O que somos nós?


Acaba de ser publicado um novo livro de Richard Swinburne, um dos mais importantes filósofos contemporâneos e que, apesar da sua idade (nasceu em 1938, tem portanto 78 anos), continua muitíssimo ativo. Swinburne é conhecido entre nós devido ao livro Será Que Deus Existe?, publicado na Filosofia Aberta da Gradiva; na antologia Textos e Problemas de Filosofia (Plátano) encontramos também um excerto de outro livro seu, The Existence of God. Contudo, a maior parte da sua obra e pensamento continua largamente por descobrir entre nós. 

O seu novo livro tem por título Mind, Brain, and Free Will (mente, cérebro e livre-arbítrio). Com oito capítulos e pouco mais de 240 páginas, este é um livro sobre o que somos nós; como explica Swinburne na Introdução,
"O ponto fulcral deste livro é a natureza dos seres humanos — se somos apenas máquinas complicadas ou antes almas que interagem com corpos; e o que se segue disto no que respeita a termos livre-arbítrio num sentido que nos torne moralmente responsáveis pelas nossas ações."
Swinburne acrescenta então estar convicto de que estas questões centrais não podem ser adequadamente abordadas sem esclarecer vários problemas gerais de metafísica e ontologia. Deste modo, o primeiro capítulo começa precisamente por explorar algumas questões metafísicas, mais especificamente a questão ontológica central: que tipos mais gerais de coisas há? Swinburne é bastante conservador a este respeito e reconhece três tipos de coisas: substâncias, propriedades e acontecimentos. O crucial, contudo, são os critérios que Swinburne procura estabelecer para que algo seja uma substância, uma propriedade ou um acontecimento. É na posse de tais critérios que Swinburne poderá então explorar a questão de saber se os acontecimentos mentais (como ter medo) são idênticos a acontecimentos cerebrais (correntes elétricas e estados neuronais). 

O capítulo segundo é dedicado à epistemologia, e tem como tema central o problema do que faz uma dada crença (numa teoria científica, por exemplo, ou na ocorrência de um dado acontecimento) ser racional em vez de irracional (ou justificada em vez de injustificada). Com base nos resultados apresentados nos primeiros dois capítulos, Swinburne passa então a estudar os temas centrais do seu livro, defendendo, entre outras teses, que há dois tipos de acontecimentos no mundo (físicos e mentais), havendo relações causais nas duas direções (alguns acontecimentos mentais causam acontecimentos físicos, e vice-versa). As pessoas são substâncias e causam acontecimentos físicos, segundo Swinburne, o que significa que ele defende o dualismo da substância, tal como Descartes, e apesar de esta tese ser hoje muitíssimo impopular entre os filósofos. Swinburne defende também uma posição libertista, segundo a qual ter livre-arbítrio é dar início a uma nova cadeia causal sem que as cadeias causais anteriores tenham determinado a nossa escolha. Swinburne não defende que o livre-arbítrio está sempre presente quando agimos, mas que está presente apenas por vezes (nomeadamente, quando decidimos cuidadosamente o que fazer). Precisamente porque somos dotados de um livre-arbítrio libertista, Swinburne defende que nestas decisões somos realmente responsáveis moralmente, no sentido mais forte do termo, pelo que fazemos. 

Este é, pois, um livro pleno de ideias corajosas, estando a sua novidade não nelas mesmas, que são amplamente conhecidas na história da filosofia, mas na maneira de as defender com os recursos da filosofia contemporânea. E, como é de seu costume, Swinburne escreve com clareza e simplicidade, sem contudo sacrificar rigor concetual e lógico. Uma leitura muitíssimo recomendada para professores, que não apenas complementará a sua formação para lecionar o tema do livre-arbítrio e da ação humana, no 10.º ano, mas também alimentará a sua curiosidade intelectual e contribuirá para a sua formação humana.

Comentários

  1. Muito interessante!

    Gostaria de deixar o link da minha dissertação cujo título é "O LIVRE-ARBÍTRIO EM JOHN R. SEARLE: UMA CONTRAPOSIÇÃO DO NATURALISMO BIOLÓGICO AO FISICALISMO E AO FUNCIONALISMO". Nela defendo que o naturalismo biológico de John Searle se apresenta
    como uma alternativa mais viável que as correntes fisicalistas e funcionalistas nas pesquisas que tratam da questão do livre-arbítrio.

    https://repositorio.ucs.br/xmlui/bitstream/handle/11338/859/Dissertacao%20Daniel%20Pires%20Nunes.pdf;jsessionid=452939CA0434AEFFD17A877B3FDEB12B?sequence=1

    Um abraço!

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