Tao Te Ching ou Daodejing?

Duas novas traduções recentes da obra clássica do taoismo relembram-nos a dificuldade que é compreender a cultura chinesa, devido às diferenças linguísticas profundas que nos separam. Tudo começa logo pelo próprio título da obra: tradicionalmente conhecida na Europa por Tao Te Ching, é mais recentemente referida como Daodejing, segundo as novas normas de transliteração do chinês para o nosso alfabeto fonético. O próprio nome do autor passou do mais conhecido Lao Tsé (por vezes também Lao Tzu) para Laozi. 

Só no séc. XIX esta obra foi pela primeira vez traduzida numa língua europeia, o francês, mas desde então não tem parado de exercer um forte fascínio entre os leitores. Sendo uma obra a um tempo poética e filosófica, é fascinante não apenas pela sua estranheza mas também por comunicar uma comunhão religiosa, ou próximo disso, com uma realidade mais profunda que subjaz às aparências superficiais. O tema da distinção entre a aparência e a realidade não é, evidentemente, novidade no pensamento filosófico europeu (e é até defensável que se trata de uma distinção de tal modo central que nenhum pensamento sofisticado pode ignorá-la); se quisermos recuar a um dos textos fundadores da tradição filosófica europeia, encontramos em Parménides a insistência de que a via da aparência não deve ser confundida com a via do que genuinamente é, ou do ser. E Platão tornou vívido o contraste na famosa alegoria da caverna. Contudo, em Daodejing encontramos uma abordagem cativante e algo misteriosa desse tema comum.
Quem foi realmente o autor de Daodejing, e quando foi esta obra escrita? Não se sabe ao certo. Laozi significa apenas "velho mestre" em chinês, não se sabendo ao certo quem era essa pessoa, ou sequer se existiu uma só pessoa que tenha sido o autor dessa obra. Sabe-se que por volta de 800 a.C. circulavam já exemplares de Daodejing, título que significa apenas algo como "O Cânone Clássico da Via ou Caminho". O caráter poético e muito sintético da obra torna a sua interpretação e compreensão, mesmo em chinês, difícil. Além disso, no chinês literário clássico, tal como acontecia com o grego da antiguidade, não se usava vírgulas nem pontos nem outras marcas gráficas para assinalar períodos, frases e parentéticas. Esta ausência, noutros textos menos complexos, não levanta dificuldades; no Daodejing, contudo, as dificuldades são imensas. 

Tudo o que pode fazer quem não domina o chinês é deitar mão das novas traduções eruditas que vão surgindo, como é o caso da publicada na Oxford Classics, de Edmund Ryden, antecedida por uma esclarecedora introdução de Benjamin Penny. Como exemplo das diferenças de interpretação e tradução, compare-se a versão de Ryden com a tradução popular recente de Aaron Scott Brachfeld.

Tradução de Ryden

Podes falar das vias,
mas não da Via Perene.
Usando nomes podes nomear,
mas não podes nomear o Nome Perene.

O sem nome é a origem da miríade de coisas;
o que tem nome é a mãe da miríade de coisas.

Consequentemente,
liberta-te do desejo, para contemplares a sua obscuridade; entrega-te ao desejo, para contemplares o que ela deseja.

Ambos se revelam o mesmo, mas são nomeados como opostos,
Sendo o mesmo, denominam-se "abstruso".
O abstruso do abstruso é o pórtico para toda a obscuridade.

Tradução de Brachfeld

O bem que pode ser descrito não é o verdadeiro bem, tal como um nome que possa ser nomeado não é um verdadeiro nome. O sem nome deu origem ao universo, o que tem nome deu origem às incontáveis coisas que o universo contém. Quando não temos desejos, apercebemo-nos do mistério, quando desejamos, apercebemo-nos das manifestações. Tanto o desejo como o sem desejo vêm da mesma fonte, ainda que difiram nos seus nomes. Esta fonte é percebida como trevas, trevas nas trevas, um pórtico para o mistério.

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