terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O Banquete e a noção platónica de conhecimento

Sócrates — Que dizes, Diotima, então Eros é feio e mau?
Diotima — Vê lá o que dizes! Julgas, por acaso, que o que não é belo deve ser necessariamente feio?
Sócrates — Com certeza!
Diotima — Julgas que quem não é sábio é ignorante, e desconheces que existe um meio termo entre a sabedoria e a ignorância?
Sócrates — Que meio termo é esse?
Diotima — Não sabes que a opinião acertada sem conveniente justificação não é sabedoria — pois como poderia uma coisa ser sabedoria se não sabemos fundamentá-la? e também não é ignorância, porque o que atinge a verdade não pode ser ignorância? A opinião verdadeira é, por conseguinte, como que um meio termo entre a sabedoria e a ignorância.
Sócrates — Sinto que falas a verdade!
Diotima — Não concluas, então, apressadamente, que o que não é belo é feio, e que o que não é bom é mau. Assim se passa com Eros: não julgues, porque tu próprio reconheces que o que não é belo nem bom seja necessariamente feio ou mau. Ele é algo de intermédio entre dois extremos.
Platão, O Simpósio (ou O Banquete), 201e-202b. Trad. de Pinharanda Gomes

domingo, 25 de janeiro de 2015

Estética e ética

Estética e ética: que relação? é o título da palestra que irei dar na Escola Secundária Romeu Correia, no Feijó (Almada), a convite do seu grupo de Filosofia. É já na próxima quinta-feira, dia 29 de janeiro, às 15:30h, no auditório da escola.  

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão

"Prefiro morrer de pé a viver de joelhos"
Charb, o cartoonista do semanário Chrlie Hebdo, hoje assassinado em Paris.
Proibir a publicação e divulgação de ideias devido às suas consequências dá um poder excessivo e ilegítimo a qualquer grupo violento. Tudo o que um grupo violento precisa de fazer para silenciar as ideias de que não gosta é manifestar‑se violentamente e matar várias pessoas. Por exemplo, imagine‑se um grupo radical que defende uma dada ideia, estilo de vida ou religião que poucas pessoas na nossa sociedade aceitam. Por mais que as pessoas queiram discutir essa ideia publicamente, em livros e jornais, não poderão fazê‑lo pois sempre que o tentam há violência pública. Se o Estado aceitar que a violência pública é uma razão suficiente para limitar a liberdade de expressão, ficamos reféns de qualquer grupo violento que se oponha a que as suas ideias sejam discutidas. Segundo esta objecção, precisamos de tentar distinguir duas coisas diferentes, ainda que por vezes isso seja difícil. Por um lado, um discurso que não visa a violência, mas ao qual as pessoas reagem violentamente. Por outro, um discurso que visa a violência. Do ponto de vista desta objecção, podemos admitir que visar a violência e ter muita probabilidade de a conseguir é uma boa razão para limitar a liberdade de expressão. Mas haver alguém que reage violentamente a um dado discurso que não visa a violência não é uma boa razão para limitar a liberdade de expressão. 
A. Almeida e D. Murcho, Janelas Para a Filosofia, p. 85

Crença verdadeira justificada... mas que não é conhecimento



A Rita é apreciadora de carros antigos e tem reparado no Citroën boca‑de‑sapo estacionado num dos lugares reservados à administração, na garagem do edifício da empresa onde trabalha. Ela forma a crença de que um dos administradores da empresa tem um boca‑de‑sapo. Algum tempo depois, a Rita veio a descobrir, com grande surpresa, que o boca‑de‑sapo que viu era afinal de um morador daquela zona, que se aproveitava para estacionar discretamente ali o seu estimado carro. O morador oportunista só tinha conseguido estacionar ali o seu carro simplesmente porque o segurança julgava ser o boca‑de‑sapo de colecção que, por coincidência, a administradora Paula possuía. Até ter sido apanhado. 
O que nos mostra esta história? Em primeiro lugar, mostra‑nos que a Rita formou uma crença verdadeira: que um dos administradores tem um boca‑de‑sapo. Em segundo lugar, que a Rita tem uma justificação razoável para esta crença: ela própria viu um boca‑de‑sapo vários dias estacionado num lugar onde apenas podem ser estacionados veículos dos administradores. Consequentemente, a Rita formou justificadamente uma crença verdadeira; todavia, parece estranho dizer que ela sabia que um dos administradores tinha um boca‑de‑sapo. Isto porque ela ficou surpreendida ao descobrir que o carro não era de um dos administradores mas antes de um morador atrevido das vizinhanças; ora, não costumamos ficar surpreendidos com o que sabemos. Parece, pois, que a Rita tem uma crença verdadeira justificada, mas não tem conhecimento. Isto parece mostrar que não basta que uma crença verdadeira esteja justificada para haver conhecimento. Será que tem de se acrescentar alguma outra condição? Como reagir a contra‑exemplos deste género? 
A. Almeida e D. Murcho, Janelas Para a Filosofia, pp.180-181

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O que é a arte (de novo)

Aqui fica uma sugestão para começar o novo ano, no dia 9 de Janeiro, no auditório do Museu Coleção Berardo. Trata-se da segunda parte do colóquio O Que é a Arte?, de cuja primeira parte aqui deixámos nota.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Eles estão por todo o lado

O que há em comum entre todas estas pessoas?

Matt Groening (o criador de Os Simpsons)
Vaclav Havel (escritor e ex-presidente da República Checa)
Ethan Coen (realizador de cinema: Fargo, Este País não é para Velhos, O Grande Lebowski)
Lana del Rey (cantora)
Stewart Butterfield (co-fundador do Flickr)
Harrison Ford (ator)
Bruce Lee (ator de filmes de artes marciais)
Carly Fiorina (antiga presidente da HP)
Robert Motherwell (pintor)
Philip Glass (compositor)
Larry Sanger (co-fundador da Wikipédia)
Susan Sarandon (atriz: Telma e Louise, A Grande Caminhada, O Cliente)
Mike Ratledge (organista e fundador do grupo de rock progressivo Soft Machine)
Richard Gere (ator)
Gavin Bryars (compositor)
Peter Thiel (fundador do PayPal)
Terrence Malick (realizador de cinema: A Barreira Invisível)
Steve Reich (compositor)
Reid Hoffman (co-fundador do Linkedin)
Moby (músico)
...
Pacheco Pereira (comentador político)
Francisco Assis (político)

Sim, todas elas estudaram ou têm uma graduação superior em filosofia.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Janelas no Jornal de Letras


Métodos da Ética

É certamente merecido o prémio de tradução científica e técnica para língua portuguesa atribuído pela FCT à tradução de Os Métodos da Ética, do filósofo utilitarista Henry Sidgwick, por Pedro Galvão. A tradução de Pedro Galvão para a Fundação Calouste Gulbenkian (2013), é feita a partir da 7.ª edição do original inglês, de 1907, e inclui uma curta, mas muito clara e muito útil, introdução do tradutor. 

A introdução de Pedro Galvão começa assim:

Os Métodos da Ética, de Henry Sidgwick conta-se entre as obras-primas incontornáveis da ética filosófica — é o que asseveram muitos dos melhores filósofos morais do nosso tempo. John Rawls refere-se a este livro como «a obra filosoficamente mais profunda» do utilitarismo clássico, a teoria defendida por Jeremy Bentham, e mais tarde por J. S. Mill, que propõe a promoção da felicidade geral como padrão ético fundamental. Peter Singer, um utilitarista que não hesita em descrever Os Métodos da Ética como o melhor livro de ética jamais escrito, justifica deste modo a sua apreciação: «Não é fácil apontar questões importantes de ética normativa que não sejam abordadas já aí — e muitas vezes é difícil ir além daquilo que Sidgwick diz.»

E, por sua vez, o próprio Sidgwick começa o livro assim:

Os limites do estudo designado por «Ética» são concebidos de formas diversas e frequentemente vagas, mas talvez possam desde já ser suficientemente definidos, para os efeitos do presente tratado, se por um «método da ética» entendermos qualquer procedimento racional pelo qual determinamos aquilo que os seres humanos individuais «devem» fazer — ou que é «correcto» fazerem — ou procurar realizar por acções voluntárias. Ao usar a palavra «indivíduo», distingo provisoriamente o estudo da Ética do da Política, que procura determinar a constituição apropriada e a conduta pública correcta das sociedades governadas. Na minha opinião, tanto a Ética como a Política distinguem-se das ciências positivas por terem como objectivo especial  e primário determinar aquilo que deve ser, e não descobrir aquilo que meramente é, foi ou será.  

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Lógica aristotélica ou proposicional?



Ao longo de vários anos, tenho-me dado conta de que por cada dúvida que professores e alunos nos fazem chegar quanto à lógica proposicional, recebemos mais de uma vintena de dúvidas relativamente à lógica aristotélica. Isto só por si seria uma razão com alguma força para fazer os professores considerar leccionar a lógica proposicional em vez de leccionarem a aristotélica. Claro, esta é uma razão de mera expediência, e por isso sem muita força. Contudo, se a isto acrescentarmos os dois factos seguintes, ficamos com fortes razões para preferir leccionar a lógica proposicional à aristotélica.

E que factos são esses? O primeiro e mais óbvio é que a lógica proposicional ensina lógica aos alunos num sentido estruturante e operativo, porque ensina a lógica elementar profunda da linguagem do raciocínio, que eles usam todos os dias e a toda a hora: a lógica da negação, da condicional, da conjunção e da disjunção. Além disso, esta lógica está subjacente a muitas discussões filosóficas: para compreender com rigor o que é uma definição explícita de arte, por exemplo, ou de conhecimento, é preciso dominar a lógica da bicondicional, que não é mais do que uma conjunção de condicionais. Ainda mais além disso, quase nenhuma reconstrução de um argumento filosófico tem forma silogística, mas a maior parte dos argumentos filosóficos (sobretudo os estudados no secundário) têm uma estrutura proposicional, como é o caso do problema do mal, que se formula adequadamente como um modus tollens, mas também os argumentos centrais acerca do livre-arbítrio estudados no secundário.

O segundo facto é que a lógica aristotélica é tradicionalmente ensinada de uma maneira que não envolve da parte do aluno, efectivamente, qualquer tipo de raciocínio lógico relevante. Isto porque não ensinamos a demonstrar directamente a validade ou invalidade das formas silogísticas, como o fez o próprio Aristóteles; ensinamos apenas a aplicar mecanicamente uma lista de "regras". Isto torna-se nítido se pensarmos que uma pessoa que nada saiba de lógica é perfeitamente capaz de aplicar aquelas regras para determinar a validade ou invalidade das formas silogísticas; mas para demonstrar directamente a validade ou invalidade dessa formas, tal como Aristóteles o fez, é preciso saber realmente lógica.

Estas são razões suficientes para optar pelo ensino da lógica proposicional. Ao fazê-lo, temos tudo a ganhar, não apenas em termos de expediência — pois quase não surgem dúvidas na leccionação desta lógica — mas também, e sobretudo, em termos do serviço educativo que prestamos aos nossos alunos.

Fica o convite gentil. E nós estaremos sempre disponíveis para trabalhar em conjunto com os professores que se decidirem pela lógica proposicional.