sábado, 16 de maio de 2015

Avaliar as aprendizagens em filosofia

Avaliação das Aprendizagens em Filosofia — 10.º e 11.º Anos, foi um documento encomendado pelo antigo Departamento do Ensino Secundário (DES) à Sociedade Portuguesa de Filosofia e elaborado por Aires Almeida e António Paulo Costa. O documento contou com a participação de várias pessoas, que o discutiram e o aperfeiçoaram, antes de ser publicado na página do DES.

Dado que o documento deixou de estar disponível na net, decidimos disponibilizá-lo agora aqui.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Mais olimpíadas e mais medalhas

As Olimpíadas Nacionais de Filosofia estão definitivamente para ficar, e ainda bem. As IV Olimpíadas realizaram-se em meados deste mês de abril na ES de Montemor-o-Novo e os premiados foram os seguintes: 

A medalha de ouro foi para Maria João Robalo Portijo e Silva, da ES do Cartaxo; a medalha de prata foi para Sofia Cavaca Avelino, da inevitável ES Dr. Ginestal Machado (Santarém) e a medalha de bronze foi para Alexandre Silva M. R. Eira, da ES de Vergílio Ferreira (Lisboa). Os dois primeiros irão representar Portugal nas XXIII Olimpíadas Internacionais de Filosofia, em Tartu (Estónia), dentro de pouco mais de duas semanas.

Maria João e a sua colega de escola, Patrícia Silva (que recebeu uma menção honrosa), ladeando o professor Manuel João Pires, que as orientou e acompanhou.

Aguarda-se também pela realização das Olimpíadas ibero-americanas de Filosofia deste ano. As primeiras realizaram-se em 2014 e contaram com a participação de cinco países: Portugal, Espanha, México, Costa Rica e República Dominicana. Recordamos que Portugal venceu três dos seis prémios atribuídos: a medalha de ouro (José Castela Forte, da ES Dr. Ginestal Machado), uma medalha de prata (Beatriz Costa, da ES Ibn Mucana) e uma de bronze (Hugo Ferreira, da ES de Santa Maria). 

A organização portuguesa da Prosofos está, mais uma vez, de parabéns.

domingo, 26 de abril de 2015

Crença racional


 
Regressemos à discussão da crença. As crenças, como dissemos, podem ser avaliadas como verdadeiras ou falsas. Mas podem ainda ser avaliadas de acordo com uma segunda dimensão. Se a Maria nos diz que Júpiter tem dezasseis luas, queremos saber se está justificada em acreditar nisto, ou se é apenas um truque que ela retirou de um chapéu. Terá ela razões que tornem racional a sua crença nisso?  
O que queremos dizer com uma razão para acreditar? Normalmente, temos em mente uma prova para a crença, uma consideração ou observação que aumenta a plausibilidade da verdade da crença. Assim, poderíamos imaginar que a Maria apontou o seu poderoso telescópio para Júpiter e contou as suas várias luas. A estas razões, chamemos razões epistémicas.  
Alguns filósofos pensaram que pode também haver razões não epistémicas para acreditar numa dada proposição. Muitas conversões religiosas foram conseguidas com uma arma apontada à cabeça: «Acredita nisto, senão...» Podemos pensar que uma pessoa que olha para o cano de uma arma tem razão para adoptar qualquer crença que lhe seja proposta — uma razão pragmática e não epistémica: as considerações avançadas não apontam para a verdade da crença, mas apenas para as vantagens pragmáticas de aceitar essa crença (não levar um tiro na cabeça).  
Esta distinção — entre razões epistémicas e razões pragmáticas para acreditar — é ilustrada pelo famoso argumento de Blaise Pascal para afirmar que todos temos razão para acreditar em Deus. O argumento de Pascal é que as consequências de não acreditar em Deus se este existir (inferno e condenação eterna) são muito piores do que as consequências de acreditar Nele se não existir (uma certa remissão do pecado e contrição). Assim, é melhor acreditar do que não acreditar. Se o argumento funcionasse, estabeleceria, quando muito, que temos uma razão pragmática para acreditar em Deus, mas não uma razão epistémica, pois o argumento nada faz para aumentar a plausibilidade da existência do Todo‑Poderoso. Em contrapartida, habitualmente pensamos que as observações astronómicas de Júpiter nos fornecem razões epistémicas, e não pragmáticas, para acreditarmos que esse planeta tem um certo número de luas.  
Dissemos que para que a Maria fosse racional ao acreditar que Júpiter tem dezasseis luas teria de ter boas razões a favor dessa crença. No entanto, estaremos aqui a falar de razões epistémicas ou será que outros tipos de razões entram também na racionalidade, como as pragmáticas?  
Regressaremos a esta questão. Como veremos, uma das concepções que queremos aprofundar é a ideia de que a racionalidade tem sempre a ver, em parte, com razões não epistémicas de uma pessoa. 
Seja como for que se construa a racionalidade, vemos que as razões da crença podem ser falíveis: podemos ter boas razões para acreditar numa coisa falsa. As provas que os gregos pré‑aristotélicos tinham levavam a que fosse racional para eles acreditarem que a Terra era plana, ainda que, como agora sabemos, seja redonda.  
Tal como também mostra este exemplo, as razões são prescritíveis: podemos ter boas razões para acreditar numa coisa numa certa altura e, depois, como resultado de mais informações, deixar de ter boas razões para acreditar nessa mesma proposição noutra altura. Os gregos pré‑aristotélicos acreditavam justificadamente que a Terra era plana; nós acreditamos justificadamente que é redonda.  
Suponhamos, então, que, tal como as observações visuais da Terra a partir do espaço parecem decisivamente confirmar, o planeta em que vivemos é, de facto, redondo. Assim, a nossa crença de que a Terra é redonda é justificada e verdadeira; segundo a habitual e amplamente aceite definição platónica de conhecimento, a nossa crença conta, portanto, como conhecimento.  
Conhecimento:  
Um sujeito S sabe que p se e só se: 
  1. S acreditar que p;  
             2.  S estiver justificado em acreditar que p; 
           
             3.  p for verdadeiro. 

Os nossos antepassados pensavam que sabiam que a Terra era plana, mas estavam errados. Ainda que a crença deles acerca da Terra fosse justificada, era falsa. Para que uma crença seja considerada conhecimento tem, não só de ser justificada, mas também verdadeira. 
Paul Boghossian, O Medo do Conhecimento (Gradiva), pp. 25-27

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O que significa alguém acreditar em alguma coisa?

Acabou de ser publicado o excelente O Medo do Conhecimento: Contra o Relativismo e o Construtivismo (Gradiva), do filósofo Paul Boghossian.


Neste pequeno e muito aclamado livro de Boghossian, há várias secções que servem perfeitamente para os professores de filosofia do secundário usarem nas suas aulas, seja sobre a própria noção de conhecimento, seja sobre a avaliação da perspetiva de Kuhn acerca da ciência, entre outros aspetos.

Aqui fica um pequeno excerto sobre a própria noção de conhecimento, mais precisamente sobre uma das suas condições necessárias: a crença.

    Uma crença é um tipo particular de estado mental. Se perguntarmos qual é exactamente esse tipo de estado mental, percebemos que não é fácil responder. É claro que podemos descrevê‑lo por outras palavras, mas apenas em termos que exigem tanta explicação como falar sobre a crença. Acreditar que Júpiter tem dezasseis luas, por exemplo, é aceitar que o mundo é tal que, nele, Júpiter tem dezasseis luas; ou representar o mundo como contendo um corpo celeste particular com dezasseis luas; e assim sucessivamente.
      Ainda que não possamos analisar a crença em termos de conceitos significativamente diferentes, podemos ver claramente que, nela, três aspectos são essenciais. Qualquer crença tem de ter um conteúdo proposicional; qualquer crença pode ser considerada verdadeira ou falsa; e qualquer crença pode ser considerada justificada ou injustificada, racional ou irracional
    Considere‑se a crença da Maria de que Júpiter tem dezasseis luas. Atribuímos esta crença com a frase:  
          A Maria acredita que Júpiter tem dezasseis luas.  
    Que Júpiter tenha dezasseis luas, podemos dizer, é o conteúdo proposicional da crença da Maria. 
    O conteúdo proposicional de uma crença especifica como o mundo é, de acordo com a crença. Especifica, por outras palavras, uma condição de verdade — como o mundo terá de ser, se a crença for verdadeira. Assim,  
           A crença da Maria de que Júpiter tem dezasseis luas é verdadeira se e só se Júpiter tiver dezasseis luas.  
    Também podemos dizer que a crença da Maria é verdadeira se e só se for um facto que Júpiter tem dezasseis luas.    
(pp. 21-22)

sexta-feira, 27 de março de 2015

Encontro de professores de Filosofia de 2015


A Sociedade Portuguesa de Filosofia, em parceria com o Departamento de Filosofia da Faculdade Letras da Universidade de Lisboa, organiza este ano a 12.ª Edição dos Encontros Nacionais de Professores de Filosofia. O encontro realizar-se-á nos dias 3 e 4 de Setembro, na F.L.U.L. e contará, como orador internacional, com a Professora Adela Cortina, catedrática de Ética e Filosofia Jurídica, Moral e Política na Universidade de Valência, membro da Real Academia de Ciencias Morales y Políticas,directora da Fundação ETNOR e vencedora do Prémio Nacional de Ensaio 2014 com o livro Para qué sirve realmente la ética?
Estão abertas as candidaturas para a apresentação de comunicações em língua portuguesa sobre qualquer tópico de filosofia ou didáctica da filosofia, incluindo ainda propostas de sessões práticas ou workshops nesses âmbitos. As comunicações não devem exceder os 30 minutos, de modo a reservar 20 minutos à discussão. As sessões práticas poderão ocupar 50 minutos, desde que seja garantida a oportunidade para a participação do público.
Os candidatos deverão enviar para o endereço spfil@spfil.pt, até 30 de Abril, o título da sua comunicação/sessão prática e um resumo da mesma que não exceda as 500 palavras. Os resumos das propostas de comunicação devem indicar de forma clara a(s) ideia(s) a defender, e incluir um esboço do argumento ou percurso propostos. Na rubrica “Assunto” da mensagem deverão inscrever “12ENPF Proposta”. O resumo deverá ser enviado em anexo em formato Word ou PDF e não deverá conter nenhuma referência que permita identificar o autor ou instituições a que este esteja ligado. O mesmo será apreciado sob anonimato. A decisão do júri será comunicada aos autores até 31 de Maio por correio electrónico.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Aborto, eutanásia e direitos dos animais

Nada melhor para quem quer discutir disciplinada e filosoficamente temas e problemas como estes do que começar por ler Ética com Razões, da autoria de quem mais tem refletido e mais sabe sobre o assunto. Este livro de Pedro Galvão, recentemente publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é uma boa notícia. Até pelo preço.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015