o conceito de Kant com o conceito popular de boa-vontade.

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