A fundamentação da moral


Imagine-se que um cavalo dá um coice numa pessoa e a fere gravemente. Nada de imoral foi feito porque o cavalo não tem qualquer noção do bem e do mal; não distingue as ações moralmente corretas das incorretas. Isto significa que o cavalo não é um agente moral. 

Imagine-se agora que um ser humano comum dá um pontapé forte numa pessoa e a fere gravemente. Neste caso, algo de imoral foi feito porque os seres humanos comuns são agentes morais: temos noção do bem e do mal. Isto significa que consideramos que umas ações são corretas e outras incorretas. 

Precisamente porque somos agentes morais, vivemos em sociedades que têm vários códigos de comportamento, a que chamamos «moral». Por exemplo, no código de comportamento da sociedade portuguesa de há cinquenta anos, era imoral usar minissaia; hoje, não é imoral. Mas como podemos distinguir entre os códigos morais adequados e os inadequados? A filosofia moral ou ética é a área da filosofia que visa responder a esta pergunta, entre outras. 

Para responder a esta pergunta, precisamos de saber o que distingue as ações moralmente corretas das incorretas. Tanto o subjetivista moral como o relativista pensam que não há critérios objetivos para fazer essa distinção; o objetivista, pelo contrário, pensa que há. Mas se há, quais são? 

Imagine-se que a Joana defende que as mulheres devem ter privilégios especiais. Por exemplo, quando estamos na bicha para comprar bilhetes para o cinema, as mulheres devem entrar primeiro. Quando lhe perguntamos porquê, ela responde que deve ser assim porque lhe apetece. Como é óbvio, a justificação da Joana não é adequada. Mas seria adequada se ela invocasse, por exemplo, as tradições da sua sociedade? 

Quando as pessoas se opunham ao uso da minissaia, considerando-o imoral, era isso mesmo que faziam: invocavam as tradições. Contudo, esta não parece uma justificação muito boa da imoralidade da minissaia. Porquê? Porque falta ainda saber se há boas justificações para essas tradições. Se não houver, a tradição não justifica adequadamente a imoralidade da minissaia; e, se houver, são essas justificações que contam, e não as próprias tradições. 

O mesmo acontece quando as pessoas justificam a proibição da escravatura dizendo que viola os direitos humanos. Neste caso, tudo depende de haver ou não boas justificações para defender os direitos humanos. Enquanto não soubermos que justificações são essas, não justificámos adequadamente a proibição da escravatura. 

Assim, o problema da fundamentação da moral é este: como se justifica adequadamente ideias ou convicções morais?

Comentários

  1. Este texto é um excerto do próprio manual, que dentro de dias poderá ser consultado e analisado pelos professores. O manual é acompanhado de um Livro de Apoio generoso, do qual apresentaremos aqui também alguns excertos.

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