quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Eles estão por todo o lado

O que há em comum entre todas estas pessoas?

Matt Groening (o criador de Os Simpsons)
Vaclav Havel (escritor e ex-presidente da República Checa)
Ethan Coen (realizador de cinema: Fargo, Este País não é para Velhos, O Grande Lebowski)
Lana del Rey (cantora)
Stewart Butterfield (co-fundador do Flickr)
Harrison Ford (ator)
Bruce Lee (ator de filmes de artes marciais)
Carly Fiorina (antiga presidente da HP)
Robert Motherwell (pintor)
Philip Glass (compositor)
Larry Sanger (co-fundador da Wikipédia)
Susan Sarandon (atriz: Telma e Louise, A Grande Caminhada, O Cliente)
Mike Ratledge (organista e fundador do grupo de rock progressivo Soft Machine)
Richard Gere (ator)
Gavin Bryars (compositor)
Peter Thiel (fundador do PayPal)
Terrence Malick (realizador de cinema: A Barreira Invisível)
Steve Reich (compositor)
Reid Hoffman (co-fundador do Linkedin)
Moby (músico)
...
Pacheco Pereira (comentador político)
Francisco Assis (político)

Sim, todas elas estudaram ou têm uma graduação superior em filosofia.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Janelas no Jornal de Letras


Métodos da Ética

É certamente merecido o prémio de tradução científica e técnica para língua portuguesa atribuído pela FCT à tradução de Os Métodos da Ética, do filósofo utilitarista Henry Sidgwick, por Pedro Galvão. A tradução de Pedro Galvão para a Fundação Calouste Gulbenkian (2013), é feita a partir da 7.ª edição do original inglês, de 1907, e inclui uma curta, mas muito clara e muito útil, introdução do tradutor. 

A introdução de Pedro Galvão começa assim:

Os Métodos da Ética, de Henry Sidgwick conta-se entre as obras-primas incontornáveis da ética filosófica — é o que asseveram muitos dos melhores filósofos morais do nosso tempo. John Rawls refere-se a este livro como «a obra filosoficamente mais profunda» do utilitarismo clássico, a teoria defendida por Jeremy Bentham, e mais tarde por J. S. Mill, que propõe a promoção da felicidade geral como padrão ético fundamental. Peter Singer, um utilitarista que não hesita em descrever Os Métodos da Ética como o melhor livro de ética jamais escrito, justifica deste modo a sua apreciação: «Não é fácil apontar questões importantes de ética normativa que não sejam abordadas já aí — e muitas vezes é difícil ir além daquilo que Sidgwick diz.»

E, por sua vez, o próprio Sidgwick começa o livro assim:

Os limites do estudo designado por «Ética» são concebidos de formas diversas e frequentemente vagas, mas talvez possam desde já ser suficientemente definidos, para os efeitos do presente tratado, se por um «método da ética» entendermos qualquer procedimento racional pelo qual determinamos aquilo que os seres humanos individuais «devem» fazer — ou que é «correcto» fazerem — ou procurar realizar por acções voluntárias. Ao usar a palavra «indivíduo», distingo provisoriamente o estudo da Ética do da Política, que procura determinar a constituição apropriada e a conduta pública correcta das sociedades governadas. Na minha opinião, tanto a Ética como a Política distinguem-se das ciências positivas por terem como objectivo especial  e primário determinar aquilo que deve ser, e não descobrir aquilo que meramente é, foi ou será.  

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Lógica aristotélica ou proposicional?



Ao longo de vários anos, tenho-me dado conta de que por cada dúvida que professores e alunos nos fazem chegar quanto à lógica proposicional, recebemos mais de uma vintena de dúvidas relativamente à lógica aristotélica. Isto só por si seria uma razão com alguma força para fazer os professores considerar leccionar a lógica proposicional em vez de leccionarem a aristotélica. Claro, esta é uma razão de mera expediência, e por isso sem muita força. Contudo, se a isto acrescentarmos os dois factos seguintes, ficamos com fortes razões para preferir leccionar a lógica proposicional à aristotélica.

E que factos são esses? O primeiro e mais óbvio é que a lógica proposicional ensina lógica aos alunos num sentido estruturante e operativo, porque ensina a lógica elementar profunda da linguagem do raciocínio, que eles usam todos os dias e a toda a hora: a lógica da negação, da condicional, da conjunção e da disjunção. Além disso, esta lógica está subjacente a muitas discussões filosóficas: para compreender com rigor o que é uma definição explícita de arte, por exemplo, ou de conhecimento, é preciso dominar a lógica da bicondicional, que não é mais do que uma conjunção de condicionais. Ainda mais além disso, quase nenhuma reconstrução de um argumento filosófico tem forma silogística, mas a maior parte dos argumentos filosóficos (sobretudo os estudados no secundário) têm uma estrutura proposicional, como é o caso do problema do mal, que se formula adequadamente como um modus tollens, mas também os argumentos centrais acerca do livre-arbítrio estudados no secundário.

O segundo facto é que a lógica aristotélica é tradicionalmente ensinada de uma maneira que não envolve da parte do aluno, efectivamente, qualquer tipo de raciocínio lógico relevante. Isto porque não ensinamos a demonstrar directamente a validade ou invalidade das formas silogísticas, como o fez o próprio Aristóteles; ensinamos apenas a aplicar mecanicamente uma lista de "regras". Isto torna-se nítido se pensarmos que uma pessoa que nada saiba de lógica é perfeitamente capaz de aplicar aquelas regras para determinar a validade ou invalidade das formas silogísticas; mas para demonstrar directamente a validade ou invalidade dessa formas, tal como Aristóteles o fez, é preciso saber realmente lógica.

Estas são razões suficientes para optar pelo ensino da lógica proposicional. Ao fazê-lo, temos tudo a ganhar, não apenas em termos de expediência — pois quase não surgem dúvidas na leccionação desta lógica — mas também, e sobretudo, em termos do serviço educativo que prestamos aos nossos alunos.

Fica o convite gentil. E nós estaremos sempre disponíveis para trabalhar em conjunto com os professores que se decidirem pela lógica proposicional.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Subalternas

O quadro acima encontra-se na página 35 do manual do 11.º ano (no manual do professor está totalmente preenchido). 

Alguns colegas perguntaram-nos se a resposta que se encontra destacada no quadro acima estará mesmo correta. Então a subalterna de uma proposição do tipo I (Algumas verdades são desagradáveis) não é uma proposição do tipo A (Todas as verdades são desagradáveis)? Não é verdade que A e I são subalternas uma da outra? Se isso for verdade, então há um erro no quadro, pois a resposta correta não é "Não tem". 

Mas a verdade é que não há qualquer erro no quadro, pois as proposições de tipo I e de tipo O não têm subalternas, apesar de elas serem subalternas de proposições de tipo A e tipo E, respetivamente.

A relação de subalternidade, ao contrário das outras (contrariedade, contraditoriedade e subcontrariedade), não é simétrica. Assim, uma proposição de tipo I é a subalterna de uma proposição de tipo A. Mas uma proposição de tipo A não é a subalterna de uma proposição de tipo I. Isto contrasta, por exemplo com o que se passa entre as proposições contrárias A e E. Neste caso a relação é simétrica, ou seja, A é a contrária de E e a E é contrária de A. 

Recorde-se que I é subalterna de A, assim como O é subalterna de E, se e só se excluirmos classes vazias; caso as incluamos, não há qualquer relação de subalternidade (tal como não há também diferença entre as contrárias e as subcontrárias). 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Concurso: Ensaio filosófico no ensino secundário


Eis uma excelente iniciativa da Associação de Professores de Filosofia (APF), que merece uma grande adesão de todos os professores de Filosofia do secundário.

A APF irá promover, no presente ano letivo, o concurso Ensaio filosófico no ensino secundário, dirigido a todos os alunos do ensino secundário público e privado português, com as seguintes finalidades: promover nos jovens o interesse pela escrita e reflexão filosófica sobre problemas atuais; valorizar o ensino da filosofia no ensino secundário e contribuir para a divulgação do trabalho realizado na escolas. 

O prazo de entrega de ensaios termina no dia 1 de Junho de 2015. O tema é livre e o ensaio não deve ultrapassar as 20 páginas (incluindo capa, eventuais índices, referências bibliográficas, anexos, etc.). O prémio é de 150 € e só pode concorrer um aluno por escola, obrigatoriamente orientado por um professor.

Os Ensaios serão avaliados em função dos seguintes critérios: 
   a) exploração rigorosa do problema, tese(s), argumentos e conceitos em discussão 
   b) estruturação dos conteúdos 
   c) clareza e rigor da expressão. 

Mãos à obra!

domingo, 30 de novembro de 2014

Validades silogísticas condicionais



Na página 32 do 50LF11, sugerimos, em nota para o professor, a inclusão de uma quinta regra: se as premissas forem universais, a conclusão não pode ser particular. Esta regra estava originalmente elencada no rol das regras silogísticas, mas acabou por ser eliminada para responder à preferência dos professores que optam por excluir classes vazias, em vez de usar a quinta regra.

Contudo, esta quinta regra não exclui apenas silogismos da forma AAI, que são condicionalmente válidos, sob a condição de não usarmos classes vazias, mas também silogismos da forma AAO, que também são condicionalmente válidos, mas sob a condição de não só não usarmos classes vazias, como também não usarmos termos co-extensionais.

O que não prevíamos era que a eliminação da quinta regra do elenco acabaria por levantar algumas perplexidades em alunos e professores, quando descobrem que as quatro regras elencadas não excluem as validades condicionais. Acontece que não só não excluem, como não visam exclui-las; elas são validades condicionais precisamente porque excluindo classes vazias e termos co-extensionais não há silogismos inválidos da forma AAI nem AAO.

Vejamos os seguintes exemplos, que ilustram o que foi exposto. No caso de um silogismo AAI, vejamos este caso:

Todos os mamíferos são animais de sangue quente.
Todos os marcianos são mamíferos.
Logo, alguns marcianos são animais de sangue quente.

Este silogismo é inválido porque as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa. A segunda premissa, contudo, deve a sua verdade à inexistência de marcianos, e não ao facto de haver marcianos e todos eles serem mamíferos. Por isso mesmo, a conclusão é falsa, pois declara que há marcianos que são animais de sangue quente. A maneira de bloquear este silogismo é a) rejeitar o uso do termo vazio “marcianos” ou b) usar a regra 5 (se duas premissas forem universais, a conclusão não pode ser particular). No primeiro caso, consideramos que AAI é condicionalmente válido: válido quando excluímos classes vazias; no segundo, consideramos que é inválido.

Vejamos agora um exemplo de AAO:

Quem mora na capital de Portugal, mora na Europa.
Todos os moradores de Lisboa moram na capital de Portugal.
Logo, alguns moradores de Lisboa não moram na Europa.

As premissas são verdadeiras e a conclusão falsa; logo, o silogismo é inválido. Uma vez mais, há duas maneiras de bloquear este silogismo: a) rejeitamos o uso dos termos co-extensionais “morador de Lisboa” e “morador da capital de Portugal”, ou b) usamos a regra 5 (se duas premissas forem universais, a conclusão não pode ser particular). No primeiro caso, consideramos que AAO é condicionalmente válido: válido quando excluímos termos co-extensionais; no segundo, consideramos que é inválido.

Esperamos que esta nota seja esclarecedora para alunos e professores. Pessoalmente, penso que é mais simples usar a regra 5; alguns professores, contudo, como comecei por fazer notar, preferem não usar esta regra e excluir as classes vazias. Neste caso, devem excluir também termos co-extensionais, para poderem aceitar a validade condicional de AAO.

Vale a pena acrescentar que as chamadas regras do silogismo não são realmente regras lógicas, no sentido em que o modus ponens ou o modus tollens são regras. Neste último caso, trata-se de validades elementares, com base nas quais podemos demonstrar a validade de outras validades. No caso da lógica silogística, trata-se de meta-teoremas: resultados que Aristóteles estabeleceu depois de ter demonstrado as validades e invalidades, recorrendo à teoria da conversão e partindo de silogismos obviamente válidos, como o Bárbara. Só na idade média se começou a usar esses meta-teoremas, muitas vezes afastando-se da lista original de Aristóteles, como uma espécie de receita para determinar a validade. Infelizmente, esta maneira de proceder tornou-se comum no ensino da lógica aristotélica, apesar de ser inadequado — é como se em vez de ensinarmos a fazer operações de divisão, em aritmética, ensinássemos tabelas que nos dão o resultado de várias divisões. O resultado é dar ao aluno a ilusão de que sabe lógica, quando na verdade saber lógica é saber demonstrar validades ou invalidades, coisa que Aristóteles fez correctamente, mas que o aluno não aprendeu a fazer.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Janelas para a filosofia

O livro Janelas Para a Filosofia, dos autores deste blogue, começa hoje a ser distribuído pelas livrarias de todo o país e já pode ser encomendado na página da Gradiva (com desconto e portes grátis). Deixamos abaixo um pequeno excerto, para se poder ficar com uma ideia.


As éticas deontológicas são muito rígidas; as consequencialistas são um pouco mais flexíveis. Mas em ambos os casos temos teorias concebidas em termos quase científicos: como se fossem teorias da geometria ou da física. Estas teorias são generalistas, no sentido em que, em cada caso particular, a mera aplicação dos seus princípios gerais nos dá uma resposta adequada. Por exemplo, para saber qual é a área de um dado terreno, aplicamos os princípios gerais da trigonometria; e ficaríamos muito surpreendidos se estes princípios não dessem resultados inteiramente adequados. Todavia, isso é exactamente que parece acontecer no caso das teorias deontologistas e consequencialistas: ao aplicá-las a casos particulares, como os casos dos comboios desgovernados, os resultados parecem inadequados.
   A ética das virtudes não é generalista. Ao contrário do deontologista ou do consequencialista, Aristóteles pensa que não há critérios substanciais adequados da acção correcta, como “age de acordo com o imperativo categórico” ou “promove a maior felicidade do maior número”. Claro que, do ponto de vista de Aristóteles, cultivar as virtudes é o mais importante da vida ética; mas “age de maneira virtuosa” é um critério vazio porque não nos diz ainda como agir exactamente em cada caso particular. Porém, se não temos critérios da acção correcta, como vamos descobrir o que fazer em cada caso?
    A resposta é que temos de ter reflectido previamente sobre virtudes paradigmáticas, como a coragem ou a lealdade; então, perante uma situação da vida, tentamos descobrir o que é virtuoso fazer naquele caso particular. Uma vez que, nessa reflexão prévia, vimos que a acção virtuosa se encontra, em vários casos, num meio-termo entre um excesso e um defeito (coragem em excesso é o vício da temeridade, por exemplo, e a falta de coragem é o vício da cobardia), usamos essa ideia como guia. Mas é um mero guia: a doutrina aristotélica do meio-termo não deve ser encarada como um critério da acção correcta, como se fosse um imperativo categórico ou o princípio consequencialista de promover a maior felicidade para o maior número. Até porque, se o fosse, produziria resultados obviamente falsos: entre assaltar um banco de maneira mais arriscada sem matar pessoas e assaltá-lo de maneira menos arriscada matando dez pessoas, o meio-termo é assaltá-lo matando apenas cinco; mas é claro que isto não é uma razão para pensar que esta é a coisa virtuosa a fazer.
     A ideia de Aristóteles é que temos, em cada caso, de pesar cuidadosamente os factores relevantes, procurando não cair em excessos; mas não há um princípio geral, como na deontologia ou no consequencialismo, para descobrir qual é a acção virtuosa. Perante uma pessoa carenciada, por exemplo, pode ser virtuoso ajudá-la, dando-lhe mil euros para ela resolver as suas dificuldades; perante outra, que não o merece, poderá ser vicioso fazer tal coisa. Tudo depende de vários factores moralmente relevantes, que variam sempre tanto de situação para situação que não podem ser adequadamente integrados numa teoria geral da acção correcta. Esta surge assim não como a aplicação automática de um princípio teórico geral, mas em resultado da decisão de um agente virtuoso, que reflectiu cuidadosamente na questão e tomou uma decisão de acordo com a razão.

sábado, 8 de novembro de 2014

Filosofia da música

Uma excelente antologia organizada por Vítor Guerreiro, que também escreve a introdução. Trata-se de filosofia no seu melhor. Uma breve descrição aqui e uma espreitadela no próprio livro aqui.