Williamson sobre a natureza da filosofia


"Imagine-se uma conferência de filosofia na Grécia dos pré-socráticos. A questão do dia é: as coisas são feitas de quê? Os seguidores de Tales dizem que tudo é feito de água, os de Anaximandro que tudo é feito de ar e os seguidores de Heraclito que tudo é feito de fogo. Ninguém vê muito claramente o que estas afirmações querem dizer; alguns põem até em causa se os fundadores das respetivas escolas alguma vez as fizeram. Mas entre os apoiantes fala-se muito sobre o emocionante progresso recente. Aqueles que troçam e duvidam também falam muito. Sublinham que não se vislumbra qualquer resolução para a disputa entre as escolas. Consideram que Tales, Anaximandro e Heraclito sofrem de uma tendência para generalizar excessivamente. É sensato perguntar de que é feito pão, ou as casas, mas perguntar de que são feitas as coisas em geral é destituído de sentido, sugerem, porque a pergunta é feita sem qualquer conceção de como fazer para verificar se uma dada resposta é correta; a linguagem foi de férias. Os pragmatistas daquele tempo convidam toda a gente a relaxar, esquecer as suas pseudoinvestigações fúteis e fazer ao invés algo útil.

Naquele tempo era muito fácil troçar e duvidar da filosofia, mas hoje sabemos que, pelo menos num aspecto importante, não tinham razão. Apesar de toda a confusão, Tales e os outros estavam a fazer uma das perguntas mais importantes que alguma vez se fez, uma pergunta que conduziu, depois de muito trabalho árduo, a grande parte da ciência moderna. Abandonar tal pergunta há dois mil e quinhentos anos devido à sua incoerência conceptual ou por outra razão teria sido rendermo-nos anémica e desnecessariamente ao desespero, estreiteza de espírito, cobardia ou indolência. Contudo, é igualmente claro que os métodos de investigação usados pelos pré-socráticos eram totalmente inadequados relativamente às suas ambições. Se uma tradição intelectual aplicasse apenas esses métodos a tais perguntas durante dois mil e quinhentos anos, o que está longe de ser inimaginável, poderia muito bem não ter avançado um só passo. Grande parte do progresso alcançado desde o tempo dos pré-socráticos consiste no desenvolvimento de métodos para fazer intervir a experiência em perguntas que, quando as fazemos, parecem irremediavelmente esquivas e ingénuas. Mas é claro que progredir envolve também aprimorar e clarificar a pergunta inicial: porém, no início não se pode prever todos os aprimoramentos e clarificações. Estes surgem no processo de tentar responder à pergunta original grosseira, e não surgiriam de outro modo. 

Os pré-socráticos foram os precursores tanto da filosofia como da ciência modernas; não distinguiam as ciências da natureza da filosofia. Para os positivistas, a moral da história é que foi preciso separar a filosofia das ciências da natureza, tratando as estas últimas como um campo em que se aplica a observação, a medição e a experimentação, antes de termos podido progredir seriamente. Há sem dúvida algo de correto nesta ideia, apesar de, tal como se apresenta, dificilmente fazer justiça à importância dos métodos raciocinativos nas ciências da natureza, nomeadamente o uso da matemática e das experiências mentais, em Galileu e Einstein, por exemplo. Além disso, a ideia positivista não dá atenção a um aspecto metodológico mais profundo. O caso dos pré-socráticos mostra que não podemos sempre prever a que perguntas será profícuo tentar responder. Mesmo que uma comunidade comece sem qualquer ideia remotamente adequada de como responder a uma dada pergunta, não se conclui que esta é destituída de sentido ou que não vale a pena enfrentá-la. Isto aplica-se tanto às perguntas que hoje classificamos como filosóficas quanto às que hoje classificamos como empíricas ou das ciências da natureza.

Quem se opõe à teorização filosófica sistemática poderá responder que não estão a ajuizar as perguntas filosóficas antes de estas serem desenvolvidas; estão a ajuizá-las depois de dois milénios e meio de fúteis tentativas de resposta. […]

Não devemos ser demasiado pessimistas quanto à resposta […]. Em muitas áreas da filosofia, sabemos muito mais em 2007 do que se sabia em 1957; e sabia-se muito mais em 1957 do que em 1907; e muito mais se sabia em 1907 do que em 1857. Tal como acontece nas ciências da natureza, numa comunidade podemos coletivamente saber algo mesmo que isso seja ocasionalmente rejeitado por membros excêntricos dessa mesma comunidade. Apesar de a discordância fundamental ser conspícua na maior parte das áreas da filosofia, as melhores teorias numa dada área estão em muitos casos muitíssimo mais bem desenvolvidas em 2007 do que as melhores teorias dessa área o estavam em 1957, e assim por diante."

Timothy Williamson, A Filosofia da Filosofia (2007), trad. D. Murcho, pp. 278-279

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