As mulheres são louras ou não?

O professor Rolando Almeida chama a atenção aqui para a ideia incorrecta de que o subjectivismo quanto aos valores se opõe à tese de que todos os valores são objectivos. Ele correctamente faz notar que a negação da tese de que os valores são subjectivos (a tese subjectivista) não é a tese de que os valores são objectivos, mas antes que alguns valores não são subjectivos. 

Mas a questão aqui não é apenas um deslize de lógica. Apesar de ser de esperar de uma pessoa formada em filosofia que não cometa deslizes elementares de lógica, qualquer pessoa pode cometer erros de pormenor lógico. É tão intuitivo pensar que a negação da tese "Os valores são subjectivos" é a tese "Os valores são objectivos" (= "Os valores não são subjectivos"), que não estranho muito que mesmo uma pessoa com formação filosófica cometa este deslize.

O que considero muitíssimo mais grave é o seguinte. Pondo de lado a questão de saber qual é a negação correcta da tese de que os valores são subjectivos, é uma enormidade filosófica e conceptual (e não um mero deslize lógico) considerar que no debate sobre a objectividade dos valores só há duas teses relevantes em confronto:

1) Os valores são subjectivos
2) Os valores não são subjectivos (= são objectivos)

Isto é uma enormidade porque seria como duas pessoas a discutir se as mulheres são louras, como se só houvesse as seguintes duas alternativas:

3) As mulheres são louras
4) As mulheres não são louras

Com este exemplo percebe-se imediatamente que se trataria de uma conversa de bêbados, pois falta uma terceira tese, que ainda por cima é a mais plausível: que algumas mulheres são louras e outras não.

Ora, isto é exactamente o que acontece no caso dos valores: no espaço conceptual não existem apenas as alternativas 1 e 2 acima, há também a alternativa (mais plausível, por sinal) de que alguns valores são subjectivos e outros não. Não se aperceber desta alternativa conceptual não é um mero deslize de lógica, que todos podemos cometer. É uma enormidade intelectual, que nenhum professor, e ainda menos um autor de livros escolares, deveria cometer.

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