O quadrado de oposição e o problema do livre-arbítrio

A afirmação «As nossas acções são livres» é particular ou universal? Parece não haver grandes dúvidas que é uma afirmação universal. 

Ora, qual é a negação da afirmação de que as nossas acções são livres? Como se pode confirmar pelo quadrado de oposição, a negação de «As nossas acções são livres» é uma particular negativa, mais precisamente: «Algumas das nossas acções não são livres».

Assim, se me perguntarem se as nossas acções são livres e eu responder que não, isso implica que não sou determinista moderado? A resposta é que não implica tal coisa, pois posso — como muitos deterministas moderados — defender que algumas das nossas acções são livres e que outras não o são. 

Mas isto sugere que a maneira correcta de formular o problema do livre-arbítrio talvez não seja por meio da pergunta «As nossas acções são livres?» Em vez disso, seria mais adequado perguntar «Temos livre-arbítrio?»

Ora, não é a mesma coisa perguntar se as nossas acções são livres e perguntar se temos livre-arbítrio. A diferença é que estas duas formulações nem sempre recebem respostas iguais, como se pode ver a seguir:



Determinista moderado
Determinista radical
Libertista
As nossas acções são livres?
NÃO
NÃO
SIM
Temos livre-arbítrio?
SIM
NÃO
SIM

Assim, precisamos de decidir qual a pergunta mais adequada, dado que não é indiferente optar por uma ou por outra.

Parece-me que a pergunta mais adequada é «Temos livre-arbítrio?» ou, o que vai dar ao mesmo, «Há livre-arbítrio?»

Não vos parece?

Comentários

  1. Olá Aires, o que é que eu estou a ver erradamente que me faz pensar que no 1º espaço deveria estar SIM/NÃO. isto porque para o determinista moderado pelo menos algumas das nossas acções são livres. Ou não?

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  2. Olá, Rolando. Como comecei por dizer, a afirmação «As nossas acções são livres» é universal. Ora, como tu próprio dizes, os deterministas moderados defendem apenas que algumas acções são livres (particular). Quer dizer, os deterministas moderados não defendem que todas as nossas acções são livres. Logo, não respondem que sim à pergunta «As nossas acções são livres?»

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  3. Olá, Rolando e Aires. Aparentemente, o libertista não terá problema em admitir que algumas ações (talvez algumas poucas ações) não são livres. Ou estou errado?

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  4. A pergunta "temos livre-arbítrio?" não é melhor do que "as acções são livres?". Isto porque o conceito de livre-arbítrio esconde uma subtileza, podendo ser entendido de duas maneiras: ou como a tese de que todas as nossas acções são livres, ou como a tese de que algumas das nossas acções são livres. Entender o livre-arbítrio da primeira maneira é abusivo, dado que, como viu logo o Matheus, uma pessoa pode perfeitamente ser libertista e considerar que nem todas as nossas acções são livres, apesar de pensar que algumas o são.

    Eu acho que a pergunta mais clara a fazer é esta: "Algumas das nossas acções são livres?" O determinista radical diz que não; o compatibilista e o libertista dizem que sim. Agora, o libertista radical (como Sartre parece sê-lo), afirma que agir é inevitavelmente agir em liberdade, pelo que concorda que algumas das nossas acções são livres, mas defende também que todas o são. Por exemplo, quando uma pessoa nos aponta uma pistola, o libertista insiste que temos a liberdade de fazer o que ela quer ou não, sofrendo então a consequência de levar um tiro -- mas somos à mesma livres, radicalmente livres.

    Voltando ao quadrado de oposição, o determinista radical defende que nenhuma das nossas acções é livre; esta tese é a contraditória da tese de que algumas das nossas acções são livres. E é aqui que encontramos tanto o libertista como o determinista moderado.

    A oposição entre o libertista e o determinista moderado não é que o primeiro defende que todas as nossas acções são livres e o segundo que só algumas o são. Ambos podem defender ambas as teses. A diferença é que o libertista (seja radical seja moderado) considera que a liberdade é incompatível com o determinismo natural, ao passo que o determinista moderado considera que essa incompatibilidade não existe.

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  5. Portanto, voltando à tabela do Aires, o determinista moderado tanto pode defender que todas as nossas acções são livres como pode defender que só algumas o são. E o mesmo acontece com o libertista. Conceptualmente, há espaço para os dois tipos de posição. Por isso, não se capta a diferença entre determinismo moderado e libertismo desse modo. A diferença entre ambos diz respeito exclusivamente à tese da incompatibilidade entre liberdade e determinismo: um nega-a, o outro aceita-a.

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  6. Ok, vou tentar responder ao Matheus e ao Desidério ao mesmo tempo. Começo pela última coisa que o Desidério disse: que a pergunta mais precisa seria qualquer coisa como "Será o livre arbítrio compatível com o determinismo?". Concordo com o Desidério e até já discutimos isso várias vezes. Só que a resposta a esta pergunta diz-nos só uma parte do que queremos saber, pois posso responder que sim (ou que não) e ficar sem saber se temos ou não livre arbítrio. Ora, penso que é isto mesmo que queremos saber, pois estamos interessados em saber se somos responsáveis pelo que fazemos e outras coisas do tipo, o que não podemos saber apenas respondendo à questão da compatibilidade ou incompatibilidade. Assim, esta proposta teria de incluir duas perguntas e não uma.

    Ora, eu pretendia apenas uma pergunta, a pergunta em que estamos realmente interessados: se temos ou não livre arbítrio. Claro que isto tem o ligeiro inconveniente sugerido pelo Matheus e reforçado pelo Desidério, pois é conceptualmente possível defender-se, por exemplo, o compatibilismo e, ainda assim, não defender que algumas das nossas acções são livres. Já quanto ao libertismo não tenho tanto a certeza, apesar de entender o alcance da objecção do Matheus. Mas vamos supor que sim, que o libertista pode defender que algumas das nossas acções não são livres. O problema é encontrar exemplos históricos desses. Claro que o plano conceptual tem filosoficamente mais relevância do que o plano histórico, pelo que, na nossa formulação dos problemas filosóficos, se deve privilegiar o primeiro em detrimento do segundo. Tudo bem, até acompanho-vos.

    Só que agora fico a pensar por que razão não há exemplos de libertistas (ou há?) que defendam a tese de que algumas das nossas acções não são livres. E, pensando melhor nisso, parece-me que não tais exemplos pela mesma razão que não há deterministas radicais que defendam que algumas das acções são livres. Quer dizer, creio que o libertismo é a tese simétrica do determinismo radical. Assim, aquilo a que o Desidério chama libertista moderado seria diferente do determinista moderado em quê? A resposta é que o libertista seria incompatibilista, mas o determinista moderado não. Mas que justificação teria o libertista para defender que algumas acções não seriam livres? Poderá ele dar uma justificação que não contenha elementos de carácter determinístico?

    Talvez haja apenas uma escapatória: aleatoriedade. O que vos parece?

    Já agora, Desidério, a pergunta que propões não é diferente da que eu proponho. Tu propões "Algumas das nossas acções são livres?". Eu propus "Temos livre arbítrio?", ou, o que vai dar ao mesmo "Há acções livres?". Qual é a diferença?

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    1. Começando pelo fim, a diferença é que a pergunta "Temos livre-arbítrio?" depende de como se concebe o livre-arbítrio: tese 1) só temos livre-arbítrio se todas as nossas acções forem livres, tese 2) basta que algumas das nossas acções sejam livres para que tenhamos livre-arbítrio. A tese 2 é mais plausível do que a 1, claro, mas ambas estão ocultas no conceito de livre-arbítrio. Perguntar directamente "Há acções livres?" é mais directo e claro.

      Se o teu objectivo é uma pergunta única, acho que não é possível. Porque há no problema do livre-arbítrio duas questões muitíssimo diferentes.

      A primeira é a mais fácil de entender: há acções livres? Pessoalmente, não penso sequer que se possa responder a isto filosoficamente de maneira adequada, pois é uma pergunta empírica. O que há de filosófico na pergunta é o conceito de acção livre, que está longe de ser fácil caracterizar adequadamente. Mas a questão é crucialmente empírica, do meu ponto de vista, e consequentemente não é filosófica.

      A segunda é mais difícil de entender, e algo mais lateral, mas esta é a que me parece mais genuinamente filosófica: o determinismo natural é compatível com a existência de acções livres? Este é um problema tipicamente filosófico, é um problema de compatibilidade conceptual entre o conceito de determinismo natural (que não é também fácil de caracterizar adequadamente de maneira rigorosa) e o conceito de acção livre.

      Concordo que intuitivamente é a primeira pergunta a mais cativante. Mas penso que é a segunda que é mais filosófica.

      Em qualquer caso, temos de dar atenção às duas, pois sem ambas não se consegue ver quais são as diferenças relevantes entre as diferentes posições filosóficas.

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  7. Bom, acho a tua primeira interpretação um bocado forçada. Quando perguntamos se temos livre arbítrio fazemos o mesmo que quando perguntamos se temos conhecimento empírico ou se temos dinheiro no bolso, isto é, se temos algum dinheiro no bolso, não o bolso cheio de dinheiro.

    Quanto ao resto, concordo contigo que as questões conceptuais são as filosoficamente relevantes. Mas se estamos a caracterizar as posições que os filósofos realmente têm defendido em relação ao problema do livre arbítrio, parece-me didacticamente mais adequado começar por aí e depois descobrir os problemas conceptuais que isso envolve. Até porque é aí que se encontram algumas das objecções mais fortes às posições de alguns filósofos.

    E não me contraries, senão zango-me :-)

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    1. A diferença é que uma pessoa pode ter um conceito de livre-arbítrio tal que não seja possível tê-lo pela metade, digamos assim: se o temos, estamos condenados a tê-lo em todas as circunstâncias. Outra pessoa pode contestar isto, e defender que podemos perfeitamente ter livre-arbítrio em algumas acções, mas não noutras.

      Bom, mas uma coisa é certa: quer usemos a pergunta "Temos livre-arbítrio?" quer usemos a pergunta "As nossas acções são livres?" ganhamos em compreender que a única posição completamente inequívoca é a do determinista radical, que defende que nenhuma acção é livre. Ora, a tese contraditória desta é afirmar que algumas acções são livres e a contrária que todas o são.

      O que não me parece correcto é identificar a tese contraditória com o determinismo moderado e a contrária com o libertismo. Um determinista moderado pode perfeitamente defender que todas as nossas acções são livres (o que não é livre, não é sequer uma acção, como um reflexo, uma queda, a digestão, etc.); o que o opõe ao libertista é a tese da compatibilidade entre isto e o determinismo causal universal, que o libertista rejeita.

      Assim, se queremos distinguir o determinista radical dos outros, a tese relevante a ter em vista é que nenhuma acção é livre, e aí vemos que tanto podemos negar isto estritamente, defendendo a contraditória, como rejeitá-la porque defendemos apenas a contrária. Se agora queremos distinguir o libertista do determinista moderado, o ponto fundamental é que um é compatibilista e o outro não. Na verdade, talvez seja possível fazer uma tabela ainda mais informativa, vou pensar nisso, uma representação visual disto:

      1) O libertista e o determinista radical concordam numa tese (incompatibilidade), mas discordam de outra tese (há livre-arbítrio);

      2) O libertista e o determinista moderado concordam numa tese (há livre-arbítrio), mas discordam de outra (incompatibilidade);

      3) O determinista moderado e o radical discordam em duas teses (incompatibilismo e que há livre-arbítrio).

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  8. É muito difícil responder a questão “Há ações livres?”, mas a questão “Há algumas ações que não são livres?” parece mais fácil de ser respondida. De fato, eu penso que a resposta é positiva e todos nós conhecemos casos do cotidiano que servem como indícios anedóticos a favor dessa afirmativa – cleptomaníacos, por exemplo. Há também boas razões extraídas da ciência. Oliver Sacks em “O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu” apresenta um caso clínico de um homem que depois de desenvolver certos problemas no cérebro assumiu um comportamento maníaco. A única maneira de controlar o seu ímpeto assassino era utilizar um marca-passo no cérebro. Se isso não é um indício conclusivo a favor de que há ações que não são livres eu não sei o que é. Portanto, em minha infinita leiguiçe, penso que podemos considerar como refutado o libertismo radical.

    A analogia do Aires com o dinheiro é estranha. Intuitivamente, quando queremos saber se uma pessoa tem a capacidade de agir livremente não queremos saber se ela pode agir um pouco ou mais ou menos livremente. O conceito de livre arbítrio parece funcionar como um interruptor que apenas liga ou desliga: ou é uma pessoa é livre ou não é livre. Ninguém é mais ou menos livre, assim como uma mulher não é mais ou menos grávida ou uma proposição não é mais ou menos verdadeira. Por outro lado, parece perfeitamente aceitável nos perguntar se algumas de nossas ações são livres. Isso parece mostrar que o conceito de livre-arbítrio tal como é comumente entendido revela uma preferência pelo libertismo radical e pela tese (1). Serão essas intuições derivadas de preconceitos de teologia? Eu não sei. Não me deixem fazer filosofia de buteco e estragar a discussão do post que está boa!

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    1. Provavelmente, Matheus, as "acções" de um cleptomaníaco são falsas acções, e não acções genuínas, tal como falso conhecimento não é conhecimento.

      A dificuldade é que o conceito de acção já parece incluir o de agente que faz algo. Ora, meros reflexos ou automatismos, ainda que sejam claramente acontecimentos, não são claramente acções. Age, genuinamente, um cleptomaníaco ou um sonâmbulo? Ou apenas parece que eles agem, mas não se trata de acções genuínas? Não é implausível defender que uma acção, para ser realmente uma acção, tem de ser livre -- caso contrário é apenas algo que acontece.

      Assim, eis dois aspectos filosoficamente centrais do debate sobre o livre-arbítrio: clarificar o conceito de acção e o conceito de livre-arbítrio. Como em muitas outras áreas da filosofia, temos casos claros de acontecimentos que não são acções e de outros que o são, e casos claros de livre-arbítrio e de ausência dele, mas não temos caracterizações suficientemente robustas e ao mesmo tempo informativas que permitam resolver casos de fronteira.

      É por esta razão que a investigação empírica actual sobre o livre-arbítrio é muitas vezes irrelevante: os cientistas usam muitas vezes um conceito ingénuo e largamente irrelevante de livre-arbítrio, pelo que as suas conclusões são igualmente irrelevantes. Não quer dizer que isso não venha a ser corrigido, mas este é um caso em que é difícil fazer boa investigação científica sem informação filosófica.

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    2. Concordo inteiramente em todos os pontos.

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